Internacional

Rota do Atlântico é, pelo quinto ano consecutivo, a via mais mortal do mundo para migrantes que tentam chegar à Europa

18 janeiro 2023 21:19

Ana França

Ana França

Jornalista da secção Internacional

Migrantes de origem subsariana aguardam para serem retirados de embarcação na Grã Canária, Espanha

borja suarez/reuters

Em 2022 morreram 2.390 na rota do Atlântica, a mais mortífera do mundo e que leva migrantes de vários países africanos até ao litorial espanhol - ou até aos eclaves espanhóis em Marrocos, onde ainda em julho último morreram quase 40 pessoas que tentavam entrar na Europa escalando uma vedação de mais de cinco metros

18 janeiro 2023 21:19

Ana França

Ana França

Jornalista da secção Internacional

Durante o ano de 2022, pelo menos 2.390 pessoas morreram a tentar chegar a Espanha, pelas várias vias possíveis, entre elas 288 mulheres e 101 crianças.

A Rota das Ilhas Canárias, é, de longe, a que mais contribuiu para este número: 1.874 mortos, um número que reforça a lúgubre fama do Atlântico como a via de fuga mais perigosa do mundo. Os números foram avançados esta quarta-feira pela organização não-governamental Caminando Fronteras.

Nem só pelas Canárias se chega a Espanha e as rotas estão em permanente mutação. Na chamada Rota da Argélia morreram 464 pessoas. Esta via é usada principalmente por cidadãos argelinos, que chegam a bordo de barcos a motor e fixam os objetivos na costa de Almería. No entanto, nos últimos tempos, com os controlos das autoridades cada vez mais apertados, a rota expandiu-se em tamanho, toca agora as ilhas Baleares e Valência, e ficou mais perigosa.

Na rota de Alboran (o nome vem do mar de Alboran, que liga a costa de Riffian com o leste da Andaluzia) morreram este ano 75 pessoas. Normalmente, os migrantes viajam de pequenas lanchas ou mesmo jet-ski da zona de Al Hoceima até à cidade de Nador, e daí embarcam em outros barcos, igualmente precários mas um pouco maiores, e tentam chegar a vários enclaves espanhóis em África, Isla de Mar, Isla de Tierra , Melilla (saltando a vedação ou então à volta, a nado). É uma das rotas que mais têm crescido nos últimos anos mas a militarização dos enclaves é muito acentuada e as tragédias sucedem-se.

Em junho, 37 pessoas morreram quando tentavam escalar a vedação que separa território marroquino de espanhol, em Melilla. As imagens mostram dezenas de homens, a maioria do Sudão e Sudão do Sul, estendidos numa espécie de fosso entre os dois territórios, muitos deles feridos, sangue no chão, uma das cenas mais violentas gravadas às portas da Europa desde que há memória. Isto porque, segundo as investigações realizadas desde então por jornais como o “El País”, não é certo que todos tenham morrido ao cair da vedação, nem espezinhados numa demandada. Há registo de violência policial das autoridades marroquinas - e também das espanholas, em menor escala.

A menor distância entre o continente africano e a Europa são 14 quilómetros, uma outra rota, a “rota estreita”. Os barcos utilizados têm o nome de “brinquedos” porque são, realmente, barcos de encher com fôlego, com remos de plástico, que as famílias levam para a praia. A distância parece curta mas as águas são agitadas. Morreram pelo menos 25 pessoas em 2022. Por fim, a rota da terra, onde morreram 42 vítimas.

Estes números, ligeiramente superiores aos de 2020 (1.417), são consistentes com a tendência de aumento de mortes nos últimos cinco anos em todas as rotas, tanto marítimas como terrestres, no que diz respeito ao acesso à Europa através de território espanhol. O ano de 2021 surge como o mais grave da década, quando 4.639 pessoas morreram. Em 2019, perderam-se 1.885 vidas e, em 2018, 2.299.

A Rota Atlântica não é apenas perigosa pelas razões óbvias - viagens longas, água fria e revolta e policiamento apertado. As relações políticas entre os países que forma esta área geográfica dificultam a colaboração nos salvamentos, por exemplo. As mortes de junho de 2022 aconteceram poucos meses após o chefe de Governo espanhol, Pedro Sánchez, ter vindo apoiar as pretensões do rei Mohamed VI sobre o Sara Ocidental, apresentando como solução para a reconciliação um acordo que propunha o controlo da zona disputada por Rabat.

Sete meses depois, no final de 2022, o Ministério Público espanhol encerrou a investigação sobre estes casos, dizendo que não há indícios de crime.