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Campanha de proibição de carros no centro de Berlim já tem mais de 50 mil apoiantes: “É sobre como queremos viver, respirar e brincar”

10 outubro 2021 15:55

Passeio de bicicleta pelas ruas de Berlim, Alemanha (EPA)

Mais de 50.000 pessoas já assinaram uma petição em Berlim para proibir o uso de carros particulares no centro da capital alemã, uma das mais famosas da Europa para ciclistas. Três quartos das mortes nas estradas são de pedestres ou ciclistas.

10 outubro 2021 15:55

Uma iniciativa de cidadãos que pede a proibição do uso de carros particulares no centro de Berlim ambiciona conseguir na capital alemã a maior área urbana sem carros do mundo.

Nina Noblé, uma das fundadoras da iniciativa, disse ao jornal 'The Guardian': “Tem a ver tanto com o nosso meio ambiente imediato como com o meio ambiente em geral. É sobre como todos nós queremos viver, respirar e brincar juntos. Queremos que as pessoas possam dormir com as janelas abertas e que as crianças possam brincar na rua novamente. E os avós devem ser capazes de andar de bicicleta com segurança e ter muitos bancos para se sentarem e respirar. ”

Embora historicamente as campanhas anticarro na Europa tendam a ter um sucesso muito limitado, a "Berlin Autofrei" pode ser diferente. A campanha está a usar uma forma especial de democracia direta consagrada na constituição alemã. Recorde-se que outro referendo popular levou à recente votação histórica para expropriar milhares de casas dos maiores proprietários de Berlim.

E como isto se faz? Na primeira etapa de um processo de três partes, o grupo deve coletar as assinaturas de 20 mil cidadãos em favor de uma mudança de lei proposta num determinado prazo. Na segunda etapa, devem ser recolhidas 170 mil assinaturas. Se o governo se recusar a implementar a lei após essas duas etapas, a questão é colocada em votação pública. Após recolherem 50.333 assinaturas na primeira fase, os ativistas desta campanha estão confiantes.

O grupo "Berlin Autofrei" deu o primeiro passo num processo conhecido como referendo popular, ao apresentar uma petição com mais de 50.000 assinaturas pedindo a proibição de circulação automóvel numa área de 88 km2 (34 milhas quadradas) circundada pelo “anel S-Bahn” - uma área aproximadamente igual em tamanho a todos os bairros nas zonas 1 e 2 de Londres.

Estariam isentas as pessoas que dependem do automóvel para o seu comércio ou porque têm mobilidade reduzida, assim como os serviços de emergência. Todos os outros teriam permissão apenas para fazer 12 viagens de carro nessa zona por ano - no caso de precisarem de se mudar de casa, por exemplo.

Mas se é necessário banir os carros, o que há de errado com os veículos elétricos? “Precisaríamos que cerca de metade dos carros fossem elétricos no próximo ano para cumprir as próprias metas do governo federal para emissões de transporte”, disse ainda ao 'The Guardian' Nik Kaestner, da campanha. “Isso claramente não vai acontecer - atualmente, apenas 1,3% dos veículos na Alemanha são elétricos.”

Manuel Wiemann, porta-voz da iniciativa, disse que os carros também poluem com o desgaste dos pneus, “ocupam muito espaço comum e colocam em perigo desnecessariamente vidas humanas, sejam elétricas ou a diesel”.

Um relatório de 2014 encomendado pelo parlamento regional de Berlim descobriu que 58% do espaço de tráfego era dedicado a carros, embora apenas um terço das viagens nas ruas de Berlim (e apenas 17% dentro do anel S-Bahn) fossem feitas de carro. Apenas 3% foi reservado para bicicletas, que representavam 15% das viagens.

Os carros estacionados ocupam 17 km2. No total, significa quase 20 vezes mais espaço dedicado aos carros do que às bicicletas numa das cidades mais famosas da Europa para ciclistas. Importa salientar que três quartos das mortes nas estradas são de pedestres ou ciclistas.