Sociedade

Chibanga, o toureiro que veio de África (1942-2019)

16 abril 2019 12:23

O Expresso republica a história de Ricardo Chibanga, o primeiro matador de touros negro, publicada originalmente na revista de 6 de agosto de 2011. “El africano, matador” morreu esta terça-feira em sua casa, na Golegã, aos 76 anos

16 abril 2019 12:23

O cavaleiro estende a mão ao forcado e deseja-lhe "Boa-sorte". Cheira a estrume e a terra batida.

A terra é vermelha e há uma humidade cortante no ar. É noite. De repente a banda solta-se num rompante de instrumentos de sopro e o ar enche-se de música. Um frenesim quente e contagiante envolve a arena iluminada. Os cavaleiros apresentam-se, os forcados apresentam-se, o público aplaude. O momento é emocionante. O touro está prestes a sair dos curros. Eis que aparece. Um motor de força bruta às voltas pela arena. O público está ao rubro. A lotação está esgotada na única corrida que terá lugar este verão na Lourinhã, a poucos quilómetros de Torres Vedras. A praça onde a corrida acontece é desmontável e pertence a um empresário da Golegã de 68 anos,

Ricardo Chibanga, que corre o país por altura das festas para levar a tourada às terras.

Até a corrida terminar andará de um lado para o outro, nervoso e atento, cumprimentando uns e outros, dando voltas à arena, dentro da trincheira, inúmeras vezes.

Uma equipa de filmagens, que anda a preparar um documentário, segue-o. Foi o primeiro negro a vestir-se com "trajes de luzes" e no seu tempo toureou nas maiores arenas do mundo. 'El africano, matador'.

Esta história é sobre ele.

Início da década de 60. Lourenço Marques, em pleno período colonial. Três vezes por ano os grandes toureiros da metrópole chegam à capital de Moçambique para fazerem as honras na praça de madeira ao pé do aeroporto. Um carro de caixa aberta percorre as avenidas largas da cidade anunciando numa corneta as estrelas de cartaz: Manuel dos Santos, Diamantino Viseu, David Ribeiro Telles, Manuel Conde...

Ricardo Chibanga, um rapaz de 16 anos da Mafalala, o bairro indígena ali mesmo ao lado da praça, não resiste a ir espreitá-los.
Nunca tinha visto nada igual. Enquanto os amigos jogam à bola no descampado e sonham vir a ser jogadores de futebol, ele, sem saber bem porquê, fica vidrado naquele espetáculo estranho e fora do seu mundo. Sobretudo, deslumbra-se com o brilho dos fatos.

Todos os dias anda por ali, até que o homem que toma conta da praça deixa-o ir com um grupo de amigos limpar o capim, montar as bancadas, correr os hotéis e as praias da Costa do Sol para distribuir panfletos aos turistas publicitando de novo as corridas. E quando os toureiros regressam a Lourenço Marques, finalmente conhece-os.

Os aficionados costumavam juntar-se num café perto da Baixa, o Marialva, e é nesse café que Chibanga e o amigo Carlos Mabumba são apresentados ao toureiro Manuel dos Santos e ao empresário Alfredo Ovelha.

Ele e Mabumba querem vir para Portugal. Com quase 18 anos, a trabalhar por temporadas na construção civil, não têm nada a perder.

Alfredo Ovelha convence o governador-geral de Moçambique a deixá-los sair e assume a responsabilidade pelos rapazes durante três meses. Pouco tempo depois são embarcados num avião da Força Aérea e aterram em Lisboa.

Ir para a cama mais cedo, por causa do frio

"Chegámos numa quinta-feira e logo no dia seguinte foram-nos buscar para irmos para a Nazaré participar numa vacada. Calçaram-nos umas sapatilhas, vestiram-nos umas calças de ganga e puseram-nos no meio das vacas. Eu não tinha a menor noção daquilo.

Entusiasmava-me, caía, fugia e as pessoas riam-se. Nessa altura em Portugal praticamente não havia pretinhos, mas eu não levava a mal. Achava aquilo uma grande brincadeira", conta Chibanga, sentado no café Central da Golegã, recordando esse dia longínquo do verão de 62.

Andaram três meses a correr as vacadas e terminado o tempo já não havia maneira de os fazer regressar a Moçambique.
Ficaram. "Foram viver para casa de um senhor de Torres Vedras, que tinha uma escola de toureio, para começarem a aprender.

Todo o dia era passado naquilo e à tarde o professor Leão passeava-se por Torres a exibir aqueles dois, todo vaidoso dos seus alunos", acrescenta José Tinoco, bandarilheiro de Chibanga e mais tarde seu apoderado.

Dessa época, Chibanga, habituado ao calor dos trópicos, recorda sobretudo o frio insuportável - que o fazia ir para a cama mais cedo, completamente vestido e enrolado em cobertores- e a determinação férrea, naquele fito de ser toureiro. O objetivo era tornar-se matador, o máximo que um toureiro a pé pode almejar, e para que isso acontecesse o destino obrigatório era Espanha.

Foi aprendendo e depois de cumprido o serviço militar, dois anos em Queluz, e de ter passado pela Golegã, arranjaram-lhe um apoderado espanhol. Ricardo vai para Sevilha, Carlos Muchamba, o companheiro moçambicano, fica. Acaba por se perder.
Em 1968 estreou-se (ainda como amador) nos arredores de Madrid, em San Sebastián de los Reyes, na sua primeira tourada de morte.

O público gostou. "Voltou à mesma arena 12 vezes seguidas. Era um toureiro que enchia praças e fez uma enorme caminhada. Toureou nas maiores praças do mundo", afirma Tinoco, que o acompanhou nesse percurso.

Desde que começara nesta vida, Ricardo Chibanga, o africano, tinha uma sómeta: triunfar como profissional na arte, ser proclamado matador. A 15 de agosto de 1971, uma comitiva de amigos sai da Golegã e chega a Sevilha num dia de calor abrasador. Na Real Maestranza está uma equipa da RTP para dar conta do acontecimento: a alternativa de Ricardo Chibanga, o toureiro das colónias, símbolo do império e do triunfo do mundo português. Mas ele não se dá conta dos ecos de um país 'orgulhosamente só'. Levara anos a sonhar com esse momento:

"Eu, um rapaz de Moçambique, do bairro da Mafalala, numa das maiores praças do mundo com Don Antonio Bienvenida, que foi o meu padrinho de alternativa? Foi o dia mais feliz da minha vida!"

Triunfou. A praça encheu-se de lenços brancos, pedindo um troféu para o matador negro: uma orelha do touro. No final saiu em ombros. Nessa noite houve um jantar de homenagem no Parque de Maria Luísa, com centenas de convidados e na manhã seguinte, Chibanga apressa-se a regressar a Lisboa porque tinha de apresentar-se, agora como profissional, na Praça do Campo Pequeno.

Vem no avião particular de uma amiga americana de Stanley Ho, que o acompanhava como grande admirador desde Macau.
Numa sala ampla da sua casa da Golegã, onde vive com a mulher e a filha, após o nascimento do neto, está pendurada a cabeça do touro da alternativa de Sevilha, sem a orelha, e a cabeça de um outro, da corrida de confirmação na Monumental de Madrid, sem duas orelhas.

As paredes estão cobertas de fotografias, cartazes, inúmeros troféus que nos dão conta da década de glória do toureiro que tem o corpo marcado pela dureza da profissão: Madrid, Barcelona, Torremolinos, Palma de Maiorca, Nîmes, Beziers, México, Macau, Indonésia...

Folheamos os álbuns de fotografias e os recortes de jornais: "Chibanga apanhado por uma cornada em estado grave"; Chibanga em coma... e o regresso à mesma arena pouco tempo depois. Um telegrama do sul-africano Christian Barnard a desejar-lhe boa-sorte. Os bigodes de Salvador Dalí, grande aficionado, e mais à frente vários recortes relatando o encontro com Pablo Picasso, no sul de França, que o quis conhecer. O toureiro retribui e oferece-lhe os troféus dessa corrida: o rabo e a orelha do touro. Nessa noite o africano é convidado de Picasso. Dizem as notícias que o mestre oferece um desenho ao "negrito, matador". Chibanga não confirma nem desmente. É um homem dado a certos mistérios.

Em 1972 regressa à sua terra para tourear. No álbum de recordações, o momento tem honras especiais. Subitamente vemos fotografias a cores. Há recortes de palmeiras, de palhotas, da barragem de Cahora Bassa e também muitos postais. O empresário leva Chibanga ao bairro onde nasceu numa carrinha descapotável e dá-lhe moedas para ele distribuir.

É tratado como herói. Sucedem-se imagens de Chibanga rodeado pelo seu povo, transportado em ombros, sorriso rasgado, camisa rasgada. Lourenço Marques, meu amor.

Depois da revolução de abril as corridas começam a escassear e Ricardo Chibanga vai rareando nas aparições. Nos anos 90 compra a primeira praça desmontável a umespanhol e depois manda fazer outra, de três mil lugares, para levar a festa brava às cidades que não têm arenas.

"Ele tinha uma coisa e não era só a coragem", diz Tinoco, o bandarilheiro. "Quando dava volta à arena, tocava o público, sentia-o, agarrava-lhe o olhar. A isto chama-se carisma. E por isso o público adorava-o."

Uma das imagens de marca de Chibanga, com a qual o público delirava, era ajoelhar-se em frente do oponente. A figura do africano, adornado no seu traje de luces, de joelhos na arena, desafiando o touro com o olhar, deixava em suspenso todas as bancadas. Dizia-se que "Ricardo Chibanga, el morenito matador", hipnotizava o touro antes de lhe cravar o estoque no alto do cangote.

Ricardo, o matador negro, faz um ar vago, encolhe os ombros. Não gosta dessas conversas sobre crendices. O respeito que tinha pelos aficionados era enorme. Ficava dias sem dormir, num nervoso exasperado com medo de os desiludir, de não estar à altura do que dele esperavam. O medo sente-se sempre. Um medo seco e frio no estômago, que antecede cada corrida e se repete como se repetem os gestos ritualizados: vestir com cuidado o fato em silêncio; montar uma mesa onde se colocam todos os santinhos, rezar, entrar na arena com o pé direito. E de repente o touro está ali na sua frente e o medo desaparece, a concentração é brutal, não existe mais nada do que aquele combate entre os dois. Até à morte.