Prémio Nacional Turismo

Projetos turísticos de valor acrescentado

30 dezembro 2022 10:06

Patrícia Serrado

A iniciativa Rotas Açores - Itinerários Culturais e Paisagísticos ajuda a combater a sazonalidade turística no arquipélago

joel santos

Autêntico: adequar a oferta aos novos perfis de visitantes é um dos fatores que tem ajudado a melhorar os resultados do sector, nomeadamente, aumentado a receita por cada turista em Portugal

30 dezembro 2022 10:06

Patrícia Serrado

É um dado adquirido: Portugal vai bater o recorde de receitas turísticas alcançado em 2019. Até outubro, os valores acumulados do sector, segundo o Banco de Portugal, já tinham atingido €18,6 mil milhões, ultrapassando, a dois meses do final do ano, o resultado total obtido há três anos, o último antes dos impactos negativos da pandemia. Entre os resultados de 2022 ressalta o facto de existir um decréscimo do número total de dormidas, o que indica que o turista estará a gastar mais, ao mesmo tempo que se nota uma alteração do perfil do visitante e daquilo que procura em Portugal.

Um dos mais recentes exemplos de novos turistas são os nómadas digitais. Para dar resposta a esta nova tendência no sector das viagens, a Startup Madeira desenvolveu o projeto Digital Nomads Madeira Islands. Distinguida na categoria Turismo de Inovação, no âmbito do Prémio Nacional de Turismo, esta iniciativa arrancou em novembro de 2020 e deu origem à Digital Nomad Village, em Ponta do Sol, na costa sudoeste da ilha da Madeira, considerada inclusivamente a primeira do mundo. Com um investimento de €25 mil, gerou €18 milhões e captou cerca de 8 mil nómadas, que viveram e trabalharam não só na Ponta do Sol, mas também em outras localidades do arquipélago, como Santa Cruz, Funchal, Machico, e até na ilha de Porto Santo. A iniciativa, que conta com o apoio do governo regional, engloba vários parceiros, desde hotéis e alojamento local à restauração e à animação cultural e turística. “Queremos que os parceiros privados tenham retorno financeiro, mas também que apresentem novos produtos e serviços para este nicho de mercado que está em crescimento”, avança Carlos Lopes, CEO da Startup Madeira. Atualmente com mais 13 mil inscrições, com idades entre 18 e 80 anos, provenientes de 132 países, o projeto vai prolongar-se até 2024 e provavelmente alargar-se a diversos municípios do continente.

Tal como os nómadas digitais, os novos turistas também procuram autenticidade e sustentabilidade, duas áreas com projetos diferenciadores e distinguidos no Prémio Nacional de Turismo. É o caso da Rota Açores — Itinerários Culturais e Paisagísticos, vencedor na categoria de Turismo Autêntico. Este projeto de estruturação promovido pela região autónoma dispõe de 48 itinerários repartidos pelas nove ilhas do arquipélago. Com um investimento de €165 mil, aposta na divulgação de três roteiros: baleação, vinhas e vulcões. “Estes percursos podem ser realizados durante todo o ano, contribuindo para a mitigação da sazonalidade e para a dispersão dos fluxos turísticos por todo o território”, explicou Berta Cabral, secretária regional do Turismo, Berta Cabral, que anunciou já o alargamento do projeto a mais duas rotas temáticas, uma dedicada ao turismo industrial e outra à temática das explorações marítimas.

Autenticidade e gastronomia

Em Portugal, apesar de não existir uma quantificação oficial, o turismo gastronómico tem captado cada vez mais turistas que viajam em busca de novas experiências e da autenticidade do país. Gonçalo Castel-Branco, fundador do projeto Chefs on Fire, vencedor na categoria Turismo Gastronómico do Prémio Nacional de Turismo, confirma esta tendência ao apontar para mais de 25% de visitantes estrangeiros no evento deste ano, no Estoril. Considerado o maior festival gastronómico do país, desafia vários chefes nacionais a cozinharem no fogo, com produtos endógenos e com o desperdício zero como objetivo. Para acompanhar, há bandas portuguesas e sonoridades várias. O sucesso alcançado com esta iniciativa determinou que, em 2023, o Chefs on Fire tenha mais um dia de festival e ainda três pop-ups complementares em diferentes zonas do país. “O grande objetivo é também a internacionalização no último trimestre de 2023”, revela o mentor do projeto, que gerou meio milhão de euros em receitas.

Galardoado com uma Menção Honrosa na categoria Turismo Gastronómico, a iniciativa Fins de Semana Gastronómicos — Porto e Norte captou mais de 600 mil visitantes ao longo do último ano. Promover o receituário tradicional e os vinhos das cinco denominações de origem deste território, disponibilizar a oferta turística, diminuir o impacto da sazonalidade e desenvolver a economia local são alguns dos objetivos deste projeto que envolve 78 municípios e mais de dois milhares de operadores turísticos.

Formação e inclusão no mercado laboral de pessoas em situação sem-abrigo são o ponto de partida da iniciativa É Um Restaurante, promovida pela Associação Crescer, em Lisboa, que conquistou o Prémio Nacional de Turismo na categoria de Turismo Inclusivo. De cariz sustentável, tem como finalidade contribuir para a redução do desperdício e simultaneamente para o crescimento económico, através da criação de postos de trabalho digno. Aberto ao público e com ementa diária, o sucesso da iniciativa já levou a abertura de novos espaços na capital.

“Vamos apoiar o interior com diferenciação positiva”

Nuno Fazenda
Secretário de Estado do Turismo, Comércio e Serviços

Com poucos dias no cargo — tomou posse a 2 de dezembro —, Nuno Fazenda, o novo secretário de Estado do Turismo, Comércio e Serviços, ganhou o privilégio de anunciar 2022 como o melhor ano de sempre para o turismo português. Apesar das boas novas e da satisfação pelos resultados do sector, o governante alerta para as incertezas do novo ano que se aproxima e promete novos apoios, com destaque para a diferenciação positiva às empresas que invistam no interior.

Tendo em conta os últimos dados, já é possível declarar 2022 como o melhor ano de sempre de receitas no turismo?

De acordo com as previsões que temos para 2022, vamos superar as receitas em mais de 14%, comparando com o melhor ano de sempre em termos de receitas turísticas, que foi 2019.

Inflação, guerra, custo de energia, recursos humanos são questões que, em contraponto, preocupam o sector hoteleiro e da restauração. 2023 é o ano de todos os perigos?

É um ano de incerteza e compete ao Governo agir. Estamos a agir, com a criação de instrumentos de apoio às empresas e de apoio ao turismo. Temos linhas criadas e vamos desenvolver outras de apoio às empresas...

E a questão dos custos da energia, existe alguma medida específica?

O Governo já lançou algumas medidas, onde o sector do turismo se inclui, para mitigar o aumento dos custos de energia. Simultaneamente, temos de trabalhar no domínio da eficiência energética. O PRR (Plano de Recuperação e Resiliência) prevê precisamente apoios para a eficiência energética em edifícios de serviços. Nesse domínio, o sector do turismo também é elegível. Temos ainda um eixo do PRR, que visa reforçar a transição digital das empresas.

Em relação à escassez de recursos humanos que medidas estão previstas?

Esse é um dos principais desafios que se coloca ao sector do turismo. Por tal, vamos apresentar, já no início do ano, uma agenda para as qualificações, para atrair pessoas e que vai envolver uma campanha, que permita aproximar empresas e trabalhadores, através de benefícios para quem trabalha e um reforço das ações de formação.

As regiões do interior vão poder contar com apoios adicionais?

Algarve ou Lisboa são bandeiras do turismo nacional que importa consolidar, potenciar e valorizar. Mas, vamos mobilizar instrumentos, como contributo para a coesão territorial, para apoiar com diferenciação positiva as empresas que invistam no interior, designadamente no turismo, mas também com ações de promoção dedicadas somente a essas regiões.

PRÉMIO NACIONAL DE TURISMO

O Expresso e o BPI, em parceria com o Turismo de Portugal e a Deloitte, organizaram pelo quarto ano consecutivo o Prémio Nacional de Turismo (PNT), uma iniciativa para promover, incentivar e distinguir as melhores empresas, práticas e projetos do sector.

Textos originalmente publicados no Expresso de 30 de dezembro de 2022