Guerra na Ucrânia

Braços em movimento, falta de manchas em cadáveres, mortos deixados nas ruas nos últimos dias: a versão russa sobre Bucha desconstruída

Pelo menos 410 pessoas morreram durante a ocupação russa da cidade
Pelo menos 410 pessoas morreram durante a ocupação russa da cidade
Anadolu Agency/Getty

O jornal "The New York Times" e a BBC expõem as lacunas da história contada pela Rússia para justificar o aparecimento de 410 civis mortos em Bucha, perto de Kiev. As "atrocidades" que têm sido denunciadas pelo Ocidente como crimes de guerra de autoria russa ganham cada vez mais força e a veracidade dos argumentos russos é desmontada

Depois de as tropas russas se retirarem da cidade de Bucha, nos arredores de Kiev, as imagens de corpos nas ruas foram difundidas por todo o mundo. A Ucrânia acusou a Rússia de ter levado a cabo um "massacre deliberado", mas a Rússia protestou, contrapondo que se trata de "uma provocação encenada pelo regime de Kiev". Seguiu-se, por parte da Rússia, uma sucessão de acusações sobre as imagens em causa, que até ao momento se revelaram falsas ou estão por provar.

A primeira foi a de que estes eram "falsos cadáveres". Em causa, estão as imagens filmadas a partir de um carro que passava pela cidade e que ia revelando os corpos que jaziam em ambos os lados da estrada. Os órgãos sociais pró-Rússia fizeram circular uma versão mais lenta do vídeo, sustentando que o braço de um dos corpos se moveu. A Embaixada da Rússia no Canadá chegou mesmo a partilhar o vídeo, com a legenda "vídeo encenado mostrando cadáveres falsos na cidade de Bucha, perto de Kiev".

Braço que se move e corpo que se senta?

De acordo com a BBC, uma análise mais detalhada ao vídeo, de imagem granulada, permite concluir que o "braço em movimento" é, em vez disso, uma marca no canto inferior direito do pára-brisas do veículo. Circundando essa e outras marcas, que se assemelham a gotas de chuva ou a pequenas poeiras, a BBC aferiu a existência de marcas semelhantes visíveis no pára-brisas, ainda no início do vídeo.

Outra acusação russa prende-se com outra parte do vídeo, durante a qual o carro passa por outro corpo, ao largo de uma calçada com pedras vermelhas e amarelas e limites castanhos partidos. À medida que as imagens avançam, o corpo pode ser visto por breves momentos no retrovisor direito. Um dos argumentos da versão russa é o de que o corpo "se senta". No entanto, a versão mais lenta do vídeo mostra que um espelho distorce de forma notória o reflexo do corpo, assim como as casas ao fundo. O mesmo efeito pode ser visto em vídeos de espelhos retrovisores semelhantes em vários sites na internet.

A BBC também fez corresponder os dois corpos do vídeo, publicado a 2 de abril, com as fotografias de alta resolução fornecidas pela Getty Images e AFP um dia depois. No vídeo, o primeiro corpo está deitado de costas perto de um cabo branco e amarelo. O pavimento à direita é composto em parte por asfalto e em parte por relva. Um carro prateado é visualizado na calçada com a bagageira aberta, de frente para uma cerca branca. O mesmo carro, o cabo, a calçada e a cerca são visíveis na imagem cuja autoria é da Getty/AFP.

O segundo corpo tem uma jaqueta preta e o que parece ser um torniquete ou curativo ensanguentado no braço direito. Eles estão deitados de lado de uma calçada vermelha e amarela, em frente a uma cerca castanha quebrada. A jaqueta preta, torniquete, calçada e cerca combinam com a foto do corpo publicada pela Getty/AFP.

Os corpos não têm um aspeto contraído, alega a Rússia

O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo expressou, na rede social Twitter: "É particularmente preocupante que todos os corpos das pessoas cujas imagens foram publicadas pelo regime de Kiev não estejam endurecidos após pelo menos quatro dias." De acordo com os militares ucranianos, os russos partiram de Bucha na madrugada de 31 de março. Os russos replicam, dizendo que partiram a 30 de março.

Nas horas após a morte, os corpos passam por um processo chamado 'rigor mortis', adquirindo os seus músculos um estado de contração que torna rígido o aspeto dos cadáveres. Um especialista da área forense, que trabalhou em locais como o Kosovo e o Ruanda, e que foi citado pela BBC, explica que, quatro dias passados, esse estado de 'rigor mortis' já terá passado.

O tweet do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo também afirmava que os corpos "não exibiam manchas típicas de cadáveres". Segundo o especialista ouvido pela BBC, a aparência de alguém que morreu por causa de um ferimento de bala ou outro ato de violência varia muito conforme a arma usada e a distância entre a vítima e o algoz. Por isso, nem sempre há muito sangue visível, podendo este acumular-se por baixo dos corpos ou ensopar as roupas, sobretudo quando se trata de várias camadas, pensadas para uma época de frio.

Se a versão russa se referir à paragem de circulação de sangue pelo corpo, que pode deixar a pele avermelhada ou roxa, o especialista da área forense esclarece que o local dessa acumulação de sangue pode não ser visível apenas a partir de uma imagem.

Imagens de satélite incompatíveis com versão russa

Uma análise a imagens de satélite, feita pelo jornal "The New York Times", refuta as alegações da Rússia de que o assassinato de civis em Bucha, perto de Kiev, ocorreu depois de os seus soldados deixarem a cidade.

No domingo, o Ministério da Defesa russo argumentou que os corpos tinham sido recentemente despejados nas ruas depois de "todas as unidades russas se retirarem completamente de Bucha", a 30 de março. As imagens seriam "outra farsa" e "mais uma provocação de ucranianos radicais", de acordo com a versão russa dos acontecimentos.

Porém, uma análise aos vídeos e imagens de satélite levada a cabo pelo jornal norte-americano mostra que muitos dos civis foram mortos há mais de três semanas, durante o controlo russo da cidade. Aliás, imagens de satélite fornecidas ao jornal "The New York Times" pela Maxar Technologies expõem que pelo menos 11 dos cadáveres estavam na via pública desde 11 de março.

Rússia garante que nenhum residente de Bucha foi vítima de ações violentas

O Ministério da Defesa da Rússia afirmou que, durante o domínio das tropas russas em Bucha, "nenhum morador sofreu qualquer ação violenta". É uma afirmação que, no entanto, vem contradizer uma série de relatos e testemunhos de residentes.

Um professor que morava em Bucha revelou à Human Rights Watch, a 4 de março, que as forças russas detiveram cinco homens e executaram um deles.

O site de investigação russo "The Insider" conta uma história semelhante, narrada por outro habitante local. "Foram dias horríveis. Não havia eletricidade, nem água ou gás. É proibido sair de casa, porque, se sairmos, levamos um tiro."

A BBC também desvela que os russos arrombaram sistematicamente as portas, saqueando apartamentos. Os soldados furtavam então objetos de valor e bens alimentares.

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