Internacional

Quem é George Santos? O congressista republicano eleito após inventar quase a totalidade do seu currículo

6 janeiro 2023 20:18

George Santos na Câmara dos Representantes durante a sessão inaugural do 118º congresso, dia 3 de janeiro

jim lo scalzo

O republicano George Santos iludiu os eleitores sobre a sua carreira profissional e académica, as suas posses financeiras e até sobre a morte da sua mãe, mas está muito perto de ser confirmado na Câmara dos Representantes. A liderança republicana precisa de todos os votos que conseguir arranjar, pelo que parece disposta a ignorar um rol de dissimulações e irregularidades financeiras com uma escala alarmante

6 janeiro 2023 20:18

Em campanha, o político norte-americano George Santos, recém-eleito este novembro para a Câmara dos Representantes, assumia-se como a personificação do ‘American Dream’ - alguém que nasceu pobre e conseguiu subir na vida pela força do seu trabalho e dedicação.

Após uma infância marcada pela privação, dizia, tirou um curso universitário, trabalhou em dois dos mais prestigiados bancos do mundo e geriu um portfólio imobiliário avaliado em dezenas de milhões de euros.

Problema: tanto a história de vida como o currículo profissional que o republicano Santos apresentou aos eleitores não correspondem à realidade. Pelo contrário, várias investigações dos media norte-americanos centradas nas afirmações do futuro congressista desvendaram um rol de dissimulações com uma escala alarmante.

Como adiantou o The New York Times, Santos mentiu sobre praticamente todos os detalhes da sua biografia. Nada escapou: iludiu o público sobre a sua religião, educação, o seu percurso profissional, a sua situação financeira e até sobre as circunstâncias em torno da morte da sua mãe.

As finanças do congressista geram particular perplexidade, tendo já sido aberta uma investigação pela procuradoria de Nova Iorque, estado no qual Santos foi eleito. Em causa está a discrepância entre os bens financeiros declarados aquando da formalização da sua candidatura à Câmara dos Representantes - avaliados em 11 milhões de dólares (quase 10,4 milhões de euros) - e aqueles que realmente detém.

George Santos e o congressista republicano Matt Gaetz na Câmara dos Representantes, dia 4 de janeiro

George Santos e o congressista republicano Matt Gaetz na Câmara dos Representantes, dia 4 de janeiro

michael reynolds

A esmagadora maioria dos ativos declarados está ligada a uma empresa de consultoria sediada em Nova Iorque, a Devolder Organization, da qual o congressista é proprietário. Alegou receber da Devolder um salário de 750 mil dólares (cerca de 709 mil euros), valor a que se somam dividendos de entre 1 e 5 milhões de dólares (945 mil euros e 4,7 milhões), mesmo sendo a empresa avaliada numa quantia semelhante.

No entanto, a investigação do The New York Times não encontrou nenhum registo público, quer de ativos ou outras propriedades em nome da empresa, quer de clientes que tenham contratado os seus serviços.

Mais: o próprio Santos tem um historial de incumprimento financeiro, tendo sido condenado em 2015 a pagar uma indemnização de 12 mil dólares ao seu senhorio por falta de pagamento.

Citado pelo The New York Times, Kedric Payne, um especialista norte-americano em lei eleitoral, referiu que estas irregularidades fizeram “soar alarmes” por uma “empresa multimilionária de serviços pessoais não reportar um único cliente”.

E não é só nos EUA que Santos vai ser potencialmente confrontado com um processo judicial. Também no Brasil, de onde é parte da sua família e onde viveu antes de emigrar para os EUA, a procuradoria do Rio de Janeiro planeia reabrir um caso de fraude contra o congressista pelo pagamento indevido de uma peça de roupa usando um cheque roubado.

Em reação, o republicano deu uma entrevista ao jornal New York Post e admitiu ter "embelezado o seu currículo", dizendo que esse foi o seu único "pecado" e que não é um "criminoso".

No seguimento da entrevista, Santos tem evitado as perguntas dos jornalistas a todo o custo enquanto se prepara para ser confirmado na Câmara dos Representantes, algo que só acontecerá após eleição do novo ‘speaker’.

Entretanto, vários vídeos que ilustram o isolamento do congressista e o seu esforço para evitar os holofotes têm circulado nas redes sociais. Num deles, Santos tenta esquivar-se de um grupo de jornalistas que lhe perguntavam se devia um pedido de desculpa aos seus eleitores.

Invenções mirabolantes e silêncio republicano

Além dos seus meios económicos, o futuro representante político norte-americano mentiu também sobre o seu percurso académico. Disse ter recebido um diploma da universidade de Baruch em 2010, mas a instituição de ensino superior de Nova Iorque não encontrou nos seus registos qualquer aluno com o nome dele.

Acabou por desmentir ter frequentado a universidade na mesma entrevista com o The New York Post, assumindo-se “embaraçado” com o sucedido e desabafando que “todos cometemos erros estúpidos na vida”.

Ainda na mesma entrevista, surgiu uma questão sobre a identificação religiosa de Santos. No site da sua campanha, escreveu que a sua mãe era judia e que os seus avós escaparam do regime Nazi durante a II Guerra Mundial.

Fazendo-se valer dessa narrativa, por várias vezes afirmou ser judeu ao longo da sua carreira política, algo que desmentiu na entrevista. "Eu nunca afirmei ser judeu", disse ao jornal de Nova Iorque. "Eu sou católico. Mas, porque soube que a minha família materna tinha um passado judeu, disse ser ‘mais ou menos judeu’".

No que respeita à vida familiar, esta não foi a única imprecisão. O republicano usou também a morte da sua mãe de forma a ganhar pontos políticos. Em outubro, disse que tinha perdido a sua progenitora na sequência do atentado do 11 de setembro, mas o seu obituário surgiu na internet em 2016, 15 anos após o ataque às torres gémeas, tal como refere o site gothamist.

Quanto às suas experiências profissionais, Santos afirmava ter trabalhado nos conceituados bancos de investimento Goldman Sachs e Citigroup. Na realidade, nunca lá trabalhou, como confirmaram porta-vozes das duas instituições à imprensa dos EUA.

O congressista desvalorizou esta incongruência como uma “má escolha de palavras”, ressalvando que uma empresa para quem trabalhou anteriormente esteve, essa sim, envolvida com os bancos.

Apesar de tudo isto, a liderança republicana na Câmara dos Representantes tem resistido a comentar o caso e ignorado os apelos de vários democratas para que o congressista assuma os seus erros e se demita.

Seis rondas de votação não bastaram para o republicano Kevin McCarthy ser eleito speaker da Câmara dos Representantes

Seis rondas de votação não bastaram para o republicano Kevin McCarthy ser eleito speaker da Câmara dos Representantes

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A justificação é clara: os republicanos gozam de uma maioria extremamente ténue - 222 republicanos opõem-se a 212 democratas, sendo que 218 membros representam 50% da câmara -, pelo que todos os votos são fundamentais.

Ainda para mais, Santos é apoiante de Kevin McCarthy, o líder do GOP na câmara baixa do senado dos EUA, atualmente a braços com um grupo de legisladores conservadores que parecem dispostos a bloquear a sua eleição para ‘speaker’.

Mais uma vez, McCarthy precisa todos os votos que consiga amealhar, pelo que um pedido da liderança no sentido de precipitar a demissão de Santos é, neste momento, improvável.

Texto de José Gonçalves Neves, editado por Mafalda Ganhão