Sociedade

Clima. Se tudo continuar como está, Vera vai tricotar uma linha do tamanho de Portugal

29 novembro 2019 21:48

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

nuno botelho

São os jovens que continuam a sair à rua e a manifestar-se e a gritar pelo futuro, mesmo quando se fazem cimeiras de “fachada” e se diz que “a casa está a arder mas fica-se lá dentro e nem sequer se chama os bombeiros”, mas são também os adultos. Se tudo continuar como está e o Governo português não cancelar os contratos de exploração de gás no centro do país, Vera Correia vai tricotar linhas vermelhas “até ser velhinha, ad infinitum” para mostrar que já foram muitas que se pisaram e continuam a pisar em relação ao clima. “Isto depende da vontade política e, portanto, não vai ter fim”

29 novembro 2019 21:48

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

“Mas quando é que isto chega ao fim?”, pergunta Vera Correia, de 52 anos, de olhar vergado sobre o novelo de linha vermelha que brota do saco de supermercado encostado à sua perna. Não está impaciente, até porque se há coisa que gosta de fazer quando não está a trabalhar é crochet. Foi isso, aliás, que a levou a juntar-se há alguns anos ao coletivo de ativistas Linha Vermelha e à sua iniciativa de tricotar, em manifestações e greves pelo clima como a desta sexta-feira — que reuniu esta sexta-feira milhares de pessoas, sobretudo jovens, em frente à Assembleia da República, em Lisboa — uma faixa vermelha em linha ou lã como forma de protesto contra a exploração de petróleo e gás em Portugal.

O objetivo era claro: tricotar até o Governo cancelar todos os contratos que fez para a exploração de gás e petróleo, mas isso ainda não foi feito — há dois ainda em vigor, para um furo na Bajouca, concelho de Leiria, e outro em Aljubarrota — e portanto a linha continua a crescer, tem já um quilómetro de comprimento, outros tantos esperam-se, "talvez chegue ao tamanho de Portugal", quem sabe?, "como as coisas estão", e Vera não sabe quando é que vai parar de tricotar. Provavelmente não vai, "porque tudo depende das vontades políticas e económicas". "Estamos no ativo ad infinitum. Até já estou a imaginar-me velhinha, muito velhinha, toda torta, e ainda a tricotar" Ri-se.

nuno botelho

Lembra-se bem da primeira vez em que tricotou como forma de protesto, “foi em frente ao Tejo, ao pé do Museu da Eletricidade”. Éramos imensos, só com linhas vermelhas e cartazes e a tricotar. Tudo assim meio à revelia”. E foi assim ali e haveria de ser o mesmo depois. "Fui participando em várias ações, sempre assim meio rebeldes, sem avisar a polícia, assim uma coisa meio hippie". Ri-se. Além de fazer crochet, também ensina a técnica nas instituições, centros, escolas e universidades sénior onde o coletivo Linha Vermelha faz questão de ir para “alertar as pessoas para os vários problemas ecológicos que existem em Portugal, como a extração de gás”.

A cada uma dessas pessoas é-lhes normalmente pedido que “contribuam com um quadrado" de dimensões específicas que depois será cosido a outro quadrado já cosido a outro quadrado, e assim "aumentar a linha". Também costumam receber contribuições de fora, “de toda a Europa, quadrados em tricot e em crochet” - ainda há tempos receberam “uma caixa enorme, com quadrados até cima, vinda de Inglaterra”. É que isto do crochet tem “várias vantagens”, diz Vera: se por um lado “é uma forma de se estar concentrado, relaxado e ser criativo”, por outro “permite consciencializar para a questão do clima”. E é o crochet como poderia ser "fazer queijo", "embora logisticamente talvez fosse mais complicado". Talvez tenha razão, e ri-se novamente.

Cimeira em Madrid? É tudo “uma fachada”, é preciso “uma cimeira alternativa, social, que junte pessoas reais com problemas reais”

A reivindicação de Vera Correia é a de Inês Teles, 30 anos, que decidiu juntar-se à luta climática depois de ter participado no acampamento que vários coletivos de ativistas organizaram em julho, na Bajouca, em Leiria, como forma de protesto contra os planos do Governo de abrir ali um furo de prospeção. “Senti que estávamos mesmo a fazer a diferença e cheguei à conclusão de que queria mesmo fazer parte disto, que isto é mesmo importante.”

nuno botelho

Essa vontade concretizou-a aderindo há uns meses ao Climáximo, coletivo de ativistas que luta pela justiça climática, e hoje é ela a responsável por recolher os nomes de todos aqueles que queiram participar na “cimeira alternativa” à de Madrid (a COP-25, que se realiza entre 2 e 13 de dezembro na capital espanhola) que está a ser organizada. “A única coisa que a cimeira em Madrid fará é sentar à mesma mesa de negociações países poderosos e magnatas de combustíveis fósseis que defendem interesses económicos e financeiros completamente diferentes do que deveriam ser defendidos ali. São negociações totalmente vãs.” E mesmo quando desses encontros oficiais resultam propostas concretas, “não são realistas, são apenas as soluções que o capitalismo e os capitalistas apresentam para fingir que estão a fazer alguma coisa em relação à crise climática”, e mesmo quando o são — realistas — “nem sequer são aplicadas”. “É tudo uma fachada.”

A mudança inesperada do local de realização da cimeira — do Chile para Madrid, a pouco mais de duas semanas do evento, por decisão do Governo chileno devido aos protestos contra a desigualdade social e a corrupção que se mantêm nas ruas há mais de um mês sem perspetivas de terminar — foi criticada por vários grupos de defesa do clima, e também Inês Teles tem algo a dizer sobre isso. “Essa decisão é mais uma afirmação do eurocentrismo predominante. É absurdo que pela terceira vez se faça uma cimeira destas num país europeu”. E, mais do que isso, que se exclua o Chile num momento em que os que lá vivem “sentem que o sistema neoliberal, que não só explora até à exaustão todos os recursos mas também as pessoas, lhes está a falhar”. “Está tudo interligado. O movimento pela justiça climática envolve tudo isso, não apenas as causas ambientais, mas também as sociais.” Daí ser tão importante criar uma alternativa à cimeira em Madrid e que essa alternativa seja uma “cimeira social que junte pessoas reais, com problemas reais”, diz Inês. Ainda não há tantas pessoas confirmadas quanto as expectativas (entre 100 a 150), mas a jovem acredita que depois da greve desta sexta-feira as folhas de papel que traz na mão vão ficar finalmente preenchidas “A greve, mas também a vinda da Greta, fará com que mais pessoas se inscrevam. É pelo menos isso que esperamos.”

nuno botelho

O mesmo ceticismo relevado em relação à cimeira em Madrid merece-lhe a decisão do Parlamento Europeu de decretar emergência climática: “decreta-se, decreta-se e depois não acontece nada”. A mesma opinião tem Duncan Crowley, irlandês de 42 anos que vive há um ano e meio em Portugal e faz parte do Ecolise, uma rede europeia que agrega várias iniciativas na área das alterações climáticas e sustentabilidade. “Tudo isso é demasiado simbólico e, mais do que decretar estados de emergência precisamos de ter discussões sérias sobre os assuntos. Portugal precisa de discutir seriamente o assunto”.

Duncan, que tem nas mãos a bandeira Wiphala, das comunidades indígenas dos Andes (a mulher é oriunda do Peru), participa “há mais de 20 anos em manifestações pelo clima” e portanto não havia razão para falhar esta. Alonga-se bastante na explicação sobre o que é o descrescimento — movimento que defende que uma economia baseada num aumento do Produto Interno Bruto (PIB) não é sustentável para o planeta e que é necessário mudar de paradigma — e fala sobre a necessidade de “tomar medidas radicais rapidamente”. “Os políticos estão finalmente a reconhecer que temos um problema sério em mãos”, diz, e embora o tom seja de urgência, não lhe falta esperança. “Eu participo em protestos destes há mais de 20 anos, no Brasil, Espanha e outros países onde já vivi, e a verdade é que nunca tivemos tantas pessoas na rua como agora. Se acho que os políticos e os governos vão fazer alguma coisa para mudar? Não, não acho. Se acho que é importante estar aqui e tentar passar-lhes mensagens? Sim, acho. Se sabemos exatamente qual é a solução? Não, não sabemos. Mas estamos a começar a chegar lá.”

“Os nossos amigos do liceu são da classe alta e não se preocupam porque acham que vão continuar a ter tudo”

Quem também pode falar sobre não arredar pé de manifestações (embora tenham sido menos os que participaram nesta em comparação com as anteriores, por ter sido anunciada com pouca antecedência e coincidido com época de testes nas escolas, segundo explicaria mais tarde ao Expresso António Assunção, da organização) é Guilherme Assunção, de 17 anos, que continua a participar nas greves pelo clima mesmo quando estas “já passaram de moda” para os colegas do Liceu Francês “ou já não é fixe vir”. Para ele ainda faz sentido e faz porque “o Governo português tem de mudar”. Queixa-se, em específico, das obras de construção para o novo aeroporto do Montijo, “que é um dos grandes erros porque vai aumentar o tráfego aéreo e poluir ainda mais”.

Está com outros cinco colegas turma, os “únicos que ainda vêm” às greves e um deles, Bernardo Soares, de 16 anos, interrompe para falar sobre esta espécie de frente resistente.

nuno botelho

“Todos os estudantes do nosso liceu são da classe alta, nós incluídos, claro, e não se interessam pelos problemas atuais porque sempre tiveram tudo e acreditam que vão continuar a ter. A ter casa, trabalho, tudo simples e à mão de semear. Nada disto os afeta diretamente”. A ele afeta-o ou passou a afetar depois de “ter tido a sorte de ter aberto os olhos” e ter percebido que, embora os efeitos das alterações climáticas “não estejam já a ser sentidos de uma forma muito óbvia no nosso país, estão já a afetar o resto do mundo”. “Eles não estão mesmo a perceber o que vai acontecer, a dimensão de tudo isto, acham que não vai ser assim tão mau. Vivem em negação”, interpela Guilherme, e de repente ficam todos muito sérios, hirtos, sem esconder o orgulho no colega. “Falaste bem, hem?”, atira-lhe um deles.