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Tragédia de Vila Nova da Rainha, em Tondela, alertou para necessidade de obras em outras associações

Nuno André Ferreira/Lusa

Há um ano morreram 11 pessoas num fogo na Associação Cultural, Recreativa e Humanitária de Vila Nova da Rainha, no concelho de Tondela. As condições destas associações estão a ser reavaliadas

O trágico incêndio ocorrido há um ano numa associação de Vila Nova da Rainha alertou para a necessidade de aumentar a segurança neste tipo de espaços, sendo que, no concelho de Tondela, muitos já têm obras em curso.

"Aconteceu em Vila Nova da Rainha, mas podia ter acontecido em qualquer outro ponto, em qualquer outra associação do país", disse Miguel Torres, vereador da Câmara de Tondela, considerando que, pela primeira vez, houve "uma consciência nacional" de que era preciso olhar para estas associações "de forma diferente".

No domingo, passa um ano do incêndio na Associação Cultural, Recreativa e Humanitária de Vila Nova da Rainha, no concelho de Tondela. Nesse dia, o balanço foi de oito mortos e 38 feridos, entre ligeiros e graves, mas o número de mortos aumentou para onze nos dias seguintes.

Perante esta situação, e dada a "predisposição nacional para encontrar uma solução para este problema", a Câmara de Tondela reuniu com várias entidades para perceber que medidas poderia tomar para dar tranquilidade a autarcas, dirigentes associativos e frequentadores destas associações.

Segundo Miguel Torres, na sequência de uma reunião com a Autoridade Nacional de Proteção Civil, quatro empresas foram incumbidas de fazer relatórios sobre as condições de segurança contra incêndios dos 103 edifícios de associações do concelho de Tondela. "Fizemos um protocolo com 71 associações para que possam implementar essas medidas na sua associação, para que as condições de segurança contra incêndios do seu edifício possam ficar salvaguardadas", contou.

Algumas associações não celebraram o protocolo por estarem inativas, mas - garantiu o vereador - "se quiserem retomar a atividade, o relatório está feito, o orçamento está feito, e, nessa altura, será implementada a medida".

Outras associações "estão em espaços arrendados e não faz sentido nenhum a Câmara estar a fazer obras a senhorios", acrescentou. Para as obras nas 71 associações, o investimento global do município é de cerca de 400 mil euros (de fundos próprios). "Temos orçamentos que vão desde os mil euros até aos 15 mil euros", afirmou Miguel Torres, explicando que há situações muito diversas e que cada uma das associações tem a própria equipa de engenharia a implementar o processo.

Apesar do muito trabalho que há a fazer, Miguel Torres prevê que, "no primeiro semestre do ano, fique concluído este processo todo nas 71 associações". Segundo o vereador, os relatórios referiam muitos problemas relacionados com "os sistemas de deteção de incêndios e as centrais de incêndios". As medidas de autoproteção não foram esquecidas e os dirigentes associativos vão receber formação que lhes permita ficar a saber, "no caso de haver uma emergência, o que é que cada um tem de fazer, onde está o circuito da água, onde estão os extintores, qual é o circuito de evacuação".

"Tentámos encontrar uma forma de dar tranquilidade aos dirigentes, aos cidadãos, aos frequentadores das associações, para que o processo associativo não seja desvalorizado", justificou.

Isto porque, para a autarquia, "o território é tanto mais forte quanto mais forte for o seu tecido associativo", realçou. Na Associação Desportiva e Cultural de Canas de Santa Maria, uma das 71 que celebraram o protocolo com a autarquia, as obras - orçadas em 12 mil euros - já estão avançadas. "Faltam algumas coisas ainda, mas o prioritário em termos de deteção, sinalética e extintores já está em funcionamento", contou Augusto Afonso, vice-presidente desta associação, que celebrou em dezembro o 80.º aniversário e tem cerca de 300 associados.

O incêndio de Vila Nova da Rainha levou os dirigentes associativos de Canas de Santa Maria a pensar que esta tragédia também poderia ter acontecido no seu espaço e, por isso, foram suspensas atividades como torneios de sueca, de 'snooker', de pingue-pongue e de setas.

"Cancelámos todas as atividades que tínhamos, para não corrermos o risco", frisou Augusto Afonso.

Um ano após o trágico incêndio, a instituição mantém-se fechada e ainda decorre a investigação da Polícia Judiciária (PJ) para apurar o que se passou. Fonte da Diretoria do Centro disse à agência Lusa que "o inquérito, registado no DIAP (Departamento de Instrução e Ação Penal) de Viseu, se encontra ainda na PJ em fase final de investigação".

Em Vila Nova da Rainha, o destino a dar ao espaço onde ocorreu o incêndio, na noite de 13 de janeiro de 2018, ainda não foi decidido."A situação não é fácil, porque fazer no mesmo sítio não é fácil, fazer noutro sítio também não é fácil, mas estamos ainda à espera das decisões", referiu à Lusa o presidente da Associação Cultural, Recreativa e Humanitária de Vila Nova da Rainha, Jorge Dias.

O edifício esteve apreendido pela PJ até julho e, depois de voltar a ser disponibilizado à associação, Jorge Dias tinha anunciado que o iriam limpar para ficar com melhor aspeto."Tirámos a parte maior, mas depois parámos por ali, porque, na realidade, é preciso remover aquilo tudo", admitiu.