Política

As "incertezas" de Marcelo nas Conferências do Estoril: guerra na Ucrânia pode ter "alívio temporário" mas é "conflito global" para durar

1 setembro 2022 14:28

josé sena goulão

Da guerra na Ucrânia e questão de Taiwan aos efeitos da pandemia e alterações climáticas, o Presidente da República sublinhou o papel da nova geração nos desafios globais no horizonte

1 setembro 2022 14:28

Marcelo Rebelo de Sousa esteve na manhã desta segunda-feira na sessão de abertura das Conferências do Estoril, que decorrem esta quinta e sexta-feira no campus da NOVA SBE. “Estamos aqui para discutir um tema crucial: como reequilibrar o nosso mundo”, afirmou.

O Presidente da República começou por traçar um cenário pouco animador, no qual enumerou uma longa “lista de incertezas” para o futuro global. As alterações climáticas, a transição energética, a revolução digital, as crescentes desigualdades que resultam em crises que se acumulam (como a fome mundial e nas migrações) foram algumas das dúvidas identificadas, num discurso que abordou também a necessidade de adaptação das instituições e dos próprios sistemas políticos.

“Sabemos que as instituições nacionais e internacionais, da forma que estão, vão estar sempre atrasadas em compreender e encontrar soluções para cada novo ou velho problema", considerou.“Sabemos que a pandemia foi um desafio mais fácil de enfrentar para as ditaduras do que para as democracias. Sabemos que o respeito pela lei internacional e os Direitos Humanos devem ser seriamente defendidos.”

Por isso, e para conseguir dar melhor respostas, o Presidente de República dirigiu-se aos jovens universitários na plateia para sublinhar o papel da nova geração como os “líderes do novo mundo” que se está a formar. Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, a geração com propósito (slogan da conferência que usa a #PurposeGeneration nas redes sociais) deve ter como “grande propósito” a inclusão, que se traduz na luta contra as desigualdades e descriminação, pelo diálogo e aceitação. “É tão simples, e ainda assim tão difícil de atingir”.

PR alerta para “guerra global” e “paz precária” em Taiwan

Mais uma vez, as Conferências do Estoril pretendem debater “os problemas mais importantes e globais”, desta vez sob a tónica de um novo desafio que emergiu nos últimos meses: a guerra na Ucrânia e a ameaça à paz internacional.

Marcelo Rebelo de Sousa não contornou o tema e alertou: “Sabemos que a guerra na Ucrânia não é uma guerra europeia, mas antes uma guerra global que envolve três grandes atores geopolíticos (a Rússia, os Estados Unidos e a UE)."

O PR continuou, elaborando sobre as particularidades do envolvimento de cada uma destas potências no conflito.

“Sabemos que a Federação Russa quer recuperar poder global e não manter apenas um forte poder regional. Que a UE quer adquirir um estatuto permanente no poder global que ainda não tem. Que os EUA querem mostrar que são a super potência.”

Por outro lado, o Presidente alertou para o papel de outros atores nesta questão global.

“A China quer [afirmar-se] após a gestão sem sucesso da pandemia e da recuperação económica. E há países não europeus que podem estar simultaneamente ideológica e politicamente alinhados com a Federação Russa e ser imparciais na guerra declarada pela mesma Federação Russa.”

Neste contexto Marcelo Rebelo de Sousa considerou que “o resultado imediato da guerra pode ser, quando chegar, um alivio temporário, mas não o fim das causas e da forte probabilidade de novas fases do mesmo conflito global”.

Isto quando a falha da Rússia, EUA e NATO em alcançar sequer “um acordo temporário na Ucrânia” é percecionado como “uma derrota para estes países e para o resto do mundo”.

O PR alertou também para a “paz precária” em Taiwan, que considera ser incerto se se irá aguentar. Defende ser necessário, “para evitar uma confrontação sem sentido”, uma “análise clara dos poderes”.

A questão da paz será o tema central do segundo dia da conferência. Já está quinta-feira, o primeiro dia divide-se entre temas sociais e ambientais.

Inflação: “Temos de acompanhar com muita atenção o que vai acontecer”

À margem da conferência, Marcelo Rebelo de Sousa foi questionado pelos jornalistas sobre o impacto da guerra na Ucrânia na inflação e nos preços do mercado de habitação. Tal como durante a sessão, o PR deixou várias “dúvidas”.

“Temos de acompanhar com muita atenção o que vai acontecer na evolução dos preços, da inflação, e o que isso projeta na vida das pessoas. Vai manter-se a subir? Desce ligeiramente, como os últimos números parecem apontar? Desce mais a partir do fim do ano, e na perspetiva de o conflito não ser muito duradouro?”, questiona.

“Segunda dúvida: até lá, as famílias e empresas sofrem. Qual o pacote de medidas que em vários países, e também Portugal, vai enfrentar essa situação?”

“Terceira questão: saber quando isso acontecerá: agora em setembro, antes do Orçamento para o ano que vem? Há medidas que são muito urgentes e outras vão ser previstas para o ano que vem. Tudo isso vai estar na atualidade em todos os países da Europa. E depois, como é que a Europa trabalha essas medidas?”.

O Presidente foi também questionado sobre a recém anunciada descida do IVA em Espanha, tendo-lhe sido perguntado se considera que a medida deverá ser adotada em Portugal.

“Neste momento, em todos os países, tem de se ponderar um conjunto de medidas", afirmou. “O ideal é que fosse concertado a nível europeu, se não aumentam as desigualdades”. E sublinha que o aumento do preço da energia ”já está a criar problemas na vida das pessoas, famílias e empresas”.

Sobre o pacote contra a inflação a ser preparado pelo Governo, Marcelo Rebelo de Sousa não se pronunciou. “Vamos ver. Essa é uma decisão do Governo”.