Internacional

Lula foi duro e racional, mas também emotivo: os dois discursos do novo presidente do Brasil na festa da tomada de posse

1 janeiro 2023 23:00

adriano machado/reuters

Foi um dia de festa, de alegria, de ódios aplacados. Lula fez dois discursos: um no Congresso Nacional, diante das autoridades, ao ser empossado, e outro no parlatório do Palácio para a multidão. O primeiro foi duro e racional, de um presidente pragmático. No segundo, para o povo, esteva o Lula que chora, que se emociona, que pede ajuda a Deus, e compara a vida dos super-ricos à daqueles que não têm comida no prato

1 janeiro 2023 23:00

Com um lenço branco na mão para enxugar as lágrimas, depois de receber a faixa presidencial pela terceira vez, Lula da Silva acenou para a multidão que o esperava junto à rampa do Palácio do Planalto, em Brasília. Era uma tarde de céu azul e as pessoas acompanhavam a sua chegada sob um sol tórrido, em clima de festa, cantando uma música antiga, recentemente regravada por Caetano Veloso: “Amanhã será um lindo dia, da mais louca alegria, que se possa imaginar”. Foi um momento de confraternização e de forte emoção, como se, novamente, no Brasil se abrisse um espaço para a utopia.

Ao fugir para a Flórida, nos Estados Unidos, pela porta dos fundos do palácio para não cumprir o rito democrático da transmissão do poder, Jair Bolsonaro acabou por contribuir para uma das cerimónias mais bonitas da história republicana brasileira. Lula recebeu a faixa das mãos de uma mulher negra, catadora de papel e materiais recicláveis, que fazia parte de uma comitiva simbólica, que aguardava o novo presidente. Nesse pequeno grupo de pessoas, que representava o povo brasileiro, estavam o cacique indígena Raoni, um metalúrgico, uma cozinheira, um professor, uma criança negra e um influenciador digital com paralisia cerebral. Também subiu a rampa a cadela vira-lata Resistência, adotada pela mulher do presidente, Janja da Silva, durante os tempos de vigília, quando Lula esteve preso na sede da Polícia Federal, em Curitiba.

Foi um dia de festa, de alegria, de ódios aplacados. Lula fez dois discursos: um no Congresso Nacional, diante das autoridades, ao ser empossado, e outro no parlatório do Palácio para a multidão. Embora não houvesse improviso, pois os dois foram lidos, o primeiro foi duro e racional, de um presidente pragmático, que não poupou o seu antecessor, falou em civilidade em vez de barbárie, da cidadania como um sinónimo de democracia e de um futuro de inclusão social. Ao contrário do revanchismo, prometeu o rigor da lei. E substituiu o slogan “Ditadura Nunca Mais”, por “Democracia para Sempre”.

No segundo discurso, para o povo, esteva o Lula que chora, que se emociona, que pede ajuda a Deus, e compara a vida dos super-ricos à daqueles que não têm comida no prato. Ao acenar para um futuro de inclusão social, contemplou três aspectos básicos: os povos originários, que nos últimos quatro anos eram vistos como obstáculos ao desenvolvimento, as mulheres vítimas de uma sociedade machista, e os negros e mestiços, que compõem a maioria da população desfavorecida brasileira. Seu compromisso maior foi acabar com a fome e com o legado do passado esclavagista, exportar inteligência e conhecimento e não apenas commodities.

Há exatos 20 anos, Lula subiu a rampa do palácio do Planalto pela primeira vez. Seguiram-se dois mandatos e oito anos, nos quais permaneceu na presidência. O presidente que chega agora sem dúvida é diferente. Tem um discurso mais inclusivo na diversidade, dirige-se nominalmente a negros, mulheres, indígenas e deficientes. Fala do protagonismo brasileiro nos desafios internacionais da questão climática, promete desmatamento zero na Amazônia.

O Lula de agora, que tem como vice o seu antigo adversário Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo, é apoiado por uma frente que vai da esquerda ao centro-direita, e recebe um país dividido pelo ódio. Façam as pazes com os familiares, disse ele, à multidão: “Não existem dois Brasis. Somos apenas um país e uma grande nação”. Citou, também, o fato de herdar quatro anos de um governo de destruição, “que a história não perdoará”. E prometeu distribuir para todos os poderes da República e para todas as universidades o “Relatório do Caos”, elaborado pelo governo de transição que fez um diagnóstico do estado em que se encontra o país.

Enquanto falava, a multidão gritava: “Sem amnistia”. No entanto, o chefe do executivo defendeu a conciliação, clamou contra os ataques extremistas e terminou desenhando um coração com as mãos. Foi assim, que o Brasil de 2023 se apresentou ao mundo, novamente, sob o signo da paz.

Apesar das etapas protocolares que seguiu a cerimónia, foi tudo um pouco fora do protocolo. Como Lula gosta, que assinou o termo de posse com uma caneta presenteada em 1989 por um apoiador do Piauí, um dos estados brasileiros com o menor IDH – Índice de Desenvolvimento Humano. Ao contar a história, disse que havia recebido a caneta para usá-la quando tomasse posse em 1990, na eleição que perdeu para Fernando Collor de Mello. Depois, ainda sofreria mais duas derrotas para Fernando Henrique Cardoso antes de chegar à presidência.

No final do discurso no Congresso fez um agradecimento especial a Marcelo Rebelo de Sousa que estava ali e lembrou o bicentenário da Independência celebrado em 2022. O presidente português também foi o primeiro a abraçá-lo, quando foram abertos os cumprimentos para as delegações estrangeiras.

O vermelho voltou a dominar a Praça dos Três Poderes em Brasília. Mas agora há uma frente que levou Lula à vitória e que se reflete, pelo menos parcialmente, no novo governo. Será que ele vai honrar esse vasto espectro político ou governar para os seus apoiantes? Conseguirá cumprir uma parte significativa das suas promessas conciliando desenvolvimento económico, fiscal e justiça social? Essa é a grande questão a partir desta segunda-feira, quando a emoção da festa dará lugar à realidade e as promessas precisarão de ser substituídas por atos.