Política

Irritação entre Marcelo e Costa ficou à porta das celebrações do 25 de abril

nuno botelho

Nem um sinal de 'irritação' entre Presidente da República e primeiro-ministro. A cerimónia solene de arranque das celebrações dos 50 anos do 25 de Abril serviu para dar um sinal de unidade política. Na assistência estiveram os embaixadores da Ucrânia e da Rússia. Ambos de cravo vermelho.

23 março 2022 20:51

Nuno Botelho

Nuno Botelho

Fotojornalista

À saída de Belém, Marcelo Rebelo de Sousa deu sinais de desconforto por ter tido conhecimento do próximo elenco governativo antes da audiência com o primeiro-ministro. “Pelos vistos, fiquei a saber pela comunicação social”, disse em declarações à SIC, concluindo que "dispensa-se uma audiência" com António Costa. Pouco depois, no pátio da Galé, Presidente e chefe do Governo confraternizaram lado a lado na cerimónia solene de arranque das celebrações dos 50 anos do 25 de abril. Até concordaram no discurso de homenagem aos "heróis" da revolução, partilharam o palco na condecoração de 30 militares de Abril e colocaram em conjunto objetos numa 'capsula do tempo' destinada a abrir pelos jovens do ano de 2074.

Nem um sinal de desarmonia política. Nas mais de duas horas de 'convívio', Marcelo e Costa trocaram palavras, gestos e sorrisos, enquanto os assessores de Belém presentes na cerimónia, recorreram à habitual fórmula do "não confirmo, nem desminto" para responderem à notícia que circulava entre os jornalistas de que a audiência prevista com António Costa tinha sido cancelada pela Presidência da República. À saída, Marcelo Rebelo de Sousa recusou prestar quaisquer declarações, enquanto o primeiro-ministro respondia com um "é natural" à pergunta da RTP sobre se compreendia "a irritação do Presidente da República pelo facto de ter conhecido a lista do Governo pela Comunicação Social".

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"Natural" ou não, o certo é que o protocolo institucional foi cumprido à risca e sem uma beliscadela. O tempo era para homenagear a revolução que implantou a democracia em Portugal e tanto Costa como Marcelo sublinharam o "simbolismo" do arranque das comemorações no dia em que os dias de democracia dobraram o cabo das tormentas sobre a ditadura. O primeiro ministro apresentou as contas: "17 499 dias em que vivemos a mais longa ditadura da Europa" e, a partir de hoje, "17 500 dias sobre o 25 de abril, em que Portugal vive há mais dias em liberdade do que aqueles que viveu em ditadura".

Pouco depois, era a vez de Marcelo Rebelo de Sousa dizer que "o que mais importa é o simbolismo desta vitória da democracia sobre a ditadura", a que acresce outra marca igualmente importante em que "a Constituição democrática já durou muito mais do que a Constituição anti-democrática de 1933".

Ucrânia e Rússia na plateia

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Na assistência, separados por algumas filas de distância, Inna Ohnivets, embaixadora da Ucrânia em Portugal, e o embaixador russo, Mikhail Kamynin, em Lisboa, ouviram o presidente da AR. Não houve aplausos. Mas, também, ninguém se ausentou da sala.

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Primeiro ministro e Presidente da República coincidiram ainda nos avisos feitos sobre as celebrações do 25 de Abril. António Costa sublinhou que liberdade e democracia "nunca estão imunes a ameaças" e "o muito que há ainda para fazer para construirmos o País que desejamos". Mais adiante, era a vez de Marcelo Rebelo de Sousa apelar a que as homenagens ao 25 de Abril "não fiquem na celebração do passado", mas que sirvam tambem para "uma reponderação e uma revisão crítica" sobre "o que não foi o melhor, sobre as fragilidades, as desilusões e as insuficiências" da liberdade e da democracia que começou há quase 50 anos em Portugal.

De cravo ao peito, as mais altas figuras do Estado concordaram ainda na designação dos militares que fizeram o 25 de Abril como "heróis". E, Ferro Rodrigues, também o disse e repetiu. Mas, o presidente da Assembleia da República "já em fase final" de mandato e "em fase de descontos", aproveitou a oportunidade para fazer um paralelo entre o "tempo desmesurado e mesquinho" da ditadura portuguesa, com a atual situação mundial. Perante "esta guerra bárbara na Europa", que nos "faz lembrar o que é a deturpação da verdade", Ferro Rodrigues não se conteve em mencionar os "acontecimentos de magnitude tremenda" que resultam da invasão russa da Ucrânia e nos fazem assistir "à violação do direito internacional e dos mais elementares direitos humanos".