Política

A estranha conferência de imprensa em que Mariana Vieira da Silva respondeu por Marta Temido

Marta Temido

rodrigo antunes/lusa

Em sete perguntas dirigidas à ministra da Saúde, Mariana Vieira da Silva respondeu a cinco e Marta Temido a apenas duas. Demissionária, mas presa em arames até ao último minuto da aprovação dos diplomas que regulam o novo estatuto do SNS, Temido remeteu escolha de futuro diretor do SNS para novo ministro que ainda não se conhece

8 setembro 2022 18:13

Rita Dinis

Rita Dinis

Jornalista

No dia em que o Conselho de Ministros antecipou em uma semana a aprovação dos diplomas que regulamentam o novo estatuto do SNS - a senha para libertar Marta Temido da cadeira onde já não se quer sentar - o estado da Saúde é este: dois cargos para gerir o Serviço Nacional de Saúde, dois lugares por ocupar. Sem ministro em plenas funções (e sem qualquer pista sobre quando haverá fumo branco para a substituição) e com um novo diretor por designar, foi a ministra da Presidência quem deu a cara pela estranha situação em que o Governo mergulhou.

Marta Temido começou por responder aos jornalistas, mas parca em palavras. A etapa que finalizou foi a da aprovação dos diplomas que permitem a criação de uma nova direção executiva do SNS, agora a escolha da pessoa e da equipa que irá ocupar esse cargo já não estará nas suas mãos - é um “processo subsequente”. Sobre a sua saída abrupta, limitou-se a dizer que está “grata pela oportunidade”, mas que “há ocasiões em que avaliamos o nosso contexto pessoal e as condições que temos para prosseguir um caminho”.

Esta foi a primeira pergunta dos jornalistas presentes no briefing do Conselho de Ministros, que juntava à mesma mesa a ministra da Saúde, a ministra da Presidência e o ministro do Ambiente, por causa das medidas de poupança de energia também aprovadas. À segunda insistência dos jornalistas, já seria Mariana Vieira da Silva a chegar-se à frente. Quantos dias mais vai ficar a ministra da Saúde demissionária no cargo? “Vou responder, com o acordo da senhora ministra da Saúde, para dizer que o calendário que o primeiro-ministro apresentou apontava este momento como um elemento fundamental para a continuidade da ministra, agora cabe ao primeiro-ministro, em articulação com o PR, definirem uma data” para a escolha e anúncio do sucessor. Porque é que está a demorar tanto, ninguém explicou.

Nova pergunta, nova insistência dos jornalistas para perceber se a nomeação do diretor executivo estará já a cargo do novo ministro, se a ministra demissionária tem preferência pelo seu sucessor e se esta foi a primeira vez, nesta legislatura, que pediu para sair. Na qualidade de presidente do Conselho de Ministros e ministra que encabeça os briefings, Mariana Vieira da Silva passaria a palavra a Marta Temido para “responder a parte das perguntas”. Temido foi sucinta: a escolha da direção executiva é “um novo momento” e, “naturalmente”, ao novo ministro deseja “a maior sorte”. “Trabalhar num governo é trabalhar em equipa, e formamos equipa com quem veio antes de nós e com quem vem a seguir”, disse, sugerindo que a passagem de pastas se fará com tranquilidade e espírito de cooperação.

O jogo de pergunta-resposta repetiu-se algumas vezes, sempre com a insistência no mesmo tema. Questionada sobre o que a tinha levado a aceitar ficar mais semanas no cargo, e se não sentia que essa era uma forma de o primeiro-ministro condicionar o seu sucessor, foi novamente Mariana Vieira da Silva que voltou a fazer barreira. António Costa, de resto, esteve ausente do Conselho de Ministros desta quinta-feira por motivos de saúde.

“Já passarei a palavra à ministra da Saúde, mas creio que ficou claro desde a primeira hora que a ministra pôs o lugar à disposiçao entendendo que não tinha mais condições para continuar o seu trabalho e o primeiro-ministro entendeu que este era um passo importante para que o tema ficasse fechado. O governo tem um programa para cumprir, de onde constava aprovação do estatuto do SNS”, disse a número dois do executivo, lembrando que as decisões do governo são “colegiais” e explicando que só falou pela ministra sentada ao seu lado para a “libertar” de mais explicações.

Marta Temido absteve-se de falar mais. A dança continuou por mais duas rondas. A cada uma, era Vieira da Silva quem fazia barreira. Marta Temido não voltaria a dar mais explicações. Foi a última vez que se sentou na cadeiras das conferências de imprensa do Conselho de Ministros, a batata quente já não está nas suas mãos.