Opinião

Choro pela minha região

Vítor Andrade

Vítor Andrade

Coordenador de Economia

16 agosto 2022 18:10

Faça-se despesa pública para defender o interior do país, tal como se faz para salvar a TAP, o BES, a CP ou a Carris entre outros pesos mortos da nossa gestão pública. Não pode haver despesa de primeira e despesa de segunda. Se é para contrair despesa, que sirva os portugueses por igual, independentemente do local onde residem

16 agosto 2022 18:10

O que menos me incomoda é o vai-e-vem dos aviões Canadair a voarem baixinho e de forma ruidosa de manhã à noite sobre os telhados da aldeia há dias, e dias, e dias a fio. Há mais de duas semana que respiro fumo e terra queimada, mas choro pela minha região e não é o fumo que me fará sair daqui.

Tenho na mão cascas de pinho que voaram com o fumo e com o vento deste o Vale da Amoreira/Valhelhas (diria que são mais de 20 quilómetros em linha reta) até ao meu quintal.

A cinco metros do meu quintal tive chamas do tamanho de um prédio de seis andares há pouco mais de uma semana. Há quinze dias que a minha região é devorada pelas chamas.

Não há sol, apenas fumo, negro, negrume. E tristeza. Muita tristeza.

O meu quintal está coberto de cinza há vários dias, mas isso é uma nota de rodapé. Eu é que não arredo pé daqui enquanto esta injustiça continuar a devorar as minhas raízes, as minhas memórias, no fundo, a carcomer uma parte de mim, porque sou daqui e choro a minha região que arde há dias a fio. Isto não é justo, não é admissível, não é natural.

Que se lixem as conjeturas sobre o fogo posto, os reacendimentos ou a quantidade de meios aéreos. Apenas quero que a minha região seja uma parte – de pleno direito - do meu país. Que tenhamos, aqui, direito ao pouco que a interioridade ainda nos vai reservando: o património natural e a beleza paisagística bruta do granito e das serranias que nos envolvem.

Diz que há mais de 1200 bombeiros no ‘teatro de operações’, praticamente um exército. Caros políticos do meu país, chega de teatro sobre o pobrezinho do interior, onde alguns citadinos de Lisboa e Porto vão às vezes para ver como era ‘o antigamente’.

Pensem no país como um todo, como uma unidade territorial, que vive das diferenças, da diversidade e da biodiversidade. Pensem no serviço ambiental que as florestas e as serranias do interior presta aos citadinos cada vez mais ‘afogados’ em CO2.

Faça-se despesa pública para defender o interior do país, tal como se faz para salvar a TAP, o BES, a CP ou a Carris entre outros pesos mortos da nossa gestão pública.

Não pode haver despesa de primeira e despesa de segunda. Se é para contrair despesa, que sirva os portugueses por igual, independentemente do local onde residem.

Olho para o céu da aldeia e encho, mais uma vez, os pulmões de fumo, de cheiro intenso a queimado e… já só me apetece chorar pela minha região.