Guerra na Ucrânia

Conselho de Segurança rejeita resolução russa para investigação aos ataques no gasodutos Nord Stream

Fuga de gás no Nord Stream 2, em águas territoriais da Dinamarca
Fuga de gás no Nord Stream 2, em águas territoriais da Dinamarca
Anadolu Agency/Suspilne

Proposta russa - co-patrocinada pela China, Bielorrússia, Venezuela, Coreia do Norte, Nicarágua, Síria e Eritreia - confiava ao secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, a criação de uma comissão de peritos internacionais para analisar o sucedido e identificar os responsáveis pelo ataque e os seus cúmplices

O Conselho de Segurança das Nações Unidas rejeitou esta segunda-feira um projeto de resolução proposto pela Rússia que pedia ao secretário-geral que estabelecesse uma comissão internacional para conduzir uma investigação sobre as explosões nos oleodutos Nord Stream. O projeto de resolução reuniu três votos a favor, zero contra e 12 abstenções, falhando em reunir o número necessário de apoio para a sua aprovação. Rússia, China e Brasil foram os países que votaram a favor do projeto de resolução.

Na ausência de veto de um membro permanente, um projeto de resolução sobre questões não processuais requer nove votos a favor para ser adotado, pelo que a Rússia falhou em conseguir o apoio requerido.

A proposta russa - co-patrocinada pela China, Bielorrússia, Venezuela, Coreia do Norte, Nicarágua, Síria e Eritreia - confiava ao secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, a criação de uma comissão de peritos internacionais para analisar o sucedido e identificar os responsáveis pelo ataque e os seus cúmplices.

Na reunião de hoje, a maioria dos países condenou os ataques aos gasodutos, mas justificou a abstenção com o facto de já existirem três outras investigações em curso, nomeadamente por parte da Alemanha, Suécia e Dinamarca, e defenderam que uma investigação da ONU poderá ser levada a cabo quando as averiguações nacionais forem concluídas.

Contudo, o embaixador russo junto da ONU, Vasily Nebenzya, disse ter "sérias dúvidas quanto à objetividade e transparência das investigações nacionais conduzidas por alguns Estados europeus" e voltou a acusar os Estados Unidos de tentar ocultar a verdade dos factos.

Segundo o representante russo, esses processos de investigação podem durar anos, reforçando as suas suspeitas de que "estão a ser feitos esforços não para esclarecer o que aconteceu, mas para ocultar provas e limpar a cena do crime".

"Acho que depois da votação de hoje, a suspeita sobre quem está por trás do ato de sabotagem no Nord Stream é óbvia. Aos olhos do mundo inteiro, os Estados Unidos e seus aliados têm feito tudo o que podem para garantir que não haja investigação internacional sobre o que aconteceu", disse Nebenzya.

Já os Estados Unidos voltaram a rejeitar as "acusações infundadas da Rússia". "Os Estados Unidos não se envolveram de forma alguma, ponto final. (...) No entanto, sejamos claros: esta foi uma tentativa de desacreditar o trabalho das investigações nacionais em curso e prejudicar quaisquer conclusões a que cheguem que não correspondam à narrativa predeterminada pela Rússia. Não foi uma tentativa de procurar a verdade", alegou o diplomata norte-americano Robert Wood.

"É difícil aceitar a postura da Rússia de que procura apenas uma investigação imparcial e independente. Que fique claro, para registo, que o primeiro rascunho da resolução apresentado pela Rússia claramente implicava os Estados Unidos, com base em descaracterizações de declarações feitas por autoridades norte-americanas", acrescentou Wood.

Por outro lado, o Brasil justificou o seu voto a favor com a necessidade de a ONU realizar esforços adicionais para esclarecer os ataques aos gasodutos. "O Brasil envolveu-se com as negociações desde o início e tentou criar um consenso. (...) Tudo indica que se trata de um ato de sabotagem, mas ainda não sabemos o que a causou. (...) O voto do Brasil não deve ser visto como uma critica à conduta das investigações em curso ou um sinal de desconfiança, mas como reconhecimento da importância de esforços adicionais por parte da ONU", disse Ronaldo Costa Filho.

O diplomata brasileiro pediu ainda que as conclusões das investigações em curso sejam partilhadas com o Conselho de Segurança o mais rápido possível.

Os ataques aos gasodutos Nord Stream, que não estavam em serviço no momento do incidente, ocorreram em 26 de setembro de 2022 e provocaram duas fugas em cada um deles: duas na zona dinamarquesa e duas na zona sueca, todas em águas internacionais.

Os embaixadores da Dinamarca, Suécia e Alemanha - países que se encontram a investigar as explosões - indicaram que as suas investigações estabeleceram que os gasodutos foram amplamente danificados "por poderosas explosões devido a sabotagem".

Nas últimas semanas, vários relatos da imprensa norte-americana e alemã apontaram um grupo pró-ucraniano como o suposto autor da sabotagem. Kiev, por sua vez, negou qualquer responsabilidade pelos ataques.

No momento da sabotagem, Moscovo acusou os países "anglo-saxónicos", aludindo à oposição ao projeto que Washington mantém há anos -porque supostamente gera dependência europeia do gás russo-, enquanto alguns países ocidentais apontaram na direção oposta.

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