Política

"Obviamente", Pedro Nuno não se demite

30 junho 2022 18:00

Rita Dinis

Rita Dinis

Jornalista

tiago miranda

Pedro Nuno Santos lamenta "falhas", assume "responsabilidade" mas quer "reconstruir relação" profissional e de "amizade" com Costa. Plano do aeroporto volta ao ponto em que estava: despacho vai ser revogado ainda hoje e Governo fica à espera do PSD

30 junho 2022 18:00

Rita Dinis

Rita Dinis

Jornalista

"É uma falha relevante, que assumo, mas que obviamente não mancha o trabalho já longo feito em conjunto com o senhor primeiro-ministro, e que começou ainda antes de sermos Governo", disse Pedro Nuno Santos na curta declaração que fez aos jornalistas esta tarde no Ministério das Infraestruturas, depois de ter estado reunido com António Costa em São Bento. "Obviamente", repetiu Pedro Nuno, "queremos ultrapassar este momento e reconstruir a nossa relação de confiança e de trabalho".

Em causa está a decisão, anunciada ontem pelo ministro das Infraestruturas quando Costa estava na Cimeira da NATO, em Madrid, do plano para o novo aeroporto de Lisboa. Em vez de o Governo esperar para ouvir a posição do novo líder do PSD - que só assume plenas funções no congresso deste fim de semana - tinha decidido de vez: a solução Montijo era para avançar até 2023 e, paralelalemente, arrancar para a solução definitiva que passa pela construção de um grande aeroporto em Alcochete. Pelo caminho, caía o plano de avaliação ambiental estratégica que tinha sido pedido a um consórcio com capitais espanhóis e o novo estudo passaria para as mãos do LNEC.

O despacho, assinado ontem pelo secretário de Estado das Infraestruturas, diz isso mesmo, mas seria desautorizado em toda a linha pelo primeiro-ministro, que anunciou hoje a sua revogação. Tratou-se de uma "falha de comunicação e de articulação", disse Pedro Nuno Santos, assumindo a sua "inteira responsabilidade". O primeiro-ministro terá aceitado o seu pedido de desculpas: o ministro desautorizado fica, e o despacho do aeroporto é revogado. Volta o plano inicial: falar com o líder da oposição depois de domingo, quando for formalmente empossado.

Numa delcaração curta e sem direito a perguntas, Pedro Nuno Santos foi parco em justificações, limitando-se a assumir a falha. E fê-lo dirigindo-se em particular ao primeiro-ministro e ao Presidente da República. "Quero reconhecer perante o senhor primeiro-ministro e perante o senhor Presidente da República, que tem a informação que o PM lhe dá, que houve falhas relevantes e que estas falhas tiveram consequências", disse, "penalizando-se profundamente" por essas mesmas falhas.

The show must go on

Feito o pedido de desculpas, o ministro continua em funções e fez questão de se mostrar comprometido com o trabalho que tem pela frente de "reconstrução" da relação de confiança com o primeiro-ministro.

"Tínhamos um objetivo definido pelo primeiro-ministro, e a vontade de querer concretizar levou a que esse procedimento e esse objetivo não fosse concretizado, nomeadamente a procura ativa pelo consenso para a realização de uma infraestrutura com esta importância. É uma falha relevante que assumo, mas que obviamente não mancha o trabalho já longo feito em conjunto com o senhor primeiro-ministro, ainda antes de sermos Governo. A caminhada que fizemos juntos para a liderança do PS e que permitiu construirmos uma solução política inovadora para a qual poucos acreditavam, um trabalho de muitos anos que é partilhado e liderado naturalmente pelo senhor primeiro-ministro", prosseguiu.

Trata-se, nas palavras de Pedro Nuno Santos, de uma relação que é "profissional" mas que também é "de amizade", que agora levou um revés mas que não é por isso que ficará manchada para sempre. "Este trabalho com o PM tem anos, é uma relação profissional mas também de amizade que não é manchada por um momento infeliz que teve perturbação como a que hoje estamos a viver", disse.

"Queremos obviamente ultrapassar este momento, retomar o nosso trabalho em conjunto, reconstruir a nossa relação de confiança e de trabalho, é esse o nosso objetivo", disse.

O plano volta agora ao ponto onde António Costa o deixou: esperar pelo novo líder do PSD e procurar consenso junto da oposição. "Vamos continuar o compromisso assumido pelo PM de procura ativa de compromisso para garantirmos estabilidade nas matérias relevantes para o novo aeroporto de Lisboa e do país", disse ainda Pedro Nuno Santos, voltando a assumir a "falha na comunicação e na articulação com o PM e com os restantes colegas no Governo".

"Vamos continuar esta caminhada, que já leva quase sete anos, e que é uma caminhada de sucesso", disse apenas o ministro, não respondendo a perguntas dos jornalistas.