Internacional

EUA. Menino de seis anos disparou contra a sua professora. É muito raro os suspeitos serem tão novos, mas são cada vez mais novos

8 janeiro 2023 15:17

Ana França

Ana França

Jornalista da secção Internacional

A escola da Virginia onde um menino de seis anos atirou sobre a sua professora

jay paul

O menino que disparou sobre a sua professora numa escola do estado da Virginia tinha apenas seis anos. É um incidente raríssimo, mas veio colocar de novo o tema do controlo da posse de armas nas notícias. Nos últimos anos, a idade destes rapazes envolvido nestes tiroteiros sobre multidões, em supermercaods, escolas ou discotecas, tem vindo a decrescer - e esse fenómeno assusta os especialistas

8 janeiro 2023 15:17

Ana França

Ana França

Jornalista da secção Internacional

Os incidentes com armas de fogo nas escolas e liceus dos Estados Unidos já não chegam sempre às notícias nacionais. Não são um acontecimento raro. O que faz do caso do rapaz que disparou sobre a sua professora, ainda em estado grave, na sexta-feira, é a sua idade - seis anos, frequentava a primeira classe na escola primária de Rickneck, na cidade de Newport News, no estado da Virgínia. As reações, dos pais, da polícia e das autoridades políticas não diferem muito entre si, a pergunta que todos fazem é a mesma: como é que uma criança de seis anos tem uma arma, a quem a tirou?

Curtis Bethany, vereador da cidade, disse, citado pelo “New York Times”, que nunca nada parecido aconteceu em Newsport News. “Estamos a lidar com uma situação sem precedentes, nunca ouvi falar de uma criança de seis anos que tenha ido para a escola com uma arma carregada”. Já houve outros casos, apesar de ser um fenómeno extremamente raro.

A base de dados “K-12 School Shooting”, que contém dados sobre todos os tiroteios em escolas - sempre que uma arma de fogo foi disparada na propriedade escolar - desde 1970, lista 16 incidentes com atacantes com menos de 10 anos.

Três deles envolveram crianças de seis anos, dois destes foram considerados tiroteios acidentais: um em 2011, numa escola primária em Houston, no qual um aluno tinha uma arma que disparou sem querer; e outro no Mississippi, em 2021, quando um aluno também da primeira classe feriu um colega enquanto brincavam ambos com a arma. No terceiro caso, considerado intencional, um menino de seis anos atirou e matou uma aluna da mesma idade enquanto o professor levava a turma para a sala de aula após o recreio.

De acordo com a mesma página, só há um incidente registado com um atirador com menos de seis anos: um aluno do jardim de infância, de 5 anos, disparou uma arma no refeitório da sua escola em Memphis, Tennessee, em 2013. Ninguém ficou ferido.

Para os ativistas que lutam por um maior controlo no acesso a armas de fogo nos Estados Unidos, que tem uma das leis mais permissivas do mundo neste departamento, este é mais um episódio que mostra o perigo constante a que a população escolar está sujeita todos os dias. Em maio, um tiroteio na escola primária de Uvalde, Texas, matou 19 crianças e dois professores. Em setembro, outro tiroteio em Oakland, Califórnia, fez seus feridos.

Em 2022, registaram-se 51 tiroteios em escolas, o maior número nos últimos cinco anos. “Hoje estamos novamente a discutir a carnificina de outro tiroteio numa escola. Isto não vai parar até que os líderes eleitos tomem medidas e enfrentem o lóbi das armas para prevenir a violência armada nas nossas comunidades e escolas”, disse à CBS Becky Pringle, presidente da Associação Nacional de Educação.

Sendo muito raro haver incidentes com crianças tão novas como esta que disparou sobre a sua professora, a média da idade dos rapazes que cometem estes crimes está a descer. Os dois jovens acusados dos massacres de Buffalo e Uvalde seguiram mais ou menos o mesmo caminho: assim que fizeram 18 anos compraram uma arma. Os investigadores, policiais mas também académicos, dizem que a idade do acusado emerge como um factor essencial para entender a prevalência dos tiroteios. A faixa etária dos 15 a 25 anos é uma “encruzilhada perigosa para homens jovens”, um período em que “passam por mudanças de desenvolvimento e sofrem pressões sociais que podem levá-los à violência”, escreve o “New York Times” num artigo sobre o tema.

Seis dos nove tiroteios em massa mais mortais nos Estados Unidos desde 2018 foram cometidos por pessoas com 21 anos ou menos. Até ao início do novo milénio, estes tipo de crimes eram perpetrados por homens entre os 25 e os 45 anos.

Além dos casos de Buffalo e Uvalde, em 2021 houve um tiroteio num supermercado em Boulder, Colorado, em março de 2021, executado por um homem de 21 anos; em agosto de 2019 um homem com a mesma idade matou 23 pessoas de origem hispânica na loja Walmart, em El Paso; em maio de 2018 um rapaz de 17 anos matou oito alunos em Santa Fé, Texas; e em fevereiro de 2018, 17 pessoas morreram num ataque a um liceu de Parkland, na Flórida, um ataque cometido por ex-aluno de 19 anos da mesma escola.

Frank McAndrew, professor de psicologia do Knox College que estuda tiroteios em massa, disse, no mesmo artigo, que quase todos os jovens assassinos são motivados por uma necessidade de provarem o seu valor para uma comunidade específica. “São homens que se sentem perdedores e têm um desejo irresistível de mostrar a todos que não são inúteis. No caso do atirador de Buffalo, ele quis impressionar uma comunidade de racistas que cultivou online. No caso de Uvalde, tratava-se de voltar ao lugar onde ele se sentiu humilhado e mostrar poder com a violência”.