Opinião

Dar gás à inflação é bom clima para o negócio

11 novembro 2022 13:09

Investir no gás fóssil como se não houvesse (literalmente) amanhã é deixar ainda mais aflito quem já não conseguia pagar as contas

11 novembro 2022 13:09

Os preços sobem, os lucros disparam e a mesma maioria fica sempre para trás a pagar as crises que não criou.

A inflação está nos 10% e os lucros da Galp subiram 86% só este ano. Foram 608 milhões até ao fecho do terceiro trimestre e já são 3,8 mil milhões de euros como resultado esperado para o ano — o seu excelso CEO não considera estes lucros excessivos e acha que fazem pouco dinheiro em Portugal.

Dados do Governo estimavam em 2020 que 1,9 a 3 milhões de pessoas em Portugal viviam em situação de pobreza energética – éramos o “quinto país da União Europeia onde as pessoas têm menos condições económicas para manter as casas devidamente aquecidas”.

Se os resultados esperados da Galp fossem distribuídos por todos os portugueses tínhamos o triplo de €125 na conta (e quantas contas teria dado para pagar?). Distribuídos de forma justa, teriam tirado milhões da pobreza energética, mas serão distribuídos para interesses acionistas, para que nenhum deles fique para trás.

Apesar do trabalho árduo, a maioria continua a patinar na subida para uma vida melhor porque empresas fósseis como a Galp ganham de cada vez que todos perdemos. Lucram à custa da precariedade da maioria dos trabalhadores (que abandonam ao primeiro sinal de “transição energética” para outra área de negócio mais lucrativa); à custa da con(vi)ivência no Governo (já são quantas portas rotativas?); e à custa do combustível contínuo à crise climática. O próprio secretário-geral das Nações Unidas diz que “seria estúpido continuar a apostar em combustíveis fósseis".

Será excessivo dizer que já chega? A Galp é um bom exemplo, porque condensa numa só organização a estratégia de todo o Governo e da Comissão Europeia.

O Pacto Verde Europeu já tinha pintado de verde esperança o gás fóssil e o nuclear. Mas a guerra na Ucrânia foi uma tempestade ainda mais perfeita: como os fósseis russos são antidemocráticos, temos de investir a todo o gás em fósseis muito mais democráticos, como os extraídos de terras expropriadas a indígenas nos Estados Unidos ou o Qatar dos mártires migrantes no altar do futebol.

O que foi mandado para debaixo do tapete mediático é que estes investimentos pouco ou nada resolvem hoje (afinal é preciso construir novos portos, novos pipelines, novas “interconexões energéticas”) e garantem que tudo se agrava amanhã.

Chegamos ao final do ano e esta pequena elite que lidera a Galp, o país e a Comissão Europeia vai para resorts virar COPs enquanto opta por ignorar o rasto de sangue dos presos políticos da ditadura egípcia. Mas não é inevitável que assim seja.

Podíamos ter energia pública renovável, gerida democraticamente pelos trabalhadores e detida democraticamente pelos cidadãos. Teríamos controlo sobre preços, o uso da energia de todos, e o poder desta elite (des)governada. Teríamos uma transição realmente justa, estabilidade em vez de crise, segurança em vez de pobreza e casas bem aquecidas neste Natal.

Isto não acontecerá se não lutarmos. Temos de travar os fósseis — deixá-los no chão e arrancá-los do Governo, como os estudantes que ocupam escolas por Portugal e em todo o mundo. Temos de puxar o travão de mão e pôr toda a energia em criar o início da era pós-fossil. Sempre que a realidade nos lembrar que continuamos longe, temos de nos lembrar que nunca estivemos tão perto de ganhar.