Internacional

Nova vaga de covid-19 preocupa o país e o mundo: “o que acontece na China não fica na China”

20 dezembro 2022 14:54

Salomé Fernandes

Salomé Fernandes

jornalista da secção internacional

epa/alex plavevski

A nova vaga de casos de covid-19 na China cresce e as dificuldades em fazer face à situação começam a transparecer. Crematórios sem espaço para mais corpos, formações “com urgência” de pessoal médico e enfermeiros, relatos de racionamento de medicamentos. O impacto pode alargar-se a outras partes do mundo a nível económico

20 dezembro 2022 14:54

Salomé Fernandes

Salomé Fernandes

jornalista da secção internacional

Entre a luta para aumentar as camas de hospitais, crematórios sobrecarregados e falta de medicamentos, crescem as preocupações sobre a explosão de novos casos de covid-19 na China. Teme-se que as mortes possam chegar aos milhões e que o impacto passe fronteiras com novas mutações do vírus e possível impacto económico.

O que acontece na China não fica na China. Wuhan foi a nossa lição há três anos. As consequências globais desta onda de 2022-2023 não serão pequenas”, escreveu na rede social Twitter o epidemiologista Eric Feigl-Ding.

Apesar de o número oficial de mortos divulgado pelas autoridades chinesas ser reduzido, a agência francesa AFP noticiou que vários crematórios chineses admitiram estar sobrecarregados, escreveu a agência Lusa. “Estamos todos muito ocupados, não há mais espaço para os corpos nas câmaras frigoríficas”, disse o funcionário de um crematório em Chongqing. Acrescenta que o número de corpos nos últimos dias foi “muito superior”. Há relatos semelhantes noutras cidades. A Sky News escreveu que há crematórios vigiados por polícias.

O país lida com uma nova vaga de casos, depois de terem sido relaxadas restrições da política “covid zero”. O Instituto de Métricas e Avaliação da Saúde (IHME, na sigla inglesa), nos Estados Unidos, previu que nos próximos meses haja mais de um milhão de mortes. Feigl-Ding afirma que, sem intervenção, as mortes podem ir até aos dois milhões.

Sintoma da gravidade da situação é que até o jornal estatal chinês “Global Times” escreve sobre falta de enfermeiros nas unidades de cuidados intensivos das instituições médicas. É o “principal desafio” apontado por especialistas, havendo hospitais a “formar com urgência pessoal médico e de enfermagem”.

Na Província de Hainan, por exemplo, espera-se que sejam formados 1832 médicos e mais de 5000 enfermeiros para os cuidados intensivos. Hoje conta apenas com 209 médicos e 642 enfermeiros dessa especialidade.

Mas os profissionais de saúde não são o único desafio que o país enfrenta: são precisos medicamentos para tratar os pacientes infetados. Noutro artigo o tabloide do Partido Comunista Chinês observa que o ibuprofeno se tornou um dos medicamentos mais difíceis de comprar.

Apesar de assegurar que a situação está mais calma, com várias cidades a aumentarem a oferta, o jornal reconhece que há locais com vendas racionadas e pelo menos um dos dois únicos fabricantes nacionais das matérias-primas para ibuprofeno viu-as requisitadas por departamentos governamentais, nada restando para fornecimento ao mercado.

Ondas de repercussão

Os efeitos da falta de medicamentos podem alargar-se a outras partes do mundo. “O Ocidente pensa que há escassez de antibióticos agora? Esperem até a produção da China se desviar das exportações”, alertou Eric Feigl-Ding.

epa/alex plavevski

Esta terça-feira a agência Reuters escreveu que há cidades pela China a instalar camas de hospitais e a criar clínicas de rastreamento de febre. Alex Cook, da Universidade Nacional de Singapura, descreveu que “cada nova onda epidémica noutro país traz o risco de novas variantes, e o risco é tanto maior quanto maior for o surto, e a onda atual na China está a tornar-se grande”.

No entanto, Cook afirma ser inevitável a passagem por uma onda de covid-19 para que a China atinja um “estado endémico” e um futuro sem confinamentos. “Sabemos que sempre que o vírus se espalha há a possibilidade de mutação e representar uma ameaça a pessoas em todo o lado”, afirmou o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Ned Price, em conferência de imprensa na segunda-feira.

Price deixou outro motivo de preocupação: a China é a segunda maior economia mundial. “Não é apenas bom para a China ter uma posição forte em relação à Covid, é também bom para o resto do mundo”, observou.