Internacional

Aumentam os problemas de Trump com a Justiça

jonathan drake/reuters

Existem mais de uma dúzia de investigações criminais contra o anterior presidente dos Estados Unidos. O Congresso dos EUA sugeriu mais três. O próximo ano poderá ser longo para o magnata

19 dezembro 2022 21:14

Ricardo Lourenço

Ricardo Lourenço

Correspondente nos Estados Unidos

Após um ano e meio de trabalho, o Comité do Congresso americano que investigou a invasão do Capitólio a 6 de janeiro de 2021 concluiu esta segunda-feira a missão, enviando para o Departamento de Justiça três sugestões de acusação criminal contra o anterior presidente dos Estados Unidos, Donald J. Trump. Os delitos em causa são: insurreição, conspiração para defraudar os Estados Unidos e obstrução de um evento oficial.

Na última sessão pública, que culminará com a publicação de um relatório de mil páginas, previsivelmente, no final desta semana, resultado de outras tantas entrevistas, recordaram-se várias passagens daquele dia, marcado por expressões beligerantes como “lutem de forma infernal” ou “enforquem Mike Pence” (ex-vice-presidente).

Por comparação, o trabalho do conselheiro especial Robert Mueller à interferência russa nas eleições de 2016, divulgado três anos depois, foi resumido num dossiê com menos de 400 páginas.

As sugestões de acusação criminal não têm peso legal e não obrigam o Departamento de Justiça a agir, até porque este Ministério da Administração encetou as suas próprias investigações ao que se passou. Numa delas, um membro dos “Proud Boys”, grupo de extrema-direita afeto a Trump, convertido em informador do FBI, garantiu que os criminosos em causa teriam “assassinado Mike Pence se tivessem oportunidade”.

A Polícia Federal Americana estima que mais de duas mil pessoas envolveram-se diretamente na “tentativa de sedição”. A responsabilização do multimilionário nova-iorquino é o desfecho previsto de uma série de audições, algumas transmitidas durante o “prime time” televisivo. O organismo apresentou Trump sempre como o ator central da alegada tentativa de golpe de Estado.

“Ele quis silenciar o povo americano e o seu direito de escolher o presidente da nação, incentivado um grupo de criminosos a invadir o coração da nossa capital e assim permanecer no poder contra a vontade desse mesmo povo”, diz ao Expresso Al Cardenas, antigo presidente do Partido Republicano no estado da Florida.

Tudo assente numa “enorme mentira”

A investigação concluiu, ainda, que Trump planeou declarar vitória independentemente dos resultados das presidenciais 2020, pressionou membros da sua administração a destruir máquinas de contagem de votos e, assim, promover a conspiração de fraude eleitoral e coagiu Pence para que não cumprisse o dever, previsto na Constituição, de contar os votos do Colégio Eleitoral.

Outra consequência substantiva do trabalho do Comité refere-se ao pacote de sugestões de reforma do sistema eleitoral, de maneira a “proteger as instituições democráticas”, afirmou o presidente do organismo, Bennie Thompson.

O painel em causa, composto por sete democratas e dois republicanos (Liz Cheney e Adam Kinzinger destacaram-se como críticos de Trump) será dissolvido até à tomada de posse do novo congresso, a 20 de janeiro, em consequência das eleições intercalares de novembro. O sufrágio ditou que o Senado de mantivesse sob controlo democrata e a Câmara dos Representantes passasse a ter maioria republicana.

“Estou chocada com a profundidade do relatório”, indica ao Expresso uma assessora do Congresso americano que leu o documento. “Ele não deixa dúvidas de que houve um plano, assente numa enorme mentira, para corromper o processo eleitoral”.