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“Um acidente pode ser azar mas a sinistralidade do país não é”

ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

José Miguel Trigoso. Presidente da Prevenção Rodoviária Portuguesa

Hugo Franco

Hugo Franco

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Jornalista

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

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Fotojornalista

As mortes nas estradas portuguesas voltaram a subir pelo segundo ano consecutivo depois de 30 anos de descida. Miguel Trigoso, presidente da Prevenção Rodoviária Portuguesa, não se surpreende com os números e elege quatro prioridades para inverter a tendência. Mas vai lembrando que os portugueses, sobretudo os homens, são maus condutores.

Está surpreendido com esta subida de mortes nas estradas portuguesas, depois de tantos anos de decréscimo?
Não. Já tinha avisado que iam subir porque o conjunto de medidas de prevenção que deveriam ter sido aplicadas não o foram. Além disso, o número de acidentes com danos corporais já tinha parado de baixar há algum tempo.

Como é que se consegue inverter esta nova tendência?
Atuando sobretudo em quatro frentes: na prevenção dos acidentes no interior das localidades, onde existe um número anormalmente elevado de mortos e feridos graves em Portugal; reduzir o álcool ao volante, através da limitação do acesso à condução por parte dos grandes infratores e dos reincidentes; fazer um trabalho muito sério para reduzir o uso do telemóvel na condução; e uma alteração radical na formação de condutores.

Os portugueses são maus condutores?
Os condutores portugueses registam um número de colisões, despistes e atropelamentos claramente superiores à média da União Europeia. Se olharmos para esse lado, são maus condutores. Há, no entanto, uma diferença muito grande entre homens e mulheres. Em média, elas estão envolvidas em mais acidentes leves. E eles em acidentes graves e muito graves e constituem um perigo muito maior. O problema é a velocidade de embate.

O Governo anunciou um concurso de prevenção rodoviária para projetos inovadores e mais investimentos em segurança nas estradas. São medidas suficientes?
Não sei. Não estamos em tempo de invenções mas de lançar projetos com qualidade e que deem resultados. Estou farto de ouvir falar em campanhas de sensibilização, daquelas genéricas como as do Natal ou Ano Novo. São sim necessárias campanhas para alteração de comportamentos específicos previamente detetados.

O facto de o Governo ser PS ou PSD muda alguma coisa nesta matéria?
Nada. Dizem todos que querem fazer. As medidas são técnicas e não políticas. Um acidente rodoviário pode ser um acaso mas a sinistralidade num país não o é. Não é um acaso que haja países com boas taxas e outros que apresentam maus resultados, como nós. Não somos uns azarados, temos é um sistema que funciona mal.

Quais são os países que nos devem servir de referência para diminuir a sinistralidade?
Na União Europeia, temos a Suécia, o Reino Unido e a Holanda. Fora da UE, a Noruega e a Suíça. São países onde as mortes na estrada rondam as 30 pessoas por um milhão de habitantes. Em Portugal a média tem vindo a baixar desde 1975, ano recorde em que morreram mais de três mil pessoas. Agora estabilizou nas 60 mortes por milhão de habitantes, acima das 50 da média da União Europeia. É um nível onde era relativamente fácil chegar.

Onde estamos melhor e pior em relação ao resto da Europa?
Por cá, temos menos mortos fora das localidades, entre condutores e passageiros, nas crianças e jovens até aos 24 anos e também entre as mulheres. Mas registam-se em Portugal mais mortes no interior das localidades, entre os homens, bem como nas motos e nas bicicletas.

É imperioso reduzir os limites da velocidade máxima nas localidades?
Sim, se as medidas forem nos locais certos e não de uma forma generalizada. E havendo a garantia de que os limites são cumpridos. Dizer que o máximo é 30 km/h e depois as pessoas passam lá a 70 km/h não resolve nada.

Falou no álcool e no telemóvel. São apenas problemas nacionais?
Em Portugal, o problema do álcool na estrada é uma barbaridade. Um terço dos condutores que morre em acidentes de viação tinha taxas de álcool ilegais. E quase 25% tinham taxas consideradas crime (mais de 1,2 gramas por litro). E mais. Cerca de 20% dos peões atropelados tinham mais de 0,5 g/l. Ao contrário do álcool, sobre os telemóveis não existem dados que façam parte da estatística oficial. Mas esta é uma catástrofe que ultrapassa as nossas fronteiras.

Portugal propôs-se chegar a 2020 com menos de 400 mortes (até 30 dias após o acidente) por ano. Vamos conseguir atingir o objetivo?
Não. Esse é um objetivo impossível de ser alcançado. Vai ser um falhanço. Em 2018, foram registadas 508 mortes e ainda sem contar com os dados dos 30 dias após os acidentes nem com a contabilidade da PSP. Serão perto de 650, de acordo com as percentagens de anos anteriores. Ou seja, muito longe das 399 definidas no Plano Estratégico Nacional de Segurança Rodoviária, o PENSE 2020.

O ROSTO DA PREVENÇÃO

José Miguel Trigoso trabalha na PRP desde 1973, presidindo àquela instituição há oito anos. Nunca foi apanhado em excesso de velocidade mas já foi multado por mau estacionamento. E esteve envolvido em dois acidentes sem gravidade. “Num deles fui culpado, estava distraído e enfaixei-me no carro da frente”