Sociedade

Na hora de contratar, universidades apostam na prata da casa e não no mérito

21 setembro 2017 8:34

antónio pedro ferreira

Dos 53 professores com contrato na Faculdade de Direito de Coimbra, todos conseguiram o grau de doutoramento nessa mesma instituição. Em todo o país, a percentagem de “imobilidade académica” atinge os 70%

21 setembro 2017 8:34

Eis um caso pouco atípico em Portugal, indica um inquérito da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC): alguém que se licenciou numa instituição de ensino superior, ali tirou o mestrado e doutoramento, e depois entrou para os quadros como professor - mesmo que existissem outros candidatos com melhores qualificações para aquela vaga.

Por um lado, não há mobilidade. Do outro, existe uma espécie de carreirismo dentro das próprias instituições. Para a DGEEC, trata-se de ‘endogamia académica’. Na hora de contratar, as instituições de ensino superior parecem dar prioridade à ‘prata da casa’.

Segundo o inquérito da DGEEC, cerca de 70% destes docentes das universidades públicas portuguesas doutorou-se na mesma instituição em que está a leccionar. Esta notícia é avançada pelo “Público” esta quinta-feira.

Este fenómeno é igualmente visível entre os docentes mais jovens: 68% dos professores catedráticos que têm entre 30 e 34 anos estão a dar aulas nas mesmas instituições em que se doutoraram e apenas 10% fizeram o doutoramento no estrangeiro.

De todas as instituições públicas que tiveram os seus quadros analisados, a Universidade de Coimbra é a que apresenta “indicadores mais elevados de imobilidade académica”: 80% dos seus professores fizeram lá o doutoramento. Este valor justifica-se, por exemplo, com a situação registada na Faculdade de Direito: dos 53 professores com contrato, todos conseguiram o grau de doutoramento nessa mesma instituição. Ou seja, a taxa de contratação interna é de 100% - caso único no país.

Por sua vez, a Faculdade de Direito de Lisboa tem uma taxa de contratação interna de 99% e a Faculdade de Medicina de Coimbra ficou nos 97% - percentagem igual à da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa e do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território.

A seguir à universidade de Coimbra, as instituições com maior percentagem de “endogamia académica” são a universidade dos Açores (74%), de Lisboa (74%), de Trás-os-Montes (73%) e de Porto (72%).

Na ponta oposta, encontra-se a Universidade do Algarve (40%) e o ISCTE (33%). Por instituição orgânica, o destaque vai para a Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, onde apenas 8% dos docentes da carreira se doutoraram naquela escola. Três quartos tiraram o grau de doutor no estrangeiro e 17% noutra instituição de ensino superior portuguesa.

O inquérito da DGEEC teve por base o Registo Biográfico de Docentes do Ensino Superior (REBIDES).