Humor à Primeira Vista

Salvador Martinha: “Não quero estar aos 65 anos a ver se esgotei o Coliseu”

30 dezembro 2022 10:42

Com a nova temporada da série “Sou Menino Para Ir” na RTP e a estreia da peça “Plim - Passa lá na agência” em vista, já lá vão os tempos em que Salvador Martinha apresentava um novo espetáculo de “stand-up” ano sim, ano não. Numa altura em que procura diversificar o seu trabalho, explica, no podcast Humor à Primeira Vista, porque é que não quer estar exposto ao público continuamente, revela como se tornou o primeiro português com um solo de “stand-up” na Netflix e leva-nos pelo esforço de ir escavando os seus dilemas até estar pronto para os contar em palco

30 dezembro 2022 10:42

Notas que a bagagem que tens de anos de “stand-up“ ajuda-te na série "Sou Menino Para Ir", ou é uma coisa à parte que tens de aprender do zero a fazer?
Não, eu acho que ajuda muito. Eu só consigo fazer o “Sou Menino Para Ir” desta maneira agora, porque eu no fundo especializei-me a fazer de mim mesmo. Não é nenhuma personagem, mas eu estou muito habituado a fazer de mim. Desde os vinte que faço de mim. “Stand-up” é fazer de mim. Ainda hoje estava a ligar-me um amigo e dizia que era incrível parecer mesmo eu. E eu disse: “Pois, pareço eu, mas tu lembras-te de como comecei.” Quando eu tinha vinte anos vocês diziam que não era nada eu, e era eu já, mas não parecia nada eu. Demorei anos a parecer eu.

Dizias numa entrevista que aos 40 anos te querias reformar. Estás com 39. A cumprir, em 2023 terminarias a tua carreira. Os humoristas que são uma referência para ti não acabaram a carreira cedo, ou acabaram?
A nível pessoal não são uma referência para mim.

Ah, então é uma decisão puramente pessoal, não é profissional.
É uma decisão pessoal no sentido em que ver um artista continuadamente exposto ao público... há qualquer coisa de triste nisso. Não são para mim referências nisso. Não é aquele tipo de vida que quero. Não quero estar aos 65 anos a ver se esgotei o Coliseu. Essa submissão à validação do público continuadamente não é para mim um objetivo. Eu gostaria de sair disso.

Tens um artista que tenha feito isso e penses “Quero fazer como ele?” O Quentin Tarantino diz que só vai fazer mais um filme e sair.
Sim, mas eu queria tornar isto mais terra a terra. Isto não é para mitificar, eu não quero ser um mito. É mesmo uma questão de felicidade. Para mim, o meu “caminho de felicidade” passa por não estar exposto continuadamente no tempo. Não me agrada isso. Acho que é muito violento.

Quais os comediantes que expõem a sua sensibilidade que gostas mais?
Eu diria que o Bo Burnham, sem dúvida, é um comediante sensível. Como é que ele te emociona a falar de Pringles? Como é que se explica isto? É o caso mais paradigmático disto. O Chapelle também sinto que é sensível. É uma besta e é sensível. Não é “sensível”, são pessoas que avançam para uma exposição que também os envergonha às tantas. Têm que se vencer para se expor daquela maneira. Há coisas que não tens coragem de dizer, por exemplo, há uma coisa que nos primeiros quatro anos em que fiz terapia nunca consegui dizer. Agora se voltar, já estou bem para dizer. Imagina isto em palco: tu em palco não tens coragem de dizer tudo. Há comediantes que têm limites para a exposição, porque não gostam, mas também não conseguem ir para lá. Também há aqui alguma incapacidade. Eu tenho um “bit” que gostava muito de fazer, só que só posso quando os meus pais morrerem. Não consigo. Não consigo expor-me e sujeitá-los àquela minha exposição que também os envolve. Há limites para a exposição, eu não digo tudo o que quero. Esforço-me para ir escavando entre mim, mas há temas que eu não consigo.

Gustavo Carvalho faz perguntas sobre comédia. O convidado responde. Sorriem… é humor à primeira vista. Oiça aqui mais episódios: