Política

Atrasos nas próteses deixam deficientes militares desesperados, em “prisão domiciliária”

12 agosto 2022 11:29

Vítor Matos

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Jornalista

Tiago Miranda

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Fotojornalista

Carlos Fanado, perdeu uma perna e um pé numa emboscada, na Guiné-Bissau, durante a Guerra Colonial, um mês antes do 25 de Abril. Espera há oito meses por um novo encaixe para a prótese. FOTO TM

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Há mutilados da guerra meses à espera de material como próteses ou botas ortopédicas. Sentem-se revoltados, continuam a sentir-se tratados como “carne para canhão” e há quem faça ameaças

12 agosto 2022 11:29

Vítor Matos

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Tiago Miranda

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O furriel Carlos Fanado foi o único sobrevivente do último grande ataque do PAIGC na Guiné-Bissau, já no fim da Guerra Colonial. A emboscada apanhou-o no dia 22 de março de 1974, a um mês e dois dias do 25 de Abril: “Os que iam comigo na viatura morreram todos... eu perdi as duas pernas.” Numa, foi amputado acima do joelho. Na outra, usa uma bota “de características muito especiais”, feita por medida na Alemanha. “Assim que fiquei amputado mandaram-me para a Alemanha e estive lá um ano para me porem a andar”, recorda. Aos 71 anos, desde janeiro que está limitado às muletas, quando o médico do Hospital das Forças Armadas lhe prescreveu uma nova ida à Alemanha para refazer o encaixe da prótese. Mas o processo não avançou ao longo de oito meses e este bancário reformado, a viver em Cascais, não sabe nem como nem quando será resolvido. “Estou nisto... não sei nada da minha vida. Tenho de andar de muletas, com problemas de coluna — para não falar dos psicológicos —, e recusam-me o tratamento a que tenho direito”, desabafa, com irritação, impaciência e revolta: “Fui como carne para canhão, mandado para lá, estive três anos no Hospital Militar e agora estou nesta situação porque os senhores militares me recusam assistência.”

O Orçamento do Estado tem previsto €20 milhões anuais para os deficientes das Forças Armadas e apresenta como objetivo “apoiar a saúde, a qualidade de vida, a autonomia e o envelhecimento saudável de antigos combatentes e, em concreto, de deficientes militares, por forma a prevenir a sua dependência, precariedade, isolamento e exclusão”. Mas o Expresso falou com quatro ex-combatentes e todos têm queixas semelhantes, que garantem ser inéditas: meses à espera de substituição ou reparação de próteses, sem que o Laboratório Militar lhes dê um prazo. O desespero é de tal ordem que um dos ex-militares com que o Expresso falou, para além dos que são citados neste artigo — e que preferimos não identificar dado o tipo de declarações —, ameaça com atentados a políticos que ele entenda terem responsabilidade na situação.