Opinião

A ‘bolha mediática’ e o ‘país real’

23 dezembro 2022 1:00

19% dos inquiridos até acham que o Presidente deveria falar mais vezes

23 dezembro 2022 1:00

Nos últimos tempos, quem lesse um artigo de opinião sobre Marcelo Rebelo de Sousa ou assistisse a um programa de comentário da atualidade política em que o Presidente da República fosse mencionado tinha uma elevada probabilidade de se deparar com uma das seguintes críticas, ou ambas: Marcelo fala em demasia, emitindo declarações sobre inúmeros acontecimentos independentemente da sua importância, o que tem levado à erosão da importância da voz e da intervenção do Presidente na esfera pública; Marcelo foi extremamente infeliz nas declarações que fez (em concreto, nas relativas aos abusos sexuais na Igreja e aos direitos humanos vs. Mundial de Futebol no Catar, para citar as que causaram mais polémica). No entanto, em que medida é este ponto de vista partilhado pela generalidade dos cidadãos? Os dados recolhidos pela sondagem ICS-ISCTE neste mês de dezembro permitem responder a esta pergunta, lançando luz sobre como é que os portugueses olham para o uso da palavra por parte do Presidente da República, bem como sobre o impacto das declarações de Marcelo na opinião que as pessoas têm dele.

Os resultados apontam para dois padrões muito interessantes. Por um lado, 53% dos inquiridos consideram que a frequência com que Marcelo Rebelo de Sousa emite declarações em público é adequada, e 19% até acham que o Presidente deveria falar mais vezes. Apenas um em cada quatro inquiridos acha excessiva a quantidade de vezes que o Presidente intervém na esfera pública. Por outro, mesmo depois das polémicas atrás referidas, praticamente dois terços dos inquiridos não mudaram de opinião a respeito do Presidente devido às suas declarações. Mais uma vez, apenas 25% disseram que a sua opinião sobre Marcelo mudou para pior em resultado de algo que o Presidente terá dito em público. Em suma, não parece haver nem um cansaço generalizado decorrente da frequente intervenção do Presidente da República na esfera pública, nem impactos particularmente negativos das suas declarações nas opiniões a seu respeito. Marcelo, continua, aliás, a ser uma figura política particularmente bem avaliada pelos cidadãos, à esquerda e à direita, ultrapassando sem dificuldades todos os líderes de partidos políticos com representação parlamentar.

Isto não significa que os comentadores que criticam Marcelo Rebelo de Sousa devido à sua propensão para fazer declarações em público com inegável frequência e ao conteúdo de algumas delas não têm razão. Significa, contudo, que as suas opiniões são partilhadas por uma minoria. Pelos vistos, o “país real” e a “bolha mediática” querem coisas diferentes do seu Presidente da República.