Internacional

Príncipe André perdeu honras, mas ainda é duque de Iorque. Cidade não gosta da ideia

14 janeiro 2022 13:58

Deputada e vereador da cidade no norte de Inglaterra exigem que o filho da rainha, acusado de abuso sexual de menores, perca título associado à localidade

14 janeiro 2022 13:58

A deputada que representa a cidade de Iorque no Parlamento britânico não quer que o príncipe André mantenha o título de duque… de Iorque. Para a trabalhista Rachael Maskell, é “insustentável” o filho de Isabel II continuar ligado dessa forma à cidade do norte de Inglaterra, uma vez que vai responder em tribunal por abuso sexual de uma rapariga que tinha 17 anos à data dos factos alegados.

“Esta associação com Iorque deve acabar. Há uma alegação grave contra este homem privilegiado. Eu trabalho com agências para combater a violência sexual e a misoginia”, afirmou Maskell, citada pelo jornal “The Guardian” esta sexta-feira. Lançou na rede social Twitter a hashtag #NotInYorksName (em nome de Iorque não).

Posição semelhante expressou o vereador liberal Darryl Smalley, que tem o pelouro da cultura, lazer e comunidades no município. “Penso que a grande maioria da população de Iorque sente exatamente o mesmo quanto a proteger a reputação da cidade. Iorque é fantástica, temos muito de que nos orgulharmos, e o que não queremos é o fardo desta ligação ao príncipe André.”

O autarca equiparou estes pronunciamentos à carta enviada à monarca, na véspera, por 150 militares que não aceitavam que o príncipe mantivesse as dezenas de galões honoríficos que ostentava. À tarde, Isabel II fez saber que André perdera todos, e também os patronatos civis que tinha por ser membro da família real. Deixará ainda de usar o título “Alteza Real”. “Apesar disso, por algum motivo mantém o título de duque de Iorque. Parece estranho a muitos de nós”, frisou o vereador.

O grupo municipal trabalhista concorda, pois para lá da presunção da inocência a que todos têm direito, André “conviveu conscientemente com um pedófilo condenado” (referência a Epstein, com quem o duque manteve amizade após se saber dos seus crimes sexuais), pelo que “perdeu todo o respeito e confiança do público de quem dependem o seu cargo e o financiamento estatal”. O Partido Conservador prefere deixar à rainha qualquer decisão sobre essa matéria, dizendo que a ligação da cidade é com a instituição monárquica, não com um titular passageiro de qualquer posição.

Um duque era “admirado e respeitado”

Além de duque de Iorque, André permanece vice-almirante da Marinha britânica (no ano passado teria passado a almirante ao fazer 60 anos, mas a promoção não aconteceu) e conselheiro de Estado, além de nono na linha de sucessão ao trono, a seguir ao irmão Carlos e aos filhos e netos deste. Está retirado da vida pública desde a desastrosa entrevista de 2019 na qual tentou defender-se das acusações de Giuffre.

A associação de apoio a vítimas de trauma YorPeer Support defendeu a perda do título e lançou uma petição nesse sentido, referindo-se ao príncipe numa publicação apenas como “André Windsor”. “Historicamente, um duque era um ‘nobre admirado e respeitado por ser considerado moralmente bom’”, recorda a entidade.

André, de 61 anos, é acusado pela americana Virgínia Giuffre, que assegura ter sido obrigada a relações sexuais com o príncipe em três ocasiões, no âmbito da rede de prostituição de menores montada pelo milionário Jeffrey Epstein. Este amigo do príncipe suicidou-se na cadeia em 2019.

O filho de Isabel II tinha 38 anos em 2001, ano em que Giuffre situa as acusações. Ela tinha 17. O príncipe desmente as acusações, mas um juiz de Nova Iorque admitiu a queixa cível de Giuffre, pelo que é provável que responda em tribunal. Nada de mais inconveniente para a chefe de Estado e sua mãe, no ano em que celebra 70 anos de reinado.

André tornou-se duque de Iorque quando casou com Sarah Ferguson, em 1986, na tradição que levou os seus sobrinhos William e Harry (filhos do príncipe Carlos, herdeiro do trono) a tornarem-se duques de Cambridge e Sussex, respetivamente, e que fez do filho mais novo da rainha, Eduardo, duque de Wessex. Divorciados desde 1996, André e Sarah dão-se bem e vivem juntos. Têm duas filhas e dois netos.

FOTO: Vista aérea da cidade de Iorque, no norte de Inglaterra (D.R.)