Política

Marcelo entrega Ordem da Liberdade ao Expresso: "É preciso recriar a democracia e o Expresso tem um papel aí como teve há 50 anos"

6 janeiro 2023 20:18

Eunice Lourenço

Eunice Lourenço

Editora de Política

tiago miranda

Presidente da República encerrou Conferência dos 50 anos com elogios a Francisco Pinto Balsemão e um caderno de encargos para o Expresso. Marcelo disse que a democracia está “velha” e que é preciso olhar para o escrutínio pela comunicação social como natural e fundamental

6 janeiro 2023 20:18

Eunice Lourenço

Eunice Lourenço

Editora de Política

Foi um discurso longo, cheio de memórias, mas que terminou com um caderno de encargos para o futuro do Expresso. “É preciso recriar a democracia e o Expresso tem um papel aí como teve há 50 anos”, disse o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no encerramento da Conferência dos 50 anos do Expresso, que decorreu esta sexta-feira no auditório da Fundação Champalimaud. Uma ocasião que terminou com a atribuição ao Expresso do título de membro honorário da Ordem da Liberdade, cujas insígnias entregou a Francisco Pinto Balsemão.

Marcelo falou longamente do início do Expresso e de como o jornal foi importante para aquilo que seriam os 3D do 25 de Abril: descolonizar, democratizar, desenvolver. Mas, disse, os 3D continuam atuais e o Expresso continua a ser importante “hoje e no futuro” para os atualizar.

“Descolonizar hoje significa afirmar Portugal como plataforma entre oceanos e continentes”, disse Marcelo, para quem a vocação universal do país “é o corolário da luta contra a descolonização”. E, nesse âmbito, é preciso “dar nova vida à CPLP e à Europa”.

O segundo D é, hoje, “recriar a democracia portuguesa”, que o Presidente diz estar “velha no sistema de partidos, velha na debilidade económica e financeira, no domínio da comunicação social, velha quanto à capacidade de entendimento e à capacidade de aceitar o escrutínio pela comunicação social”, numa crítica velada ao Governo, que ainda havia de reforçar no terceiro D de desenvolvimento.

É preciso, disse o PR, desenvolver “um país que tem 2 milhões de pobres e muitos mais em risco de pobreza” e que “não conseguiu em 50 anos ultrapassar os problemas de coesão territorial”. A comunicação social em geral, mas ”o Expresso, em particular, como líder que é" não pode ser acomodado e conformista.

“É incómodo? É incomodo! Critíca? Critíca! Ataca? Ataca! Faz parte da lógica da democracia tudo isso ser natural e fundamental", insistiu o Presidente, desafiando o semanário que ajudou a fundar a ser “sempre inconformista”. E concluiu: “É isso que espero, como modesto fundador do Expresso, é isso que espero como cidadão e espero como Presidente da República Portuguesa.”

Elogios a Balsemão e as faturas

Para além dos encargos e desafios para o Expresso, o discurso de Marcelo foi marcado, a cada momento, pelos elogios a Francisco Pinto Balsemão. Foram, aliás, uma constante ao longo do discurso do Presidente, que recordou vários episódios da fundação e início do Expresso. “O Expresso quis ser uma realidade mais abrangente, mais moderna, mais desafiadora daquilo que era o passadismo do regime. E só podia ser Francisco Pinto Balsemão a personificar isso. É um caso ímpar de alguém que lidera um projeto de comunicação social, sabendo de comunicação social e só querendo que esse seja um projecto de comunicação social", disse Marcelo, que tem uma longa e nem sempre feliz história política com o fundador do Expresso.

E também isso lembrou ao recordar como Pinto Balsemão “tricotou uma amplíssima coligação” que fez do Expresso um dos “catalisadores positivos” que ditaram o fim da ditadura. “Pagou facturas imensas por causa disso, uma parte das faturas por minha conta”, afirmou, recordando como, sucedendo na direção do Expresso a Balsemão, nomeado primeiro-ministro, quis mostrar que o jornal era imune ao facto de o seu proprietário e primeiro diretor ser chefe do Governo.

“Isso acarretaria no futuro faturas para mim”, ironizou ainda o Presidente, que recentemente se viu criticado no livro de memórias de Balsemão, que o caracterizou como um “escorpião” traidor. Balsemão "nunca quis ser um monarca absoluto. Não quis ser na altura, não quis ser durante 50 anos, não quer hoje. Isto é raríssimo na sociedade portuguesa. É a sua força e a força do seu projeto", elogiou ainda Marcelo que, antes de lhe entregar os símbolos da Ordem da Liberdade, anunciou ainda que lhe reserva outra condecoração para fundador do grupo Impresa e ex-primeiro-ministro.