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Moria: o “campo prisão” que parece um asilo psiquiátrico, “daqueles que já não são vistos na Europa desde o século passado”

Junto às instalações oficiais do Campo de Moria, nasceu um segundo campo de tendas

ARIS MESSINIS/ Getty Images

Um quarto das crianças, entre os seis e 18 anos, assistidas pelos Médicos Sem Fronteiras na ilha de Lesbos, na Grécia, já se automutilou, tentou o suicídio ou pensou em fazê-lo. No campo de Moria, a crise humanitária e sanitária atinge níveis sem precedentes. A organização não-governamental apela à ajuda dos governos europeus e pede que as pessoas vulneráveis sejam realojadas “urgentemente”

Onde no máximo poderiam viver (sobreviver) 3100 pessoas, estão mais de nove mil. Vivem em filas: horas à espera para tomar pequeno-almoço, outras tantas horas para tomar duche, mais umas quantas para almoçar e, para ir à casa de banho, aguardam um pouco mais; depois são mais horas para lanchar e ainda mais para jantar.

Para tudo dentro do campo, é preciso esperar nas filas. Depois, há as várias etnias e grupos rivais – que já o eram no país de origem e agora juntam-se todas num ambiente confinado. Há tensão. As infraestruturas não chegam. São demasiadas pessoas. E todos os dias chegam mais. Em Moria, o “campo prisão” na ilha grega de Lesbos, enfrentam-se problemas de saúde e de saúde mental como nunca antes ali se testemunhou. Um quarto das crianças assistidas pelos Médicos Sem Fronteiras já se automutilou, tentou o suicídio ou pensou fazê-lo.

“Os Médicos Sem Fronteiras pedem a retirada urgente de todas as pessoas vulneráveis, especialmente as crianças, e que as levem para locais seguros na Grécia continental e na União Europeia.” Num comunicado a que o Expresso teve acesso, a organização não governamental denuncia o estado de emergência em Moria: “Todas as semanas, atendemos múltiplos casos de adolescentes que tentaram cometer o suicídio ou que se automutiliaram, estamos a responder a vários incidentes críticos devido à violência, crianças magoadas e falta de acesso a cuidados médicos urgentes”.

Adam Berry/ Getty Images

Os Médicos Sem Fronteiras não estão dentro de Moria e apenas ocasionalmente têm autorização para entrar e ajudar. Estão do lado de fora das redes que confinam as milhares de pessoas a uma aldeia de contentores e tendas. O seu trabalho incide sobretudo nas áreas pediátrica e saúde mental. E todos os dias atendem centenas de refugiados e migrantes. “Entre fevereiro e junho deste ano, no departamento de saúde mental para crianças (entre os seis 18 anos), a equipa dos MSF observaram que 18 das 74 crianças atendidas já se tinham mutilado, tentado o suicídio ou pensado em cometer suicídio. As outras crianças atendidas sofrem de mudez voluntária, ataques de pânico, ansiedade, ataques agressivos e pesadelos constantes”, denunciam. No sentido mais convencional, as doenças mais frequentes são infeções na pele e diarreias.

Alessandro Barberio é um dos psiquiatras no projeto de saúde dos MSF na ilha que fica a não muitos quilómetros da Turquia. Nunca viu nada como Moria. “Em toda a minha carreira, não encontrei um número tão avassalador de pessoas a sofrerem de problemas mentais tão sérios. A grande maioria das pessoas que atendo apresentam sintomas psicóticos, pensamentos suicidas e estão confusas”, conta num testemunho escrito e difundido pela ONG. Estas pessoas deixam de conseguir fazer tarefas básicas do dia-a-dia. Dormir, comer em condições, fazer a higiene pessoal ou falar, aos poucos, torna-se um desafio.

Uma imagem do começo do ano com os coletes esquecidos na costa norte de Lesbos. Estima-se que seja perto de um milhão

Uma imagem do começo do ano com os coletes esquecidos na costa norte de Lesbos. Estima-se que seja perto de um milhão

SOPA Images/ Getty Images

Na ilha prisão de Lesbos, são obrigados a viver num contexto que promove a violência em todas as suas formas – incluindo sexual e de género, afetando crianças e adultos”, refere o médico Alessandro Barberio. E momentos como esses podem ser um gatilho para agravar os sintomas psiquiátricos.

Entre as mais de nove mil pessoas em Moria, cerca de um terço são mulheres ou crianças. “Com este nível de sobrelotação e de falta de condições sanitárias, o risco de incidentes é muito alto”, alerta Declan Barry, coordenador médico da MSF na Grécia.

“É tempo de terminar o acordo UE-Turquia”

Lesbos é o fim e o principio. É o final de uma viagem que se fez, muitas vezes, sob tortura e violência. Ao mesmo tempo é o começo de uma jornada na Europa, ou pelos menos esperam que assim seja.

Nas duas primeiras semanas de setembro entraram em Lesbos 1500 pessoas. Se no começo da crise eram sobretudo homens jovens que alcançavam a costa da ilha grega, hoje são cada vez mais as famílias. Pai, mãe e filhos arriscam tudo para pisar território europeu. No entanto, uma vez chegados a Lesbos ficam ali à espera. Mas a espera por um pedido de asilo na Europa demora muito mais do que qualquer fila de espera para comer ou ir à casa de banho em Moria. Muitas vezes, são meses.

Quase todos aqueles que agora chegaram dormem desabrigados, denuncia a ONG. A comida é insuficiente e o acesso a medicamentos “extremamente insuficiente”. Alguns menores já foram observados e precisam de assistência nos hospitais de Atenas. Mas no continente não há alojamento para eles. “Por isso, são forçados a viver num ambiente onde a sua condição médica e a saúde se deterioram.”

Nicolas Economou/ Getty Images

A sobrelotação que agora se vive em Moria é a combinação do grande número de chegadas com o reduzido número de partidas. “É mais do que tempo de retirar as pessoas vulneráveis e parar este ciclo sem fim de emergência e de condições horríveis. É tempo de por fim ao acordo UE-Turquia”, defende Louise Roland-Gosselin, chefe da missão dos MSF na Grécia. Tal como já fizeram no passado, os Médicos Sem Fronteiras voltam a apelar que seja “tomada uma ação decisiva imediatamente”, pois caso contrário corre-se o risco de a situação continuar a piorar e levar a uma escalada de violência que deixaria a ilha num estado “de extremo caos”.

As chocantes condições de vida e a constante exposição à violência, a falta de liberdade e de direitos reconhecidos aos migrantes, a gravíssima deterioração das condições de saúde e saúde mental, o stress diário e a pressão colocada por todos os que habitam a ilha fez com que Lesbos se transformasse num antiquado asilo psiquiátrico, daqueles que não se vê na Europa desde meados do século XX”, sublinha o médico.