Internacional

EUA mandou a China fechar o consulado de Houston. Pequim acatou, mas antes mandou queimar documentos

22 julho 2020 15:36

Margarida Mota

Jornalista

Viatura dos bombeiros de Houston parada junto ao consulado chinês daquela cidade do Texas, na madrugada desta quarta-feira

mark felix / afp / getty images

Alertados para fogo no consulado chinês na cidade texana de Houston, os bombeiros locais não tiveram quem lhes facilitasse o acesso ao interior, onde, segundo testemunhas, havia pessoas a queimar documentos. Horas antes, os EUA tinham ordenado o encerramento daquela missão diplomática. É o último episódio de uma escalada da tensão entre Estados Unidos e China

22 julho 2020 15:36

Margarida Mota

Jornalista

Com os Estados Unidos a ferro e fogo, com várias cidades tomadas por protestos antirracismo e muita polícia nas ruas, a chamada dos bombeiros de Houston (estado do Texas) a uma ocorrência na cidade poderia não ser uma notícia importante não fosse o local do incidente o consulado da China.

Na terça-feira, era já noite escura, um clarão de chamas encimado por uma coluna de fumo preto saído de dentro do consulado despertou a atenção de locais que alertaram os bombeiros. “As autoridades responderam a relatos de um incêndio no consulado”, noticiou o jornal “Houston Chronicle”. “Testemunhas afirmaram que havia pessoas a queimar papéis no que pareciam ser latas do lixo.”

Com o raiar do dia, imagens aéreas fizeram luz sobre várias fogueiras que ainda ardiam num pátio interior — pensa-se que para queimar documentos —, vigiadas de perto por pessoal do consulado. No exterior do edifício, era também visível o dispositivo dos bombeiros, sem que ninguém lhes facilitasse a entrada.

Horas antes deste episódio, a “guerra fria” entre Estados Unidos e China tinha subido a um novo e perigoso patamar, com Washington a dar 72 horas a Pequim para encerrar o seu consulado naquela cidade texana — o primeiro aberto pela República Popular, em 1979, após os EUA reconhecerem formalmente a China comunista.

Washington justificou a decisão com a necessidade de proteger propriedade intelectual norte-americana e informação privada. Nesse mesmo dia, o Governo dos EUA tinha denunciado que dois “hackers” (piratas informáticos) chineses roubaram centenas de milhões de dólares em segredos comerciais de empresas que estão a trabalhar numa vacina contra a covid-19.

“Os Estados Unidos não tolerarão as violações da República Popular da China da nossa soberania e a intimidação do nosso povo, assim como as práticas comerciais desleais, o roubo de empregos americanos e outros comportamentos”, reagiu Morgan Ortagus, porta-voz do Departamento de Estado dos EUA.

Gigantes desavindos, da covid a Hong Kong

Esta sucessão de casos contribui para acicatar ainda mais os ânimos entre os dois pesos pesados da geopolítica mundial. Desde que Donald Trump entrou na Casa Branca que as duas maiores economias do mundo se envolveram numa guerra comercial sem tréguas, travam braços de ferro em vários outros domínios — da tecnologia à questão de Hong Kong — e revelam-se incapazes de esboçar a mínima cooperação face à pandemia de covid-19 que ameaça todo o mundo.

Wang Wenbin, porta-voz do Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros, considerou este episódio “uma escalada sem precedentes” entre os dois países. “A China exige que os EUA revoguem essa decisão errada. Se os EUA forem em frente, a China tomará as contramedidas necessárias”, afirmou, citado pelo jornal “South China Morning Post”.

Segundo a agência Reuters, Pequim está a equacionar ordenar o encerramento da representação diplomática dos EUA em Wuhan — a cidade chinesa onde primeiro foi detetado o novo coronavírus. Atualmente, para além de Wuhan e da embaixada em Pequim, os EUA têm mais quatro consulados na China Continental: Xangai, Guangzhou, Chengdu, e Shenyang.

Nos Estados Unidos, a China dispõe de igual número de representações diplomáticas. Além da embaixada em Washington DC, tem consulados em Nova Iorque, Chicago, Los Angeles, São Francisco e Houston — esta última com ordem para fechar portas. O prazo termina às 16 horas de sexta-feira (22 horas em Portugal Continental).