Opinião

Então e os media?

28 maio 2020 11:49

28 maio 2020 11:49

Em tempos de crise, os media foram e serão sempre o principal elemento estruturador do dia informativo, com uma consistência e segurança impossível de igualar por diversos conteúdos digitais. Não só por uma questão de linearidade mas também porque é interpretada por jornalistas capazes de gerir sentimentos e reconhecer a importância da informação como base para a boa decisão do cidadão.

Tal como durante a revolução do 25 de Abril, as guerras que assolaram a europa no seculo XX ou os vários momentos que testaram a coragem dos portugueses, a pandemia do coronavírus demonstrou como a imprensa é importante e como todos nós, cidadãos, precisamos dela.

Num tempo de escapismo, após semanas de confinamento e de dias saturados por manchetes e avisos explosivos feitos nas redes sociais pautados pela incerteza, ansiedade e preocupação, foi na comunicação social que encontrámos – desde o início desta crise – a bússola que nos orienta num mundo e num país ainda à procura do norte.

Antes da chegada do Covid, a crise nos meios de comunicação social já era uma realidade. Claro está que até aqui chegados, esta parecia ser apenas uma crise sectorial, a que os cidadãos estariam aparentemente alheios, exceto os que deles dependem para viver.

Muitos temos afirmado que estamos em guerra. E estamos. E apesar de nações inteiras estarem, com o avançar dos dias, a definir estratégias que nos ajudam a fintar o inimigo, a bússola continua descalibrada.

Até caminharmos pela estrada certa, é preciso ultrapassar uma crise sanitária económica e social. E por isso existe uma linha da frente.

Vejo desde o início desta crise a resiliência, dedicação e merecido reconhecimento dos profissionais de saúde, forças de segurança, fornecedores de bens essenciais e de todos os que nos permitiram assegurar que, no conforto de nossas casas, vivêssemos o melhor possível um estado de emergência e calamidade gerados pela pandemia.

Mas então e os media?...

Como poderíamos nós cidadãos, viver e colaborar no fecho total de um país, sem acesso a informação? Como poderia o governo, DGS e todos os atores darem-nos orientações se, do mesmo conforto das nossas casas, vivêssemos isolados mas também alienados da forma como um vírus tomou conta do nosso país e do mundo?...

Sim, os media também estiveram (e estão) na linha da frente. E tal como médicos, enfermeiros ou forças de segurança, os media são “tropas” essenciais da nossa infantaria.

Foi bom poder ter, ver, ouvir, na segurança das nossas casas, informação que nos permitiu gerir as nossas ansiedades, os nossos medos, as nossas dúvidas, as nossas vidas. Mas talvez seja bom recordar que os media não são uma instituição. Com exceção da RTP e Lusa, são empresas privadas, onde trabalham pessoas como nós, que além de se exporem ao vírus para fazer o seu trabalho, também têm ansiedades, medos, dúvidas e também têm vidas. Ora, como a maioria das empresas privadas, os media também deixaram ( fruto da enorme quebra de publicidade) de ter rendimentos. Logo, também entraram em lay off e, em consequência, os media viram as suas “tropas” da linha da frente desfalcadas para metade.

Nem por isso deixámos de ter acesso a um espaço noticioso, de conhecer o número de infetados, mortos ou recuperados ou a informação de quando poderiamos ou não sair de casa.

Os media são percecionados na sociedade atual como um direito adquirido. Nascemos, crescemos e morremos tendo a comunicação social como parte integrante das nossas vidas. Estão à distancia que quisermos. Toda, ou nenhuma. Em complemento aos meios tradicionais, a inovação tecnológica trouxe-nos para a ponta dos dedos o que os olhos querem ver, ler ou o que nos interessa ouvir. E se a nós, cidadãos, os media nos alimentam os sentidos (e o sentido), às empresas, instituições, decisores públicos, alimentam-lhes a sua existência.

Deixámos de ouvir rádio, esquecendo que se isto fosse uma “guerra de verdade”, este seria o único meio que nos manteria ligados ao mundo. Deixámos de comprar jornais e revistas, que por sua vez deixaram de vender.

Os media estão a morrer.

E a nossa vida ficará seguramente mais difícil sem eles.

Porque para manter viva uma economia, para viver numa sociedade informada e para nos definirmos como seres humanos com ideologias e estrutura cultural, precisamos de ter acesso a conteúdos sérios, de fontes verosímeis e que promovam o debate e a liberdade de pensamento democrático. E se é certo que a imprensa padece de uma crise de modelo de negócio, também é certo que deveriam ser tratados com mais dignidade quer pelos cidadãos, quer por todos os atores sociais e económicos que deles dependem para se fazerem ouvir.

Os media não são um direito adquirido. E se os apoios diretos do Estado não são (e não devem ser) a solução para a crise do sector, então que se implementem incentivos ao investimento publicitário privado nos media nacionais, alternativas fiscais que permitam o acesso aos conteúdos pagos e por estes produzidos, nomeadamente em assinaturas e projetos de literacia dirigidas aos mais jovens, mas também aos mais velhos, que não devem ficar excluídos do acesso aos meios digitais. E talvez o Estado pudesse começar aqui a dar o melhor exemplo, investindo como qualquer empresa ou cidadão no pagamento de subscrições dos media portugueses para os profissionais do sector publico, ao invés de investir em publicidade institucional.

Para além dos inúmeros exemplos da intervenção social que os órgãos de comunicação social têm na sociedade portuguesa, do seu papel vanguardista na política, economia e cultura, é na imprensa que nos encontramos verdadeiramente com o dia. Não nas redes sociais. Estas têm outro intuito e outra missão, que não a da informação rigorosa e factual.

E eu não quero ficar reduzida à estática. Preciso da sabedoria e ponderação. Preciso da atualidade, da opinião, do debate, da intervenção necessária para tomar decisões. E preciso daqueles que nos fazem chegar o valor da liberdade e da esperança que me garante que amanhã é um novo dia.