Legislativas 2019

PS. Costa quer renovar a ‘geringonça’. “Se for possível, excelente; se não, havemos de encontrar caminho”

7 outubro 2019 2:20

Filipe Santos Costa

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Jornalista da secção Política

Tiago Miranda

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Fotojornalista

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Líder socialista anuncia conversações com PCP e BE para repetir acordos à esquerda, e inclui PAN e Livre nos contactos. Prefere nova 'geringonça', mas também admite acordos pontuais que garantam quatro anos de legislatura

7 outubro 2019 2:20

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Tiago Miranda

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Foi o resultado que o PS esperava, cumprindo quase todos os items do melhor cenário possível. A maioria absoluta - que chegou a ser admitida no intervalo da projeção Expresso/SIC - nunca foi tida como uma hipótese real, e cedo os socialistas ajustaram as suas expectativas: as contas davam entre 106 e 111 deputados (excluindo os da emigração, que só serão apurados para a semana). Esse resultado encaixava naquilo que António Costa esperava: o PS tem mais deputados do que a direita toda junta, o que significa que apenas precisa de abstenções à esquerda para fazer passar leis, e nos caso em que precise de garantir maiorias absolutas, não fica dependente de um único parceiro potencial; pode antes virar-se para dois: BE e PCP. Mais: o BE não reforçou o seu peso relativo. Para ser (quase) perfeito para o PS, era o PCP não cair tanto e o PAN poder também fazer maiorias.

Mas na hora de cantar vitória, Costa, sem maioria absoluta, fez questão de fazer exatamente o que havia dito que faria: desafiou PCP e BE para que repitam a solução de maioria dos últimos quatro anos. E anunciou que o PS falará com mais dois partidos com vista a entendimentos à esquerda - o PAN e o Livre. É essa, diz Costa, a mensagem que os eleitores quiseram deixar neste domingo: reforçar o peso do PS, mas mantendo a força dos seus parceiros, o que sinaliza, na leitura de Costa, a necessidade de repetir a' geringonça'.

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A vitória socialista, como o líder do partido a apresentou, vale em toda a linha. “O PS ganhou as eleições e reforçou claramente a sua posição política em Portugal” - “aumentou e ganhou em votos, aumentou e ganhou em mandatos, é o único partido político que elege deputados em todos os círculos eleitorais do território nacional (e espero que também nos dois círculos eleitorais que faltam apurar [da emigração]), e ganhou em 15 dos 20 círculos”. Conclusão de Costa: “Somos não só um grande partido popular, como somos um grande partido nacional”.

À volta do PS, António Costa identificou duas tendências: o afundamento da direita, e a persistência da esquerda. “O PSD e o CDS, mesmo com o reforço da Iniciativa Liberal e do Chega!, tiveram a maior derrota histórica da direita em Portugal”, declarou.

Já “os partidos que apoiaram a atual solução política, PCP e BE, consolidaram no essencial a sua posição eleitoral”, e o PAN “registou um reforço politicamente relevante”.

É importante reter este pormenor: Costa equiparou sempre o PCP e o BE, usando sempre para ambos a mesma fórmula vaga e cautelosa: “consolidaram no essencial a sua posição”. Porém, se isto é verdade para o BE, que desceu ligeiramente em percentagem e manteve o número de deputados, é uma manifesta simpatia em relação à CDU, que perdeu cinco lugares no Parlamento. O esforço de Costa para almofadar a queda dos comunistas foi notório, na sua tentativa de evitar que PCP e PEV fechem as portas a novos entendimentos com o PS.

“Os portugueses desejam um novo Governo do PS reforçado para governar com estabilidade no horizonte da próxima legislatura”, “os portugueses gostaram da 'geringonça' - é verdade mesmo! - e desejam a continuidade da atual solução política, agora com um PS mais forte”. É esse o plano A de Costa: “Vamos procurar junto dos nossos parceiros parlamentares renovar a solução política que os portugueses disseram querer que tenha continuidade”. E vão alargar os contactos ao PAN, com quem chegou a haver conversações sem resultado em 2015, e ao Livre, cuja entrada no Parlamento foi aplaudida durante a festa socialista.

E se não houver 'geringonça'? “Assumirão as suas responsabilidades”

Com o governo em peso nas primeiras filas a aplaudir a vitória (e a respectiva recondução, pois Costa manterá o essencial da equipa), a questão em que os jornalistas mais insistiram na parte de perguntas e respostas foi sobre os contornos desse eventual novo acordo à esquerda e as alternativas para se isso não acontecer. Costa não se desviou do plano. “Vamos ver se é possível. O PCP já disse que o quadro é diferente, vamos ver se é assim ou se pode evoluir na sua posição. BE disse que podia ser assim e também que podia ser de forma diferente...”
Pragmático como sempre, Costa assumiu que tem duas alternativas pela frente:: “Se for possível dessa forma, excelente, se não for possível dessa forma havemos de encontrar caminho para assegurar a estabilidade”.

Mas fica já o aviso: “Se os outros não nos acompanharem assumirão as suas responsabilidades.” Ou seja, o PS não tenciona mesmo deixar cair a herança da 'geringonça'.

A alternativa que existe sempre, caso falhem acordos de legislatura, é a de negociação caso a caso, orçamento a orçamento. Cada partido terá os seus cadernos de encargos, mas Costa deixou claro que fará pesar o grupo parlamentar reforçado com que conta agora em São Bento. “O caderno de encargos de cada partido é conhecido, é o respetivo programa eleitoral - cada um teve o apoio que teve.” Mas, acrescentou, “não são só os outros que têm caderno de encargos, nós também temos, é o que apresentámos aos portugueses e que os portugueses sufragaram.”

Uma vitória é uma vitória, e Costa parece ter bem definido o papel que cabe a cada parte da 'geringonça'. “Não tendo nós maioria sozinhos, temos a responsabilidade de procurar maiorias que garantam estabilidade por quatro anos”. Mas essa responsabilidade, frisou, “é uma responsabilidade partilhada. A nossa responsabilidade é tomar a iniciativa, a dos outros é não fechar a porta”. E “quem pôs como objetivo de campanha impedir a maioria absoluta tem responsabilidade acrescida”, lembrou Costa, chamando à responsabilidade comunistas e bloquistas.

António Costa, que foi comparado durante a campanha com António Guterres - por não ter dramatizado a maioria absoluta - ficou, como Guterres, a pouca distância desse objetivo. Se o PS conseguir, como presume, três deputados pela emigração, terá uma bancada com 109 lugares, a sete da maioria absoluta. O discurso de Costa na noite eleitoral - todo focado na estabilidade para quatro anos - parecia ter como um dos objetivos espantar o fantasma de Guterres. O do tal governo que caiu a meio da legislatura por já não conseguir encontrar soluções de maioria. Essa é a parte da história em que Costa quer fazer diferente do outro António.