Opinião

Isto é uma vergonh… golo! A crónica de Ricardo Araújo Pereira sobre o Mundial

18 novembro 2022 1:10

O Mundial do Catar tem ainda a vantagem de demonstrar uma teoria que formulei há muito: se desumanidades forem cometidas com uma bola de futebol por perto, ninguém leva a mal

18 novembro 2022 1:10

Quando, em 1986, os mexicanos adoptaram, como lema do Mundial de Futebol, a frase “el mundo unido por un balón”, eu tinha 12 anos e ingenuamente pensei que o fundamental a reter na frase era que o mundo estava unido. Hoje, nas vésperas do Mundial do Catar, verifico que o que interessava na divisa era o balón. Em redor do balón, não há dúvida de que o mundo se une. Em redor de outras coisas já é mais difícil. Ao que parece, sobre o Mundial do Catar recaem suspeitas de corrupção e alegações de trabalho escravo. Sobre o próprio Catar não recaem quaisquer suspeitas: temos a certeza de que o regime que lá vigora é iníquo. Por isso, estamos todos a aproveitar esta altura em que ainda não há jogos para exibir a nossa superioridade moral. Ora, com licença: que vergonha, esta escolha. Os responsáveis da FIFA são uns bandidos. Os dirigentes do Catar são bandidos ainda piores. Já começou o Senegal-Equador? É que eu vou querer ver, evidentemente. Mas, enquanto não começa, estou muito indignado. A ponto de colocar uma legenda bem azeda sob uma fotografia do símbolo da FIFA de pernas para o ar nas minhas redes sociais, se as tivesse. Mas chamem-me quando estiver a começar o Suíça-Camarões. Quero matar saudades do Seferovic. Assim que o árbitro soprar no apito e der início ao primeiro jogo, já sei que os meus firmes princípios vão ficar um pouco menos firmes. Não é bem verdade que o Mundial seja uma vergonha completa. Quem não for pobre, nem do sexo feminino, nem gay, muito provavelmente vai poder estar na bancada a desfrutar de excelentes jogos. Também é preciso ver isto pelo lado positivo. Já viram a mascote? É muito querida. Chama-se Laʼeeb, que significa “grande craque”. E, como está vestido com um dishdasha branco também parece um fantasminha, acabando por constituir uma doce homenagem aos milhares de trabalhadores mortos durante a construção dos estádios.

Este é um artigo do semanário Expresso. Clique AQUI para continuar a ler.