Humor à Primeira Vista

César Mourão: “Talvez queira ser o mais engraçado dos não-humoristas”

6 maio 2022 8:30

Nesta conversa com Gustavo Carvalho, César Mourão fala sobre o que está por trás dos espetáculos de improviso, dos novos projetos como a série “Volto Já”, e de como conheceu Herman José. Oiça o podcast Humor À Primeira Vista

6 maio 2022 8:30

Tu não te consideras humorista, em parte pela tua formação enquanto ator. Achas que as pessoas valorizam mais o humorista pelo trabalho que ele faz fora da comédia? Porque há muito aquele comentário, "ele não é só humorista”.

Não penso nisso dessa forma, na verdade não me sinto humorista. Como disseste [na introdução] e bem, talvez eu queira ser o mais engraçado dos não-humoristas. É a única forma de ser o mais engraçado. Mas não é falsa modéstia. Não acho mesmo que seja humorista na sua essência. Eu gosto muito de comédia, trabalho muito na comédia, mas não faz de mim humorista. O Jim Carrey é humorista? Acho que não.


Embora ele tenha um passado mais ligado a stand-up comedy, antes de ser ator nos filmes de Hollywood.

Certo, fez stand-up comedy, começa aí. Até pode deixar algumas dúvidas. Mas um ator que faça um papel cómico, num filme ou numa novela, não é forçosamente um humorista. E eu não me considero humorista.

É um termo que está muitas vezes ligado àquela parte de criação de texto, será por isso?

Eu escrevo também. Esta última série que fiz fui eu que escrevi com o Pedro Goulão.

A "Esperança".

Não, chama-se "Volto Já". Ainda não estreou. Vai estrear na SIC.

Mas a "Esperança" era baseada na peça que escreveste com o Frederico Pombares.

Certo. Eu escrevo também, mas acho que humorista é outra coisa. O Salvador Martinha é um humorista, Herman José é um humorista, Ricardo Araújo Pereira é um humorista. Eu não sou humorista. Sou um ator, estou na representação, desdobro-me um bocadinho por outras coisas que gosto muito de fazer: a música, a apresentação. Tudo meio sem querer.

Mas o humor não é sem querer.

Não. Assumidamente a comédia para mim é um sítio em que me sinto muito bem. Mas na essência da palavra não me considero humorista.

Fazendo jus à expressão "o mais engraçado entre os não humoristas", foste nomeado para um Globo de Ouro na categoria de Humor.

Cá está. Um erro desta casa (risos). Eu agradeço muito, e tenho trabalhado muito no humor. Trabalhar no humor, para mim, não significa ser um humorista. São coisas diferentes. Um humorista acho que é humorista de segunda a sexta. É quase matemática: aquilo e aquilo dá este, uma punchline, o tempo é este. Funcionam assim, eu não.

Tu não tens isso?

Não tenho.

Mesmo nesses projetos mais de escrita de guião.

Não. Escrevo comédia, penso em comédia. Estou muito atento ao lado da comédia, mas isso para mim é muito mais um lado de ator e não tanto de humorista.

Já disseste que depois dos espetáculos de "Commedia A La Carte" por vezes há “discussões” nos bastidores. O que é que acontece nessas discussões?

A discussão basicamente prende-se com seguir o caminho que não é fácil e não repetir a solução. Se ontem já tínhamos puxado de uma pistola no meio de improvisação, não vamos repetir, mas desta vez repetimos. Se o recurso é o mesmo, vamos fugir daí. E as discussões (às vezes não são entre aspas) prendem-se com isso. Não queremos ir pelo caminho fácil. É fácil a mulher apanhar-te a trair e tu puxares de uma pistola, mas aquilo fica um beco sem saída. E não é bom na improvisação, não podes fechar. Agora, como é que dás um outro caminho, de forma inteligente, para o amante sair? Aí é que está o improviso e a inteligência do improviso.

Nessas discussões, discordam de que a ideia utilizada tenha sido fácil?

Muitas vezes não discordamos. Os três erramos em palco, é muito fácil errar no improviso. Os outros estão lá para realmente salvar, essa é a regra. Raramente as discussões vão muito longe. Normalmente o que acontece é: "Epá, tens razão, não me lembrei na altura. Patinei ali, eu próprio não queria ir para aí. Arrependi-me quando fui." O improviso é isso, estás completamente sem nada e tens de reagir, um segundo de silêncio são vinte, na verdade. A inteligência é usar o silêncio a teu favor. A tua não resposta é uma resposta, mas às vezes é difícil a decisão. O teu cérebro abre-se em leque, tens catorze saídas, e às vezes vais para uma que não é boa.

E quando estás em palco e percebes que aquele momento está a ir por um caminho de que não gostas. Tens de estar empenhado na mesma, não é?

Sim, mas há muitas formas de eu sair dele. Imagina que alguém escolhe um caminho que é péssimo; ou que para os outros dois não era isso; ou estamos claramente a ver que ele errou; ou o próprio que errou reconhece que não era aquilo. Nós conseguimos sair subtilmente, porque há várias formas de sair: "Olhe, o senhor acompanhe-me lá fora por favor" ou "O senhor agora mantenha-se calado." Damos-te ferramentas para saíres dali. Abrimos-te outras portas. "Não vás por aí, anda, anda, anda... por aqui." Abrir uma porta é: "Desculpe lá, o senhor não é polícia também na estação de comboio? É que a minha mulher esteve lá ontem. Uma que perdeu a carteira." Eu assim estou a dizer-lhe que um polícia nesta situação não serve. Vamos tentar sair e dar um interesse maior à história. Depois a ideia é tentar perceber como é que ir à estação de comboios buscar a carteira tem que ver com a história que estava a acontecer. Aí damos uma volta. E há uma altura durante a história em que vemos uma porta mágica, e isso é espetacular. Quando tu vês aquela porta cheia de luz. O público já está meio a ver e percebes que está tudo a encaminhar-se para ali. Partimos a meta todos juntos, é bonito.

Achas que dentro de espetáculos de comédia o improviso é visto como uma arte menor?

É. E não é uma queixinha, felizmente não tenho muito por onde me queixar. Os nossos espetáculos correm realmente muito bem, as nossas datas estão esgotadas, e isso agradeço. Mas a comédia já em si é um parente pobre das artes. Não se consegue perceber bem como, mas raramente um comediante tem um Óscar. É quase como: "Não tens jeito? Comédia, talvez te safes." E depois dentro da comédia o improviso é tipo... coitadinhos. Dizem uma coisa qualquer e lá se safam, lá fazem a vidinha deles. É visto um bocadinho assim, não sei se está diferente ou se não é verdade e esta é a nossa perceção. Mas a nós sempre nos pareceu isso, só que continua a ser uma arte que nós gostamos de fazer.

Um dos pontos que se costuma referir quando se analisa um espetáculo é a sua intemporalidade. Se a obra for intemporal, quer dizer que teve um impacto maior ou que é uma melhor obra. Achas que é mais difícil tornar um espetáculo de comédia de improviso intemporal, do que outro tipo de espetáculos como a peça "Esperança" que fizeste?

Percebo a pergunta. Nunca será um clássico, não é? Há clássicos do teatro, não me refiro à "Esperança". Não sei se é mais difícil. Eu acho que a peça específica não é intemporal, porque a magia da improvisação também tem isso. Ela começa ali e acaba ali. Aquele dia é diferente de todos os outros. Tu não tens possibilidade de ver o espetáculo de dia doze, não há hipótese, já é dia catorze. Nos outros não. Corra bem ou corra mal, vais ver o mesmo texto, a mesma interpretação, os mesmos atores, as mesmas marcações, o mesmo cenário, a mesma luz. Aqui não, nem a mesma luz. Nada é igual. Nesse aspeto, a finitude é meio mágica. É só uma vez.

A sensação que tens ao sair do espetáculo pode perdurar.

Só tu e aquelas pessoas que ali estão é que viram aquilo. É único, não há hipótese de veres exatamente repetido. Logo aí não é intemporal. Por outro lado, é intemporal talvez na tua cabeça, viste coisas que nunca mais vais ver. Mas a nossa preocupação também não é fazer um espetáculo intemporal. Agora nós como grupo... era bonito um dia sermos intemporais.

Gustavo Carvalho faz perguntas sobre comédia. O convidado responde. Sorriem… é humor à primeira vista. Ouça aqui mais episódios: