Internacional

Afeganistão. Talibãs garantem que território não será usado para cometer ataques “contra pessoas ou países”

17 agosto 2021 16:31

Margarida Mota

Jornalista

Em primeiro plano, Zabihullah Mujahid, o porta-voz dos talibãs, esta terça-feira, em Cabul

hoshang hashimi / afp / getty images

Enquanto não é conhecida a formação do próximo governo afegão, os talibãs realizaram, esta terça-feira, a sua primeira conferência de imprensa, em Cabul. Garantiram que as mulheres poderão estudar e trabalhar, os atos de violência que se têm registado no país serão investigados e nenhum afegão que tenha colaborado com as tropas estrangeiras será alvo de vingança

17 agosto 2021 16:31

Margarida Mota

Jornalista

“Não vamos permitir que o nosso território seja usado contra nenhum outro país do mundo”, assegurou esta terça-feira o porta-voz dos talibãs, procurando dissipar receios de que o Afeganistão possa voltar a ser um porto seguro para terroristas.

Em conferência de imprensa, em Cabul, a primeira desde a tomada do poder, os talibãs garantiram que o território afegão não será usado para cometer ataques “contra pessoas ou países”.

Zabihullah Mujahid procurou tranquilizar quer a população afegã, quer a comunidade internacional em relação à futura governação talibã. “O Emirado [Islâmico do Afeganistão] não se vai vingar de ninguém”, disse, acrescentando que “todas as fações, de A a Z, serão perdoadas”. “O Afeganistão não é mais um campo de batalha. As animosidades terminaram.”

Mulheres poderão estudar e trabalhar, mas...

O responsável talibã referiu-se, especificamente, ao futuro das mulheres. Disse que as afegãs serão autorizadas a trabalhar e a estudar. “São muito ativas na nossa sociedade”, referindo-se em específico aos sectores da educação e da saúde. “Trabalharão lado a lado connosco.”

Estamos comprometidos com os direitos das mulheres, no quadro da sharia [a lei islâmica]. As mulheres afegãs são muçulmanas.”

Num ato que parece confirmar a aceitação das mulheres no mercado de trabalho, horas antes desta conferência de imprensa, um outro responsável talibã, Mawlawi Abdulhaq Hemad, foi entrevistado pela jornalista Beheshta Arghand, nos ecrãs da Tolo News, uma televisão de notícias 24/7 do Afeganistão.

Plano não era entrar em Cabul

O porta-voz dos talibãs disse que “em breve” o país terá “um governo forte e inclusivo”. As notícias dão conta dos esforços nesse sentido de dois antigos governantes junto dos talibãs: o antigo Presidente Hamid Karzai (que esteve no poder entre 2001 e 2014) e Abdullah Abdullah (que liderava o Alto Conselho para a Reconciliação Nacional no mandato de Ashraf Ghani, o Presidente que fugiu do país após o avanço dos talibãs).

Zabihullah Mujahid comentou a forma rápida e surpreendente como os “estudantes” entraram em Cabul, no domingo passado.

O nosso plano era parar à entrada de Cabul e esperar que o processo de transição fosse concluído. Mas infelizmente o Governo anterior foi tão incompetente que as forças de segurança nada fizeram. Tivemos nós de fazer alguma coisa para garantir a segurança.”

Casos de violência serão investigados

Zabihullah Mujahid admitiu a existência de casos de violência e abusos sobre cidadãos. Disse que esses episódios serão investigados e os seus autores interrogados. “Há pessoas armadas que têm de ser desarmadas.”

O responsável talibã abordou, em concreto, o caso dos afegãos que trabalharam para as tropas estrangeiras. “Ninguém lhes vai bater à porta e perguntar para quem trabalharam. Todos os nossos compatriotas foram perdoados. Ninguém será alvo de ações de vigança.