Política

'Uuuhs' e vaias ao PS regressaram ao Avante, Jerónimo quer o PCP de volta ao ataque

4 setembro 2022 20:53

Ana Baião

Ana Baião

Fotojornalista

ana baiao

“Pronto e decidido a continuar a lutar”, o PCP voltou em força à oposição. Do alto do palco da Quinta da Atalaia e num discurso virado sobretudo para o interior do partido, Jerónimo de Sousa atirou farpas à “política de faz de conta” do Governo do PS, alertou para os perigos de “um Estado mínimo para as funções sociais” e fez um intenso apelo ao combate e que o partido regresse à luta política

4 setembro 2022 20:53

Ana Baião

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Jerónimo de Sousa tinha acabado de rever a história do último ano e de explicar como a “submissão do Governo à União Europeia” se transformou num “completo bloqueio” das negociações com os comunistas, quando a plateia começou a aquecer a voz para as vaias e assobios. E mal Jerónimo assumiu que o impasse orçamental entre PCP e Governo serviu para que os socialistas aproveitassem para “provocar uma crise política e eleições com o objetivo de obter uma maioria absoluta”, a multidão desatou a gritar ‘uuuhhh’ e um coro interrompeu as palavras do secretário geral do PCP.

Depois de uma longa pausa de seis anos de Governos da Geringonça, os apupos ao PS voltaram a pautar o discurso da Festa do Avante. E na rentrée política dos comunistas, o Governo de António Costa foi, pela primeira vez, alvo de fortes vaias dos militantes comunistas, mostrando como o mundo político mudou e que não restam dúvidas de que o papel do PCP é o de oposição e que o objetivo é o de passar ao ataque.

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Os apupos começaram no arranque dos 44 minutos que durou a intervenção de Jerónimo de Sousa, mas voltaram como acompanhamento de fundo, a cada vez que o líder comunista se referia às ações levadas a cabo pelo PS e pelo Governo de António Costa no último ano de vida política nacional. A convocação de eleições antecipadas foi “uma premeditada operação” desencadeada pelo PS, reclama Jerónimo, que carrega nas tintas para descrever a situação em que o país se encontra depois da saída de cena dos comunistas (e da sua maior perda eleitoral). Há “uma agressiva onda de exploração e especulação”, uma “fúria exploradora e especulativa”, “um escandaloso roubo aos trabalhadores e ao povo”, diagnostica o secretário geral comunista. Pior ainda, o problema é que o Governo só exerce uma “política de medidas faz-de-conta”, quando “são inadiáveis medidas de emergência sérias e de efetivo combate ao aumento de custo de vida”.

A “razão que o PCP tem”

O discurso do secretário geral foi, porém, maioritariamente virado para o interior do partido. Contra as “reiteradas campanhas de manipulação e mentira, das pressões e das desprezíveis chantagens”, o mote é o de cerrar fileiras e mostrar que “razão tem o PCP” em várias matérias, desde a guerra na Ucrânia às propostas de medidas de impacto social e económico que os socialistas condenaram a ficar na gaveta. Os sucessivos agravamentos da guerra “que o PCP oportunamente condenou”, lembra Jerónimo, mostraram que o partido tinha “razão ao estar desde a primeira hora do lado da paz" porque “a realidade está a demonstrar quem tudo faz para que a guerra não termine, quem tudo faz para acumular lucros colossais com a sua continuação, como o complexo militar-industrial e as grandes transnacionais da energia e da alimentação”.

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A mesma “razão” assiste às propostas comunistas para “reposição do poder de compra, dos salários e pensões e ao necessário e indispensável controlo de preços”. A fixação de tetos máximos, a redução do IVA da eletricidade e do gás, ou o aumento da taxação das grandes empresas e dos grandes lucros não são ideias novas, mas que agora ganham novo fôlego na afirmação política do PCP.

“Não estamos condenados a esse caminho”, diz Jerónimo de Sousa demarcando-se completamente do desenho das medidas traçado por António Costa. O tempo é de combate, porque “nesta situação em que vivemos, o reforço da luta é um imperativo” e porque só “com a força e a luta dos trabalhadores se pode mudar o rumo dos acontecimentos”.

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O regresso às trincheiras é agora o caminho. O secretário-geral comunista lembrou os militantes que a Conferência Nacional, marcada pelo comité central para Novembro, é o momento para encontrar novas respostas perante “as tendências económicas e sociais negativas que hoje se apresentam”. Jerónimo de Sousa quer que o encontro sirva “para assegurar as tarefas do fortalecimento da organização do partido”. Sem restrições sanitárias impostas pela covid, os militantes voltaram a dançar a “Carvalhesa” à frente do palco, no final do discurso do líder e dos hinos da praxe (Avante, Internacional e “A Portuguesa”). Pelo discurso de Jerónimo se vê que os comunistas perceberam que o mundo político nacional mudou muito. Estarão a preparar-se para mudar, também?