Opinião

Autoanálise perante um convite para o Governo

24 novembro 2022 9:08

Se um dia foste arguido, se és arguido, esquece aquela teoria de que o és para te poderes defender. Arguido político está já condenado. Acredita que não é bastante teres o Registo Criminal limpo

24 novembro 2022 9:08

Os tempos que correm não estão de feição para quem, por vontade ou por obrigação, aceite um convite para integrar um qualquer Governo, um executivo municipal ou um elevado cargo da administração do Estado.

Em 1993, quando colocámos, pela primeira vez, a nossa cara num cartaz de campanha para presidente de um município, o boato era analógico, importava saber lidar com ele de forma elaborada e digna; em 2005, quando aceitámos integrar o XVII Governo Constitucional, a realidade tinha mudado muito, a tecnologia havia libertado os indivíduos e atribuído carta de alforria à inimputabilidade. A informação em direto já não concedia a ponderação que o jornalismo clássico sempre tinha assumido, a internet criava profusamente notícias falsas.

O tempo de hoje é de total ilibação. A guerra de audiências, a “superioridade moral” de certos universos de influência, a simplificação da mensagem associada às crises económicas, políticas e sanitárias sucessivas, vêm criando um caldo que não é de fácil gestão e que terá tendência a medrar.

É neste cenário que olhamos para a capacidade de recrutamento dos Governos, para a escolha que pode ser feita. Vamos concluindo que o espaço de aceitação da função executiva se está encaminhar para edículas reduzidas. É uma pena! O mundo sempre foi construído pelos que, errando aqui ou ali, arriscavam, avançavam sem que as diferentes turbas tivessem condições vinculativas no implicar desse avançar. Chegamos a um ponto em que os corajosos parecem estar a rarear.

Foi perante a incrível acusação a Luísa Salgueiro, baseada no facto de alguém ter entendido que um chefe de gabinete se situa ao nível de uma chefia intermédia sujeita a concurso público, que deitámos mãos à obra e construímos esta matriz fabular que entregamos a todos os que vierem a ter de ponderar a aceitação de convites para a alta administração do Estado. Não serve para os salafrários, para os camboladores, esses nunca fazem qualquer autoanálise, esperam passar, em todas as ocasiões, pelos pingos da chuva.

A) O teu universo próximo

1. Se o teu pai, irmão ou filho têm atividade empresarial, pode até ser um quiosque que venda jornais e forneça o Estado, é muito provável que digam que estás a favorecer a família. Pondera o convite.

2. Se ainda por cima tiveres uma participação, mesmo residual, na casa das enxadas que vende material agrícola para a escola profissional da região, vão fazer rios de tinta, como se de favorecimento pessoal se tratasse. Pondera de forma mais profunda, não vá ter havido um negócio superior a 80 mil euros e ter sido por ajuste direto.

3. Se tiveres um familiar que tenha o azar de trabalhar, mesmo que seja há décadas, num serviço que venha a depender hierarquicamente de ti, o melhor é essa pessoa reformar-se, porque, apesar de ser um prémio Nobel, qualquer nomeação para cargo dirigente será sempre um favor. E se não quiseres prejudicar ninguém, rejeita cordialmente o convite que estás a receber.

4. Se o teu pai ou o teu sogro quiserem fazer partilhas ou doações, não aceites. Haverá logo quem ache que se tratou de um esquema para fazer circular dinheiro. Se isso já aconteceu, rejeita, com mais certeza, o convite. Alguém irá a revirar a tua vida.

5. Se um teu familiar tiver uma conta offshore é melhor refutares liminarmente qualquer convite porque, se um dia houver uma bernarda, todos te vão apontar o dedo. Para os ingredientes da comoção pública uma parte da guita será sempre tua. Como podes rejeitar o convite sem saberes da tal conta? Não é preciso, vão sempre afirmar que tu sabias!

6. Se o padrinho dos teus filhos lhes quiser dar uma libra em ouro no dia da Comunhão, não aceites. Um dia vão dizer que tu andaste a trocar euros por quilates. E se isso já aconteceu, sai devagarinho e agradece a atenção.

7. Se o teu avô tiver um carro antigo e achares interessante recuperá-lo; se lhe juntares uma Renault 4L ou um Land Rover com 420 mil km, ficas desde já a saber que carros antigos são dinheiro sujo. Pondera se os deves ter quando aceitares qualquer convite.

8. Se fores jantar um bom cabrito à Repentina e tiveres de pagar em notas, por não haver ATM, leva só as de 5 euros, mesmo que sejam muitas. Se pagares com notas de 50 vão logo dizer que é dinheiro sujo. Se já aconteceu, o melhor é teres juízo e sair, sem tartamudear, de qualquer abordagem.

9. Se decidires comprar um apartamento nunca o faças em projeto. Porque, no final, vão dizer que tiveste um preço excelente e alguém te beneficiou. Pondera antes de colocarem a tua foto na primeira página de um jornal, uma barraquinha na Malveira também serve como habitação digna. E atrás de um apartamento virão todos os bens, os teus e de todos os teus próximos. Pondera muito bem!

10. Se herdares um jazigo num cemitério, entrega-o à câmara ou à junta. Político ou é enterrado em vala comum ou é cremado. Este esgravatar nas coisas tétricas da vida e da morte não é incomum quando se trata de atacar governantes. Mede tudo!

B) Tu mesmo

1. Se tiveste uma namorada ou um namorado que era um paranoico, prepara-te porque a loucura pode levar às acusações mais incríveis. Os loucos têm sempre muita audiência. Numa situação destas manda o lugar político às ortigas.

2. Se fizeste o teu curso com alguma passagem administrativa ou equivalência, nem tentes a política. Vão acusar-te de habilitações falsas, mesmo que as equivalências sejam permitidas por Bolonha. Se aceitares o convite, o aconselhável é tornares tudo claro logo no primeiro dia.

3. Se foste dirigente da uma juventude partidária, o melhor será nem sequer pensares um minuto na aceitação de qualquer convite. Nos dias de hoje, tal passado é o pior dos cadastros.

4. Se foste visto a consumir drogas ou se foste, aos 15 anos, levado à esquadra, por teres partido o vidro da casa do vizinho, tem tudo bem presente. Haverá sempre alguém disposto a falar para um microfone o que pensa saber, somando-lhe inveja e velhacaria.

5. Se foste mais de dois mandatos dirigente partidário, pondera se consegues suportar o facto de seres considerado um “gajo do aparelho”, um tipo que não sabe fazer nada na vida, alguém que tem como atributo viver à custa dos outros. Houve um tempo em que ser dirigente partidário era uma honra, hoje é um veneno.

6. Se a tua vida profissional foi colocada de lado para aceitares um cargo público intermédio, antes, por exemplo, de seres secretário de Estado, analisa todo o caminho que fizeste. Na vida pública de hoje quase todos são tratados como criminosos. E fica a saber que os teus conhecimentos de saneamento básico só te permitem, quando saíres, desentupir fossas sépticas. Ser dirigente de uma empresa ou administrador já será levado na conta das portas giratórias que os da transparência acham crime. A honestidade deixou de ser uma característica que vamos fortalecendo desde criança, para passar a ser atribuída por uma qualquer cátedra do poder mediático. Nem ouças os convites, fica na tua vida sólida e recatada.

7. Se queres salvaguardar os teus pais ou os teus filhos de serem insultados da rua, não aceites nenhuma invitação para o que quer que seja. Cada notícia é uma acusação e, no tempo que vivemos, nenhuma boa notícia elimina qualquer apontar de dedo. E se usaste o Messenger ou o WhatsApp para coisas não convencionais, ficas a saber que tudo se vai saber. Este mundo já não tem reserva de intimidade.

8. Se queres ter uma vida aconchegada em que a tua saúde física e mental sejam preservadas, não permitas sequer que o teu nome seja balbuciado, rejeita todos os convites. E se se der o caso de teres um nome esquisito como o meu, muda para um mais comum que consiga driblar os algoritmos.

9. Se queres que os teus filhos possam ter uma carreira, mesmo sendo ótimos alunos e ótimos profissionais, nunca ponhas a turba a dizer que só o conseguiram por serem descendentes de quem são. A palavra nepotismo é usada por gente que não conseguiu sair do habitualismo e se revela na invidia.

10. Se queres morrer civicamente sem saber como, basta teres opiniões. Se as tens e são fortes, não cedas à tentação da política enquanto espaço de governação.

C) O teu percurso público

1. Se tens consciência de que cumpriste sempre a lei, não te iludas. A lei pode ser cumprida, mas a moral em torno dela está sempre a ser posta em causa. Uma decisão implica perduravelmente um benefício e um prejuízo, o prejudicado acha sempre que houve marosca, compadrio. O melhor é antecipares que toda a tua vida profissional vai ser posta em causa e se não estiveres para isso rejeita a governação da coisa pública com elegância.

2. Se assumiste um cargo e não foste ver (porque só os orates o fariam) se todas as decisões de rotina estão sustentadas legalmente na origem, mesmo que tenham passado décadas, então prepara-te para um dia seres responsabilizado pessoalmente. Fizeste tudo certo, geriste bem os recursos públicos, mas estiveste no local errado na hora errada. Antes de entrares pondera se valerá a pena.

3. Se utilizaste legalmente os regimes da contratação pública, mas que dessas decisões ficou gente insatisfeita, o melhor é negares liminarmente convites para o Governo. O Código permite regras especiais, regimes de exceção, procedimentos expeditos, mas, para muitos, tudo isto é o que mais próximo está do favoritismo. Como tu nunca te deste a esses tipos de relações, fica no teu canto.

4. Se já contrataste alguém que, pelas suas características pessoais, cumpre uma função, mas seja um quadro do partido ou um dirigente da juventude partidária, o melhor é tirares o cavalinho da chuva. Vais ser martirizado. Tudo porque nada de bom vem dos partidos. Das duas uma – ou arranjas uns tipos liofilizados que não servem para nada, ou arriscas e passas a ser um bisbórria. Pondera!

5. Se tens o hábito de delegar competências, o melhor é ires plantar pepinos. Um membro do governo é, nos tempos que correm, o principal responsável por tudo, mesmo que seja um ajuste direto para a compra de papel higiénico ao quiosque do marido da tua empregada doméstica. Podes arriscar aceitar as funções, mas não podes usar o WC do ministério.

6. Se já fizeste uma viagem oficial próxima de uma viagem pessoal e marcaste, pagando a viagem e hotel pela mesma agência, fica a saber - um dia dirão que houve concussão. Tudo se vai saber e, melhor, será difundido pelo colaborador que mais te deve. Faz viagens pessoais a Fátima e a Santiago de Compostela, libertas a cabeça e ficas abençoado. Se não és crente, rejeita os convites.

7. Se um teu amigo, fornecedor da administração pública, te convidar para padrinho do filho, não aceites; se um empreiteiro te convidar para o casamento da filha, não aceites; se um grupo empresarial te convidar para uma feira internacional, não aceites; se no Natal te derem um qualquer presente, mesmo de pouco valor, não aceites. Não aceites nada, nem sequer caminhar na rua ao lado de pessoas normais. Se já aceitaste, estás impedido de ser governante.

8. Se quiserem falar contigo ao telefone, não atendas; se quiserem falar contigo num almoço, não acolhas; se quiserem falar contigo numa audiência, esquece-te de agendar; se quiserem que decidas, não o faças. Se fizeres isso tudo vais ter problemas.

9. Se um dia foste arguido, se és arguido, esquece aquela teoria de que o és para te poderes defender. Arguido político está já condenado. Acredita que não é bastante teres o Registo Criminal limpo.

10. Se ainda não sabes, o que é de estranhar porque se te convidam é porque já tens uma vida, que na política se passa de bestial a besta em menos de um segundo, se passa de gregário para solitário em menos de um clique, então vai cavar batatas. Despois dessa experiência agrária, talvez já tenhas alguma alma para enfrentares tempestades.

Esta fábula, em trinta itens, parece bem real. Todos os dias ficamos mais convencidos disso. As democracias liberais parecem caminhar para uma fragilidade irremediável. Vencer, derrotar, todas as limitações que se indicaram é um dever. Ainda reconhecemos alguns dos heróis que querem e aceitam representar-nos. E esses governantes, autarcas e dirigentes públicos merecem mais do que a nossa admiração, merecem um enorme reconhecimento coletivo.