Legislativas 2019

CDU. Jerónimo está para ficar, assumindo derrota (mas sem acordo no "papel" com o PS)

7 outubro 2019 1:40

Ana Baião

Ana Baião

Fotojornalista

Líder comunista encerrou a noite eleitoral com várias notícias no bolso. "Não haverá papel" com o PS e, por isso, a 'geringonça' está oficialmente terminada, Mas Marcelo pode nomear o Governo de António Costa, porque o PCP "cá estará, como sempre esteve". Para que não faltasse matéria noticiosa, Jerónimo de Sousa disse ainda, pela primeira vez numa noite de eleições: "Perdemos". E acabou a assumir continuar na liderança do PCP porque conta com o apoio " dos camaradas da direção e do comité central".

7 outubro 2019 1:40

Ana Baião

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"Está fixe?", perguntou Jerónimo de Sousa para os jornalistas, de polegar apontado para o alto. O líder comunista já tinha começado a sua declaração final sobre o resultado destas legislativas, quando Jorge Cordeiro, da comissão política do PCP, lhe foi segredar qualquer coisa ao ouvido. Afinal, nenhuma das televisões presentes na sala estava a emitir em direto. Era preciso recomeçar tudo para televisão ver. Mas, o líder não se importou e quando recebeu o ok de todos os presentes, recomeçou o discurso do início como se nada fosse.

Esta foi, sem margem para dúvdas, uma noite eleitoral diferente, no Hotel Vitória. O ambiente esteve sempre triste e silencioso no bar onde, habitualmente, os militantes fazem a festa. Desta vez, não houve nada de comparável a um festejo e até já se viram velórios mais animados do que o ambiente vivido no quartel general do PCP. Nem bandeiras, nem aplausos, nem gritos de apoio. E nem sequer o habitual arroz doce, servido no bar com uma foice e martelo desenhada em canela, compareceu ao serviço. "A camarada do bar está de baixa", confirmou o Expresso.

Só quando, por volta das 9h30 e bem mais cedo do que é habitual, o líder comunista falou aos jornalistas se ouviram as primeiras - e únicas - palmas da noite. Os militantes acompanharam Jerónimo à sala de imprensa e gritaram "CDU, CDU", mas nada do "avança com toda a confiança" que costumavam propalar durante toda a campanha eleitoral, Essa parte do slogan não se mostrava adequada. "Perdemos", acabou por reconhecer Jerónimo de Sousa, depois de apontar para um "resultado negativo" e disparar contra a "campanha de calúnias" e a discriminação sofrida pelo partido por parte da comunicação social.

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À hora a que Jerónimo falou,o líder comunista ainda nem tinha sido formalmente eleito. Aliás, só mesmo João Oliveira, por Évora e João Dias, por Beja formavam a bancada parlamentar do PCP por aquela altura. O desaire eleitoral era certo e estava seguro que o partido não conseguiria manter uma bancada de 17 deputados, mas a dimensão das perdas era ainda desconhecida. "Não sei se são 12, 13 ou 14 deputados", disse Jerónimo, garantindo que mesmo que em menor número, os eleitos "estarão prontos a dar o combate necessário". E mais, a prova de vida necessária ficou assegurada. "Perdemos deputados, por isso perdemos. Assumimos isso, mas estamos muito longe daquilo que dizem que a CDU estava acabada". "Há 40 anos que ouço esta conversa do declínio irreversível do PCP", ironizou.

Leiam os meus lábios: "Não haverá papel"

A quebra eleitoral dos comunistas, a par da subida eleitoral do PS, mas sem maioria absoluta, deixa entreaberta a porta da futura solução governativa. Jerónimo de Sousa deixou claro que, desta vez, "não haverá papel". O compromisso político com os socialistas acabou esta noite. O PCP não quer quaisquer "compromissos mútuos, em termos formais e institucionais".

Quer isto dizer que não haverá entendimentos com o PS? A resposta de Jerónimo deixa margem para convergências pontuais - "tudo o que for para avançar nos direitos dos trabalhadores e do povo", diz o líder comunista. “Será em função das opções do PS, dos instrumentos orçamentais que apresentar e do que legislar que a CDU determinará o seu posicionamento vinculado com o compromisso com o povo , combatendo todos os retrocessos que o PS queria impor.”

O rol de encargos passa, desde logo pelo aumento dos salário mínimo nacional para os 850 euros, a reversão das alterações ao código laboral, a gratuitidade das creches para crianças até aos 3 anos e o reforço do investimento público no SNS e nos serviços públicos. Naquilo que os comunistas consideram como "opções essenciais da política de direita que o PS não abandona", Jerónimo promete "combate" e "luta".

Não há, portanto, garantias de apoio político ao próximo Governo, nem tão pouco o compromisso de avaliar (ou mesmo fazer o "exame conjunto") dos próximos orçamentos do Estado que Costa vier a apresentar. Por enquanto, os comunistas mantêm-se à distância e em observação atenta. Mas avalizam a formação do Governo. "Nada obsta a que o Presidente da República, ouvidos os partidos, indigite o primeiro ministro e; se forme o Governo e este entre em funções", disse o secretário-geral do PCP.

Jerónimo sofreu, esta noite, a sua primeira derrota eleitoral numas legislativas. Até agora, enquanto líder comunista, sempre pôde cantar vitória, porque arrecadou sempre mais votos e mais deputados para o seu grupo parlamentar. Mas, está longe de se sentir derrotado e ainda mais de atirar a toalha ao chão. De acordo com os resultados apurados, os comunistas perderam os deputados de Braga, de Faro e ainda conseguiram ter baixas nos distritos fortes de Lisboa, Setúbal e Porto. A grande aposta de Heloísa Apolónia em Leiria fez terminar a longa carreira parlamentar da líder dos Verdes e, claro, as aposta em Miguel Tiago e Rita Rato (por Viseu e pelo círculo da Europa) mostraram ser uma porta de saída do parlamento.

Mesmo assim, Jerónimo sente forças para continuar. A sua permanência na liderança "é uma pergunta pertinente", mas prefere responder com uma certeza: "Assim que a AR abrir, lá estarei". "Este grande coletivo partidário está unido", garante, e até assume que o "apoio e solidariedade recebidos da direção e dos militantes do meu partido" lhe dão "muita força" e "vontade suficiente para continuar"

Na próxima terça feira, o comité central comunista reune-se para avaliar a dimensão dos estragos eleitorais. O líder está confiante. O seu lugar aos comandos do partido é uma questão "que não está colocada. Há que ir para a frente, com certeza", acaba por dizer.