Legislativas 2019

CDS. Assunção fez uma saída limpa na noite de todos os pesadelos

7 outubro 2019 2:38

Nuno Botelho

Nuno Botelho

Fotojornalista

O reconhecimento da derrota chegou rápido e sem floreados: Assunção Cristas vai sair porque seria impossível ficar. O resultado do CDS é historicamente mau e significa voltar aos tempos do táxi, sem levar a bordo, por exemplo, o líder parlamentar. Começa agora a corrida à sucessão - nem todos os potenciais candidatos têm assento no magérrimo grupo parlamentar, mas João Almeida fala de uma derrota "estrondosa"

7 outubro 2019 2:38

Nuno Botelho

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Fotojornalista

O sinal de alarme foi mais do que claro. Tinha passado apenas uma hora desde que as primeiras projeções surgiram no ecrã de televisão instalado na sede do CDS. Em noite eleitoral, uma hora é mesmo muito pouco tempo: há números para confirmar, mandatos para contar, percentagens pequenas que podem determinar resultados diferentes. No entanto, eram apenas nove horas da noite quando os jornalistas foram avisados de que Assunção Cristas já estava pronta para falar à imprensa, muito tempo antes de qualquer outro líder partidário o ter feito.

O anúncio só podia querer dizer uma coisa: Cristas percebia que era insustentável manter-se na liderança do CDS depois de uma noite que ficará para a história do partido pelos piores motivos. Nem em 1987, quando Adriano Moreira conseguiu apenas 4,4% dos votos e o epíteto do “partido do táxi”, o resultado foi em percentagem tão mau. Desta vez, a noite acabou com apenas 4,2% dos votos para os centristas - e um número arrasador de cinco assentos no Parlamento.

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Em eleições muito se resume a uma gestão de expectativas, e não é que as dos centristas fossem boas - há meses que as sondagens apontavam para resultados historicamente baixos, e há meses também que a desculpa de as sondagens subestimarem o CDS deixara de valer, depois de os estudos de opinião terem chegado a sobrestimar o partido nas europeias. Mas as perspetivas que assustavam os centristas eram as de verem o grupo parlamentar reduzido a perto de metade, de dezoito para nove deputados - um cenário que já feriria de morte a liderança de Assunção Cristas.

A par desse medo, havia outros: perder o líder parlamentar, Nuno Magalhães, que concorria por Setúbal; ver a representação reduzida em Braga ou em Aveiro, por onde contavam até agora com dois deputados; não conseguir eleger sequer o número dois pelo Porto, Francisco Rodrigues dos Santos.

Nada disto estava confirmado à hora a que Assunção Cristas decidiu reagir e anunciar a demissão e a intenção de não se recandidatar, reconhecendo que os portugueses não se reviram no “projeto alternativo” do CDS. Mas esta noite, à medida que as horas avançavam e o silêncio embaraçado se instalava na sede, o que se cumpriu foi mesmo a pior das expectativas. Todos esses cenários, que eram descritos como catastróficos por altos dirigentes do partido, se confirmaram. Os nomes que o CDS sentará no Parlamento a partir de agora serão estes: Assunção Cristas, Ana Rita Bessa, Cecília Meireles, João Almeida e Telmo Correia. Ou seja, precisamente o número de lugares de um táxi, o que simboliza o regresso do pior pesadelo do partido.

A saída limpa e a sucessão

O discurso de Assunção Cristas foi breve e conciso: o reconhecimento da derrota, os agradecimentos, a decisão de não se recandidatar. Foi uma saída limpa, deixando espaço na sede para que outros dirigentes ficassem no segundo andar do largo do Caldas a fazer as últimas contas à medida que as horas avançavam. E não se tratava apenas das contas aos deputados que o CDS conseguirá sentar no Parlamento: os cálculos que agora têm de ser feitos (e refeitos, nalguns casos) têm a ver com a sucessão da presidente.

Desde logo, o pior resultado da história do CDS tem uma consequência prática: há muito poucos deputados eleitos e, portanto, há poucos potenciais candidatos com a projeção que normalmente se quer para o líder de um partido pequeno. Ou seja, dos nomes que têm circulado dentro do partido como alternativa a Assunção, só João Almeida conseguiu assento, e portanto só o porta-voz do partido terá a vantagem de ter esse palco constante, a par de Cecília Meireles. Já esta noite, no Facebook, João Almeida não teve pudores em falar de uma "derrota estrondosa" do CDS, que "não acontece por acaso"...

O cenário que acabou por se traçar, e cuja dimensão não tinha sido prevista pelos centristas, poderá obrigar então a refazer cálculos. Já não entrará no Parlamento, por exemplo, Francisco Rodrigues dos Santos, líder da JP, pelo que poderá ficar em desvantagem se decidir avançar com uma candidatura à liderança. Por outro lado, nomes como Pedro Mota Soares ou Nuno Melo, sempre mencionados como potenciais candidatos, já contavam à partida com esse handicap: graças às eleições europeias (o primeiro porque fez parte da lista e não foi eleito, o segundo porque foi) também não têm assento na Assembleia da República.

Por agora, as alternativas que surgem são verdadeiramente alternativas, ou seja, vêm dos setores críticos da atual direção - e querem mudanças. Abel Matos Santos, da corrente interna Tendência Esperança em Movimento, não demorou a confirmar a sua candidatura, pedindo que o CDS não se “encolha” nem se vergue ao “politicamente correto”, assumindo-se como verdadeiro partido de direita. No grupo de Lobo d’Ávila, que conta com 18,5% dos lugares do Conselho Nacional do partido, a reação aos resultados foi de “choque” - mas também houve lugar para a promessa de vir a assumir “responsabilidades” futuras.

Poderá isto querer dizer que se aproxima não só uma batalha pelo poder no CDS mas também uma batalha ideológica, que recoloque as questões da identidade do partido no centro da discussão, como os críticos da direção de Cristas - e que enfatizam que querem ver afastada não apenas a presidente, mas também os seus mais próximos - há muito vinham exigindo. Quem ficar aos comandos do partido terá uma missão, no mínimo, espinhosa, com um grupo parlamentar reduzido ao mínimo e uma tendência de perda claríssima, que já se vinha traçando desde as europeias.

Pouco depois de ter feito a sua curta intervenção de despedida, Assunção saiu pela porta da frente da sede do Largo do Caldas, acompanhada do marido. Todos esses cálculos, discussões ideológicas, táticas políticas já não serão assunto seu. “Boa noite, bom descanso”, desejou aos jornalistas. “Agora deixem-me descansar a mim também”.