Internacional

“Não é com um martelo, é com um bisturi”. De onde vem esta metáfora e o que tem a ver com as eleições locais na Rússia?

13 setembro 2020 18:20

Ana França

Ana França

Jornalista da secção Internacional

Eleições locais na Rússia, no meio da pandemia

alexander demianchuk

Mais de 55 milhões de russos têm este domingo a última oportunidade de votarem nas eleições locais que estão a acontecer há três dias em 41 regiões russas. A popularidade do partido Rússia Unida, do Presidente Vladimir Putin, está a cair e Alexei Navalny, advogado oposicionista recentemente alvo de envenenamento, é o herói de quem quer uma mudança. O seu sistema de "voto inteligente" pode provocar algumas surpresas

13 setembro 2020 18:20

Ana França

Ana França

Jornalista da secção Internacional

Alexei Navalny está na Alemanha e até há poucos dias estava, além de longe da Rússia, em coma. Porém, a presença do maior nome da oposição nas eleições locais que este domingo decorrem em 41 regiões russas, é fortemente sentida por aqueles que querem destronar o domínio do partido do Presidente Vladimir Putin, o Rússia Unida.

Navalny está tão ou mais presente agora que foi alvo de uma tentativa de assassinato com um poderoso químico venenoso, do que estaria se lhe fosse possível deslocar-se fisicamente pelas ruas onde opositores do regime fizeram campanha.

Antes de ter perdido os sentidos, a 20 de agosto, num voo interno que o levaria da cidade de Omsk, na Sibéria, onde tinha estado a gravar mais algum material para os documentários que realiza sobre corrupção, por culpa, sabe-se agora, de um envenenamento com o poderoso químico novichok que afeta o sistema nervoso central, Navalny gravou um vídeo a explicar como votar nestas eleições: “com um bisturi”. A frase completa é esta: “O importante não é a força do golpe mas a sua precisão. Não é preciso um martelo, mas sim um bisturi.”.

A ideia, repetida milhares de vezes pela oposição nas semanas que antecederam as eleições deste domingo, é semelhante à noção de voto útil - “voto inteligente”, é como lhe chamam os opositores -, ou seja, a ordem é para votar em quem tenha mais possibilidades de derrotar o candidato indicado pelo partido de Putin para determinado assunto local, seja essa escolha de que partido for.

Como funciona este sistema?

Os partidários desta estratégia de "oposição sistémica" podem inserir a sua morada numa aplicação criada especialmente para o propósito de encontrar o candidato com maior probabilidade de derrotar o Rússia Unida em cada localidade, independentemente de sua filiação partidária.

"A nossa estratégia é aumentar a participação entre os eleitores de protesto e garantir que esses votos estejam concentrados num candidato específico e não dispersos por vários", disse um dos ativistas da equipa de Navalny em Novosibirsk, Daniil Markelov, à Radio Free Europe.

Por um lado, este sistema tem como objetivo galvanizar a oposição porque dá aos descontentes uma razão para irem votar; por outro une a oposição, cuja fragmentação histórica é também um dos grandes problemas dos que desejam uma mudança na Rússia.

Foi esta estratégia que permitiu eleger cerca de 20 deputados independentes no parlamento local de Moscovo, nas eleições do ano passado. Enfraquecer as bases locais do Rússia Unida há muito tempo que é um dos caminhos nos quais a oposição mais aposta já que ao nível central é quase impossível provocar uma mudança significativa.

Apesar de o que aconteceu a Navalny ter deixado muitos russos furiosos, este domingo os russos vão eleger os seus parlamentos locais, presidentes de câmara e governadores e este num panorama político largamente dominado pelo partido de Putin e a esperança numa mudança não é grande. As projeções que já se conhecem dos locais que já votaram (o voto abrange três dias por causa da pandemia) mostram um avanço considerável dos nomes pró-Kremlin. O artigo do jornal "POLITICO" sobre a campanha para estas eleições relata um episódio que se passou em Novosibirsk e que mostra a descrença das pessoas: uma jovem ativista da oposição tenta dar um panfleto a um homem mais velho que lhe responde: “Ainda não aprendeste que ante do voto já tudo foi decidido?”

Estas eleições, disputadas em 11 fusos horários, em mais de 56 mil urnas e com 56 milhões de pessoas com direito a voto, são as primeiras desde que o referendo de julho estendeu o tempo de mandato de Putin até 2036 e as últimas antes das parlamentares, em 2021, e por isso vários analistas estão a antecipar uma participação mais alta e também leituras mais complexas dos resultados, como sublinha a correspondente da BBC em Moscovo, Sarah Rainsford, no artigo de antecipação a esta votação.

O que se sabe é que 2019 e 2020, principalmente nos meses que antecederam a chegada da pandemia foram anos de protesto na Rússia. Moscovo esteve na rua para protestar contra a exclusão de alguns candidatos nas eleições locais do ano passado (mais de 1000 pessoas foram presas e houve penas de até quatro anos de prisão para alguns dos manifestantes) e já este ano, em julho, na cidade de Khabarovsk, no extremo oriente russo, quando o governador Serguei Furgal foi preso, acusado de homicídios que nega ter cometido. Todos os fins de semana, os apoiantes têm-se manifestado pela libertação de Furgal, membro do partido Liberal-Democrata de Vladimir Jirinovski.

“Nada para oferecer”

O partido de Putin está a perder popularidade - apenas 31% dos russos convencidos que essa será a sua escolha nestas eleições, segundo a empresa de sondagens Levada Center. A imagem do partido tem sofrido bastante nos últimos meses tanto com o seu apoio às revisões constitucionais que acabaram por permitir a Putin ficar até 2036 no poder como com a revisão da idade de reforma, que aumentam .

Também o descontentamento com a corrupção que alastra nos serviços públicos e com as consequências económicas da pandemia têm levado cada vez mais russos a sentirem-se se não distantes ideologicamente pelo menos muito mais desiludidos com o Rússia Unida.

“O partido está numa crise total. Não tem nada, absolutamente nada de novo para oferecer aos eleitores”, disse o analista político Aleksandr Kynev à agência de notícia France Presse.