A Revista do Expresso

"Nos meus livros não há autoficção, eles são mesmo biográficos". Grande entrevista à Nobel da Literatura Annie Ernaux

14 outubro 2022 21:48

ulf andersen/getty images

A poucos dias do anúncio do Nobel, a escritora francesa conversou com o Expresso. Annie Ernaux confessou que se ganhasse o prémio — como se veio a verificar — colocaria todo o esforço e energia a dizer que a literatura deve trabalhar para a justiça, "para elevar o pensamento”

14 outubro 2022 21:48

“O meu pai quis matar a minha mãe num domingo de junho, ao princípio da tarde.” Annie Ernaux (Lillebonne, n. 1940) consegue evitá-lo. O pai retrai-se, a mãe sobrevive, o casal apressa-se a esquecer o momento. A filha grava-o. Naquele meio do dia, no dia do meio do mês, no mês do meio do ano, está o centro: “A primeira data precisa da minha infância”. No início da tarde do dia 15 de junho de 1952 a foice que o pai levanta no ar não atravessa o corpo da mãe. Mas a filha sente-a. Na epiderme de Annie Ernaux forma-se uma cicatriz, purulenta, a partir da qual irradiará a sua inquietude. A raiz de uma dor que, num ato compulsivo, quererá partilhar com alguns homens: “O meu pai queria matar a minha mãe quando eu ia fazer 12 anos”. O silêncio de quem a ouve será compensado pelo eco que os seus livros hão de gerar. Em 1997, publica finalmente um livro que começa nesse dia. A obra chama-se “La Honte” (“A Vergonha”), e na epígrafe está esta frase: “A linguagem não é a verdade. É a nossa forma de existir no universo.” Annie Ernaux sempre existiu, ainda que nunca tenha existido mais do que hoje, ao conquistar o Nobel da Literatura. Existe enquanto sobrevivente. Enquanto testemunha de uma época, enquanto escritora em diálogo direto com a desigualdade social, as marcas do desprezo de classe, o sofrimento antigo e íntimo das mulheres dominadas por um poder que tudo pode sobre elas. O que o Nobel da Literatura significa é o compromisso, a vontade da Academia Sueca confirmar o valor da ousadia de Ernaux ao trazer para a literatura uma narrativa cortante, não adjetivada, nem intencionalmente ficcionada, uma linguagem direta, crua, pungente, sobre os traumas de uma geração que sobreviveu à miséria tornando-se operária, enfrentou a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, reconstruindo-se uma e outra vez; sobre a violência de um pai contra uma mãe; sobre o domínio do masculino sobre o feminino; sobre a violência de um aborto clandestino; sobre uma geração que acreditou poder mudar o mundo. E, sobretudo, e não menos importante, sobre a importância da escrita íntima, diarística, a autobiografia. Se é o pai que agarra a foice, é Annie Ernaux que a usa como cutelo para se desossar, estabelecendo a linguagem e as figuras da sua escrita. Primeiro, traça as origens, numa obra sobre o pai, “La Place” (Gallimard, 1983), galardoado com o Prémio Renaudot, numa obra sobre a mãe, “La Femme” (1987) – “a mulher que lavava sempre as mãos antes de pegar num livro”, após publicar alguns livros sem história, o primeiro em 1974: “Les Armoires Vidés”. Em “La Femme”, livro escrito depois da mãe morrer, autossitua-se: “Naturalmente, isto não é uma biografia, nem um romance, talvez um cruzamento entre sociologia e história.” E justifica-se: “Acredito que estou a escrever sobre a minha mãe porque é a minha vez de a trazer ao mundo.” Só depois virá “La Honte”, a continuação dessa vontade de ir mais fundo, no cruzamento da história íntima de pessoas sem história “com a sociologia”. “O Lugar” foi editado pela Fragmentos em 1987. Esse título e o livro sobre a mãe encontram-se traduzidos em português numa edição da Livros do Brasil de 2000 (indisponível), que os junta num só livro: “‘Um Lugar ao Sol’ seguido de ‘Uma Mulher’”. Nos últimos anos, a mesma editora lançou “Uma Paixão Simples” (Gallimard, 1991), “Os Anos” (Gallimard, 2008), vencedor do Prémio Marguerite Duras e finalista do Prémio Man Booker Internacional em 2019, e “O Acontecimento” (Gallimard, 2001). Este último saiu em setembro último, e foi no contexto deste lançamento, e de um novo livro, publicado, este ano, em França, “Le Jeune Homme”, que conversámos, ao telefone. Preparavam-se as exéquias da Rainha Isabel II, e o Nobel, por anunciar, já lhe provocava um certo nervosismo. No final, quis ser ela a perguntar: “O que pensam os leitores portugueses sobre os meus livros?”

Gostava de começar por uma questão que está relacionada com o romance “La Honte” e com um pormenor. Neste livro fala da importância de um postal a preto e branco sobre a coroação da Rainha Isabel II, que recebe de uma amiga, e que é uma prova material do ano de 1952, um marco na sua história pessoal. Do postal recorda até uma marca de um pionés...

Sim, sim é verdade [risos]. O postal é sem dúvida uma recordação importante de quem sou aos 12 anos. A rainha, uma jovem alta, era um pouco mais velha do que eu e já era mãe de família.

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