Opinião

A realpolitik de Kissinger morreu em 2022 e isso não é mau

Gonçalo Ribeiro Telles

Gonçalo Ribeiro Telles

Consultor de comunicação

29 dezembro 2022 11:32

O pragmatismo nas relações internacionais de hoje tem outra expressão. Continua a viver de contextos diferentes dependendo da geografia, mas o tempo e espaço é cada vez mais o de um ideal que se conjuga ou prevalece sobre qualquer interesse. Habituem-se

29 dezembro 2022 11:32

Não tenho por hábito começar um artigo com a citação de outro meu. No entanto, vejo-me obrigado a isso e regresso a uma parte do que escrevi em setembro de 2020: “A breve prazo, ou morre a realpolitik nos moldes em que Henry Kissinger a decretou na década de 70 ou cai a democracia”.

Julgo que não andarei longe da verdade ao considerar que não são muito poucos os que desde o dia 24 de fevereiro queriam uma liderança americana (e outra europeia a reboque) menos defensora da causa ucraniana, mais contida na intransigência contra a invasão de Putin ou que não se mostrasse tão admiradora da estratégia de Zelensky. Da bravura do povo ucraniano. Entre pacifistas rasos, putinistas sem emenda, reacionários presos no tempo ou simpatizantes de regimes autocratas e detratores da democracia, outros tantos mantiveram-se ao fim deste tempo todo num lugar parecido e indisfarçavelmente contraditório. O tempo do realpolitik, como afirmava há poucas semanas Miguel Relvas, que perceberá tanto de geopolítica como eu de cricket, não chegou. E não veio, nem tinha de vir, porque tal já não existe assim. Aquilo que se pretende alcançar é uma negociação a partir do momento em que a paz mais justa possível esteja em cima da mesa. Com tudo o que isso justifica e até lá, não restará algo diferente do que continuar a procurar encostar Putin e a Rússia para que sejam forçados a essa posição.

Vivemos o momento em que o pragmatismo e interesse democrático Ocidental em nome da liberdade só o são de forma plena com esta defesa dos interesses ucranianos. Tudo terá de ser feito a partir desta premissa e parece que grande parte dos povos continuam a entendê-lo.

Hoje, enaltecem-se muitos paralelos entre Churchill e o Presidente ucraniano, Volodimir Zelensky. Alguns forçados, mas ao relembrar-me da extraordinária biografia de Andrew Roberts sobressai aí a capacidade de Churchill em compreender, engrandecer o momento e ler como poucos o inimigo. Foi assim com Hitler. Também Zelensky leu Putin melhor do que ninguém, engrandece o momento e, com Biden, percebe bem a dimensão histórica do que está em causa.

É crucial saber história, mas é igualmente determinante saber interpretá-la à luz do air du temps: a realpolitik de Kissinger, na sua essência, foi abalroada com a resposta e apoio ocidental à Ucrânia. Essa morte até se devia ter dado bem antes. O pragmatismo nas relações internacionais de hoje tem outra expressão. Continua a viver de contextos diferentes dependendo da geografia, mas o tempo e espaço é cada vez mais o de um ideal que se conjuga ou prevalece sobre qualquer interesse.

Habituem-se.

(Bom ano e que a paz justa esteja aí ao virar da esquina.)