Internacional

Doze homens e uma mulher querem ser Presidente do Paraguai. Partido Colorado está no poder há quase 70 anos, é desta que vai mudar?

Teste às máquinas de voto no Tribunal Superior de Justiça Eleitoral, este domingo
Teste às máquinas de voto no Tribunal Superior de Justiça Eleitoral, este domingo
LUIS ROBAYO/Getty Images

As sondagens apontam para empate técnico entre Santiago Peña (Partido Colorado, direita) e Efraín Alegre (Concertação Nacional, aliança que junta direita e esquerda) na presidenciais deste domingo. Mas quem promete dar que falar é Payo Cubas, o candidato que junta os modelos trumpista e bolsonarista. A ida às urnas, que envolve ainda Parlamento e governadores, é a primeira com voto totalmente eletrónico

As primeiras eleições com voto integralmente eletrónico no Paraguai vão ter menos urnas do que seria desejável e recomendável. Mais de 8500 máquinas eleitorais arderam num incêndio no edifício do Tribunal Superior de Justiça Eleitoral, no final de setembro do ano passado. Faltavam pouco mais de dois meses para as primárias (obrigatórias) e especulou-se se o fogo, que vitimou um funcionário, teria sido acidente ou não.

Sete meses após o desastre, cerca de 4,5 milhões de eleitores elegem este domingo o chefe de Estado para o próximo quinquénio, 17 governadores, 45 senadores, 80 deputados e 257 representantes das juntas departamentais.

O processo de voto pode ser moroso, porque existem menos máquinas eleitorais do que deveriam existir, e por ser a primeira ida às urnas com voto desbloqueado, ou seja, os eleitores podem escolher qualquer candidato da lista para votar preferencialmente (no caso dos lugares parlamentares).

As urnas abriram às 7h da manhã no Paraguai (meio-dia em Portugal Continental).

O Paraguai tem uma superfície quase igual à de Espanha, mas apenas 7,5 milhões de habitantes (Espanha tem 47 milhões). Um quarto da população vive abaixo da linha de pobreza, “grande parte das terras [de cultivo] pertence a um pequeno número de indivíduos, e sucessivos governos têm sido lentos a levar a cabo uma reforma agrária”, escreve a BBC.

É neste cenário de grande concentração da propriedade agrária, dos grupos de comunicação, problemas de habitação e distribuição da riqueza, que Santiago Peña, 44 anos, procura manter o Partido Colorado no poder, sucedendo a Mario Abdo Benítez, eleito em 2018 e impedido por lei de se recandidatar.

O estilo informal e arejado de Peña não bate com o discurso conservador da campanha. Numa entrevista publicada este domingo pelo diário madrileno “El Mundo”, o candidato diz que o Paraguai está “condenado ao êxito, o único problema que temos é a abundância”.

Nos tempos em que era estudante Universidade de Columbia, em Nova Iorque, Peña foi assistir a uma palestra de Jeffrey Sachs. O economista analisou, durante duas horas, “a América Latina, país por país. Conhecia todo mundo, do México à Argentina. Ao terminar de falar, disse: ‘O único país de que não vou falar é o Paraguai, porque não sei nada sobre o Paraguai’. Foi um momento chave na minha vida, era um jovem estudante e disse a mim mesmo que tinha de mudar”.

Um dos grandes trunfos de Efraín Alegre é a sua candidata a vice-presidente, Sole Núñez, de 40 anos, a primeira mulher que pode ocupar este cargo no Paraguai. Tutelou a pasta da Habitação entre 2014 e 2018, chegou a entrar nas primárias do partido Concertação, optando depois por se apresentar como candidata a vice de Alegre.

A estratégia conservadora de Peña e do Partido Colorado levou-os a relegar para segundo plano a questão de género, apresentando como candidato a vice-presidente Pedro Alliana.

Cubas, o candidato entre Bolsonaro e Trump

Paraguayo Cubas, 61 anos, mais conhecido por Payo Cubas, é o candidato da extrema-direita. O estilo e o discurso aproximam-no de Jair Bolsonaro em versão paraguaia.

Em 2019, teve o mandato de senador suspenso por “uso indevido de influências”, depois de protagonizar cenas de agressão física, ameaças e incitação à violência, escreve a BBC Brasil. Cubas chamou “bandidos” aos cerca de 100 mil brasileiros que vivem no Paraguai, numa retórica populista anti-imigração.

O tráfico faz com que a fronteira do Paraguai com o Brasil e a Argentina seja considerada um dos locais mais perigosos da América do Sul, para quem tenta combater a corrupção.

As sondagens apontam para uma disputa entre Peña e Alegre, neste escrutínio a uma só volta que não exige maioria absoluta. Além deles e de Cuba, há mais dez candidatos, que incluem uma única mulher (Rosa Bogarín, do Partido Socialista Democrático Herdeiros) e o antigo futebolista José Luis Chilavert (pelo Partido da Juventude).

O país elege este domingo o futuro chefe de Estado e de Governo. Resta saber se termina o ciclo do Partido Colorado que ocupou o poder durante 70 dos últimos 75 anos.

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