Exposições

José Saramago e a forma das ideias: uma surpreendente exposição no Museu do Chiado

29 outubro 2022 13:12

José Luís Porfírio

José Luís Porfírio

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Jornalista

O literário e o visual em diálogo. “Aparelho Metafísico de Meditação” (1935), de António Pedro: todas as possibilidades coexistem

O centenário de nascimento de José Saramago é celebrado em Lisboa na exposição “Porquê?”, que liga o seu pensamento a importantes obras de arte contemporânea portuguesa

29 outubro 2022 13:12

José Luís Porfírio

José Luís Porfírio

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Jornalista

Os centenários tomam formas diversas e, por vezes, surpreendentes para muita gente, tal é o caso da celebração dos 100 anos do nascimento de José Saramago levada a cabo pelo Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado (MNAC) e pela Fundação José Saramago, utilizando os acervos de arte moderna e contemporânea do Estado e do próprio museu que são limitados, embora tenham vindo a crescer em variedade desde a última década do século passado.

Há uma boa dose de voluntarismo nesta exposição e nas suas escolhas, voluntarismo esse que pode espelhar-se na interrogação do título “Porquê?”. Apetece responder “porque sim”, citando António Rodrigues, muito embora a interrogação sistematicamente posta ao poder estabelecido, bem como a dúvida estejam presentes ao longo de toda a obra de José Saramago. As escolhas da curadora Ana Matos, que além de galerista é neta do escritor e de Ilda Reis (1923-1998), excelente gravadora, seguem o trilho dessa dúvida num discurso que parte, primeiro, da própria interrogação, para derivar, depois, da palavra escrita, uma citação, quase um aforismo, do escritor, para a intencionalidade da obra de arte. Esta experiência assenta particularmente bem a um homem que conheci como editor do “Suplemento Literário” do “Diário de Lisboa”, mesmo no início do meu trabalho como crítico de arte (1972), pessoa de contacto caloroso, de cumplicidade frente à censura e de bom entendimento dos problemas do que então eram as artes plásticas.