Política

Quando os católicos se opuseram ao regime: vigília pela paz regressa à capela do Rato

Esta quinta-feira, na Igreja de São Domingos, é inaugurada uma exposição invocativa dos 50 anos da vigília da Capela do Rato. Na altura, os católicos fizeram oposição clara ao Estado Novo e apelaram ao fim da guerra colonial, pagando o preço da prisão pelo ato ‘subversivo’. Meio século depois, os apelos à Paz continuam a ser válidos. E vão regressar ao Rato

8 dezembro 2022 12:56

Marcelo Rebelo de Sousa inaugura, esta quinta-feira às 15 horas, a exposição evocativa dos 50 anos da Vigília pela Paz na Capela do Rato que ficará instalada na Igreja de São Domingos (junto ao Rossio). Começam, assim, as celebrações daquela que foi uma das maiores ações de protesto contra o Estado Novo e que levou à prisão de dezenas de católicos - entre eles três padres- que fizeram questão de levantar a voz contra a guerra colonial.

O gesto de protesto realizado há 50 anos, na pequena capela do Rato foi integrado nas comemorações dos 50 anos do 25 de abril, precisamente por representar uma das primeiras grandes manifestações públicas de contestação contra o regime do Estado Novo, que viria a tombar, finalmente, com a revolução dos cravos.

Na altura, António Janela era padre e uma das vítimas da ação da PIDE que, na noite de 30 de dezembro de 1972, irrompeu pela capela do Rato e deteve várias dezenas de católicos que se reuniram para rezar pela paz e protestar contra a continuação da guerra. António Janela será, precisamente, um dos participantes no colóquio que, esta quinta-feira se realiza na Igreja de São Domingos e em que participará também o Presidente da República, a ministra da Defesa, Helena Carreiras e o professor Luís Moita. A jornalista Cândida Pinto será a moderadora do debate.

Um cardeal na PIDE

Da história do protesto da capela do Rato há um registo claro da posição assumida por uma parte da hierarquia católica contra o salazarismo. A detenção de três padres responsáveis pela gestão da capela - Armindo Garcia, António Janela e Alberto Neto - nas instalações da PIDE/DGS levou o então cardeal patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro, a manifestar publicamente a sua solidariedade com os clérigos detidos. O patriarca mandou reabrir a capela - encerrada pela PIDE - para celebrar a missa do dia 1 de janeiro - precisamente, o Dia Mundial da Paz- e dirigiu-se pessoalmente para as instalações da polícia política do regime, na António Maria Cardoso. Estacionou o seu carro frente à PIDE e esperou no passeio, só se retirando depois de serem libertados os padres católicos.

A lista de personalidades detidas na vigília do Rato de 1972 é longa e envolve nomes tão diferentes quantos os de Nuno Teotónio Pereira, Jorge Wemans ou Francisco Louçã, na altura com 16 anos. No próximo dia 14 de dezembro, alguns dos organizadores e participantes da iniciativa de há 50 anos, como Isabel do Carmo, Francisco Cordovil e Jorge Wemans, participarão num debate, moderado pelo jornalista António Marujo.

No dia seguinte, na Fundação Calouste Gulbenkian um colóquio moderado pelo historiador Paulo Fontes reunirá outros académicos como António Matos Ferreira, António Araújo, João Miguel Almeida e Rita Almeida de Carvalho para debaterem o papel desta Vigília pela Paz de 1972 no contexto da oposição católica à guerra colonial.

Mas será no dia 30, às 19 horas, que a atual comunidade da Capela do Rato irá recriar uma vigília de oração pela paz, “evocativa e de atualização da vigília celebrada há 50 anos” que pretende “envolver crentes e não crentes, organizações da sociedade civil e outras comunidades cristãs”.