Internacional

Tino Chrupalla. O novo líder da AfD é um radical que usa “laca democrática”

2 dezembro 2019 23:40

Tino Chrupalla durante o congresso da AfD que o elegeu para a liderança do partido, juntamente com Jörg Meuthen

clemens bilan

Partido da ultra direita da Alemanha elegeu nova liderança. No discurso de vitória, Tino Chrupalla, um político jovem que já esteve na CDU de Angela Merkel, pediu consensos. Para muitos, mais do que uma convicção, trata-se de estratégia: a AfD quer, definitivamente, entrar no jogo do poder

2 dezembro 2019 23:40

A Alternativa para a Alemanha (AfD) elegeu este fim de semana os seus dois novos líderes com o objetivo de se tornar um partido de poder num prazo tão breve quanto possível. Para isso, um dos eleitos, Tino Chrupalla, tem uma receita: é preciso abandonar a “linguagem drástica” e seguir uma política de “bom senso”.

A AfD é o partido mais radical da direita alemã, ocupa 90 lugares no Bundestag, o Parlamento Federal alemão, e tem crescido nas últimas eleições, sobretudo a leste. Tem uma liderança bicéfala, até aqui partilhada por Jörg Meuthen e Alexander Gauland, um dos fundadores do partido, em 2013. No congresso deste sábado, o primeiro foi reconduzido e o segundo passou a membro honorário, sendo substituído na liderança por uma espécie de discípulo: Tino Chrupalla, número dois da bancada parlamentar da AfD, nascido há 44 anos na então RDA e pintor de obras de profissão.

Tal como Gauland, Chrupalla tem no currículo uma passagem pela CDU, o partido de centro-direita até há um ano liderado pela chanceler Angela Merkel. E tal como Gauland, que pediu na hora de despedida que se evite uma deriva extremista, Chrupalla aposta num discurso moderado, não necessariamente igual às suas convicções. “Vejo isto como estratégia, uma forma de ganhar espaço ao centro e de entrar cada vez mais na sociedade”, analisa Mónica Dias, professora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica. É, insiste, “um processo de normalização” da AfD, que está “aos poucos a ser trazida para o salão”. O salão é o jogo democrático que o partido não parecia disposto a jogar, mas que, mesmo a ala mais radical, percebeu ser necessário.

Foi essa ala, chamada precisamente “Ala” ou “Facção” (“Flüge”, em alemão), que permitiu eleger Tino Chrupalla. E é também por causa dela que Mónica Dias desconfia do discurso, que diz ser o de um radical a usar “laca democrática”. Não pertencendo a nenhuma ala do partido, o novo líder consegue jogar nas duas. Tanto pede consenso, como é o homem que diz falar de “problemas reais” como a “islamização” da Alemanha ou a forma como “os refugiados fazem disparar as despesas sociais”. Como noutros países, cavalgou o descontentamento de uma parte da população, sobretudo na Saxónia, no Leste da Alemanha, de onde é originário. Chegou ao Parlamento há dois anos, quando também a AfD por lá se estreava.

Se as disputas internas são a causa para a “fraca prestação” da AfD no Bundestag até agora, Chrupalla aparece como o homem capaz de unir o partido e “criar uma frente comum”. A estratégia parece estar a ser montada há muito: em maio foi Chrupalla quem esteve em representação da AfD num encontro com Steve Bannon, estratega da campanha que elegeu Donald Trump em 2016. O alemão considerou a reunião “interessante” e “instrutiva”.

Tino Chrupalla, à direita, aperta a mão de um deputado da AfD, Karsten Hilse, sob o olhar do fundador do partido, Alexander Gauland

Tino Chrupalla, à direita, aperta a mão de um deputado da AfD, Karsten Hilse, sob o olhar do fundador do partido, Alexander Gauland

clemens bilan

Para a professora da Católica, o novo líder vem na onda de Gauland e do próprio Meuthen, com quem partilhará a liderança do partido. “É uma onda mais astuta, no sentido de conquistar conservadores também ao centro-direita.” A sensação de falta de alternativas na direita alemã, sobretudo com a aproximação ao centro da CDU, agora liderada por Annegret Kramp-Karrenbauer, parece abrir as portas e as janelas do salão democrático alemão à AfD.

Que Tino Chrupalla tenha feito parte da juventude partidária dessa mesma CDU também não é indiferente, num partido radical que quer aparentar moderação. “É isso que o torna tão apelativo, que faz com que as pessoas pensem que ele e os seus são só mais conservadores.”

AfD não é “extrema-direita”, o que não significa que não seja perigosa

Bastas vezes nomeado como um partido de extrema-direita, sobretudo pela imprensa fora da Alemanha, a AfD não se presta a rótulos simplistas. A começar pelo facto de no país os partidos de extrema-direita, nazis, terem de ser vigiados pelo Gabinete para a Protecção da Constituição, o que ainda não acontece com a AfD. “É preciso cuidado com as palavras”, alerta Mónica Dias. Mas também com as “ideias perigosas” que se podem esconder por trás delas.

O partido é formado por uma direita tradicional e conservadora, sendo que uma parte “namora as ideias nazis”, quando não as defende abertamente. Essa parte é liderada pelo fascista Björn Höcke, que tinha esperança de que este congresso desse ainda mais poder à sua “Flüge”, que representa já quase 40% da AfD. Mas o que o congresso ditou foi moderação, mesmo que maquilhada. A esse propósito, Mónica Dias recorda que tanto Tino Chrupalla como Alexander Gauland “já tiveram afirmações de um antissemitismo que não conseguem esconder” e que “os radicais entram quando os outros estão distraídos”. No ano passado, por exemplo, Gualand relativizou o nazismo, dizendo que “Hitler e os nacionais-socialistas [o partido NSDAP do Führer] não foram mais do que um excremento de pássaro em mil anos de história alemã de sucesso”.

O espectro do nazismo não é por isso estranho ao partido. O congresso que decorreu em Braunschweig, na Baixa Saxónia, no Leste do país, foi acompanhado pelo protesto de cerca de 20 mil pessoas, segundo as contas do “Der Spiegel”, que gritavam slogans como “Toda a Alemanha odeia a AfD” ou “Sem lugar para Nazis”. A Alemanha está dividida e atenta. A imprensa de referência evita oferecer tempo de antena desnecessário às tricas internas do partido, “o que é um exercício difícil numa democracia”, como afirma Mónica Dias.

Congresso que elegeu nova liderança na AfD marcado por protestos massivos de manifestantes anti-fascistas

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focke strangmann

“Chamam-nos nazis, fascistas e terroristas de extrema-direita, mas precisamos de ser sensatos e resilientes”, disse Alexander Gauland, na abertura. Antes de apontar o caminho que quer ver o partido trilhar. “Se Os Verdes, Vermelhos [o SPD, Partido Social Democrata] e Vermelho Escuro [Die Linke] ficarem juntos, então vai chegar o dia em que uma fraca CDU apenas terá uma opção: nós.”

A ambição de se tornar poder é clara, mas por enquanto as portas de uma coligação têm estado fechadas e a AfD vive em isolamento parlamentar. A vitória dos moderados pode, no entanto, servir como “operação de charme” no sentido de crescer a nível estadual e, por fim, federal. O objetivo é “ser aquele junior party que permite ganhar eleições”, afirma a professora da Universidade Católica, para quem as “pontes” que Tino Chrupalla diz querer construir não são “pontes de paz”. “É uma ponte entre a AfD e a CDU para chegar ao poder”. E é por isso que, alerta, “é preciso manter a vigilância democrática”.