Política

Marcelo carrega nas exigências para as Forças Armadas: "De repente passamos a viver em troika?"

27 abril 2022 23:33

manuel de almeida/lusa

Presidente da República rejeita que "se continue a viver em troika em termos de promoções" nas Forças Armadas e explica que, para um dia não termos "que fazer omeletes sem ovos", é preciso dar "perspetivas às carreiras" e garantir "equipamentos compatíveis" com a NATO. Marcelo volta a pressionar Orçamentos de Costa

27 abril 2022 23:33

Marcelo Rebelo de Sousa deu esta quarta-feira mais um passo em frente na exigência de novos meios e apoios às Forças Armadas, explicando o que considera vital para que, "a prazo", não sejamos confrontamos com a inevitabilidade de ter que "fazer omeletes sem ovos".

Melhores perspetivas de carreira e melhores equipamentos, eis as exigências do Presidente, que assim alinha pelas reivindicações da corporação militar que há muito se queixa precisamente de défice de condições para estabilizar os contingentes e também para atualizar os equipamentos compatíveis com o papel de Portugal na NATO.

Marcelo diz que tem "acompanhado qual é o estado de espírito das Forças Armadas" e diz que "estão a fazer milagres". Como? "É preciso aprontar rapidamente um meio preciso para a NATO? Fazem isso e conseguem fazer o milagre. Não dá para fazer milagres sistemáticos, que é fazer omeletes sem ovos. Neste momento, estamos a fazer omeletes com poucos ovos. Um dia não dá para fazer omeletes sem ovos", alertou o Presidente.

Como Chefe Supremo das Forças Armadas, Marcelo Rebelo de Sousa diz que "há dois tipos de intervenções que os portugueses têm de assumir" e explicou do que fala em declarações aos jornalistas no Palácio de Belém.

A primeira são "equipamentos compatíveis com as missões que nós estamos a assumir, e não é agora, é compatíveis a prazo", com um "esforço continuado - ou seja, Marcelo não espera grandes milagres já no próximo Orçamento de Estado, mas pressiona o Governo a acautelar o setor quanto antes e seguramente de forma mais robusta nos Orçamentos do Estado seguintes. Segunda prioridade: garantir "condições de promoção e de perspetiva de vida e de carreira" aos militares.

Dois dias depois de ter feito do reforço de meios e apoios à Defesa o tema único do seu discurso nas comemorações do 25 de abril, avisando que os novos tempos, as novas fronteiras, as novas exigências de segurança e a imprevisibilidade da situação de guerra que atualmente se vive na Europa mas que o leva a concluir que "o mundo mudou", exigem umas Forças Armadas reforçadas, o Presidente volta a pressionar o Executivo. E também a opinião pública, por estar convicto - como disse no Parlamento - de que sem um consenso nacional, a nenhum poder público será fácil retirar verbas a outros setores da despesa pública para beneficiar o setor militar.

"A mim não me interessa tanto essa coisa dos 2%"

"Aquilo que dá mais notícia em termos mediáticos é 2% do orçamento", afirmou o Presidente, referindo-se à exigência da NATO para que cada país membro canalize 2% do seu PIB para a Defesa. "A mim não me interessa tanto essa coisa dos 2%. A mim o que interessa verdadeiramente é os portugueses aderirem à ideia", explicou Marcelo Rebelo de Sousa, "Porque, se não aderirem, os partidos assim como hoje dizem uma coisa, amanhã se perceberem que os portugueses querem outra coisa os partidos deixam cair. Em quantas campanhas eleitorais se falou de Defesa? Muito raramente. Porquê? Porque os portugueses não achavam fundamental".

Apostado em chamar a si a pedagogia pró-FA, o Presidente passou a explicar porque é importante dar condições de carreira: "Como pode haver Forças Armadas motivadas se as promoções sistematicamente chegarem com um ano de atraso -- com a 'troika' foi assim, mas de repente passamos a viver em 'troika' em termos de promoções?", questionou, numa clara crítica aos Governos que no pós-troika mantiveram o cinto apertado para o setor.

"Se na entrada nas Forças Armadas, de repente a pessoa pensar duas vezes: se eu for para outro corpo que serve o Estado e tenho melhor estatuto, por que é que vou para as Forças Armadas? Ou então entram nas Forças Armadas e depois saem", exemplificou o Presidente da República, antes de passar à segunda prioridade, os equipamentos.

Aqui, Marcelo alertou que "ter Forças Armadas preparadas para três, quatro, cinco, seis meses é ter fragatas prontas, é ter aviões prontos, é ter condições para unidades do Exército, se for necessário intervir, como acontece na Roménia estarem preparadas para isso, e em número suficiente para não serem sempre os mesmos - que estão a rodar consecutivamente na República Centro-Africana".

Consciente de que "muitas pessoas congratulam-se com a participação das Forças Armadas, por exemplo, no plano interno, no processo de vacinação contra a covid-19, mas depois têm reticências em relação a um maior investimento neste setor", o Presidente diz que "por isso senti o dever, como Comandante Supremo das Forças Armadas, de dizer o que disse no 25 de abril".

O contexto de guerra na Europa ajuda a dar fôlego ao tema e Marcelo não esconde que também agarrou a oportunidade: "É uma mudança [a guerra] que faz com que as pessoas estejam hoje mais sensíveis, por isso este discurso tinha de ser agora".