Internacional

Johnson vence o debate com 51% mas Corbyn consegue 49% de aprovação. Vamos falar das consequências de declarar vitória com estas margens?

19 novembro 2019 23:44

Ana França

Ana França

Jornalista da secção Internacional

handout / getty

Os indecisos continuam como estavam até aqui. Jeremy Corbyn, líder dos trabalhistas, e Boris Johnson, líder dos conservadores que se recandidata a primeiro-ministro, debateram durante uma hora esta terça-feira mas nem o tempo destinado a cada um nem o modelo do debate permitiu que se aprofundassem os temas trazidos a discussão

19 novembro 2019 23:44

Ana França

Ana França

Jornalista da secção Internacional

Jeremy Corbyn teve uma boa prestação, mas ainda não foi desta que destronou Boris Johnson. Já o primeiro-ministro não ofereceu motivos para que sobre ele se escrevessem notícias, boas ou más, e fora essa a encomenda dos seus conselheiros. Johnson conseguiu tornar ainda mais claras as inconsistências ideológicas de Corbyn sobre o Brexit, mas o público do debate de terça-feira na ITV riu-se quando o conservador afirmou ser um homem que valoriza a verdade, o que é um mau indicador.

Como se previa, nem Johnson nem Corbyn quiseram sair das suas zonas de conforto e até agora não houve nenhum comentador “não-alinhado” com um ou outro partido disponível para argumentar pela vitória clara de um destes homens. Um deles vai liderar o Reino Unido depois das eleições de 12 de dezembro, durante aquela que será decerto uma das fases mais conturbadas da vida política do país desde o fim da Segunda Guerra Mundial - ou pelo menos das mais definidoras. Momentos tumultuosos houve muitos, com os ‘Troubles’, na Irlanda do Norte, entre os mais significativos. Um medo que se reavivou com a possibilidade do Brexit. É uma questão complexa e o modelo do debate escolhido pela ITV, baseado em perguntas dos espectadores e apenas durante uma hora, não promove o aprofundamento de temas.

Os dois líderes centraram-se nos investimentos públicos que ambos tencionam fazer - e no Brexit, como também já se adivinhava. Johnson foi bem mais cacofónico do que Corbyn e voltou ao tema da saída da UE na segunda parte do debate, quando a moderadora já tinha passado para as políticas internas. Foi repreendido por isso e por ter ultrapassado algumas vezes o tempo que lhe estava destinado para falar.

Depois de uma primeira pergunta sobre se o Reino Unido vai ou não permanecer unido depois do Brexit - união com a qual ambos se comprometeram -, Johnson passou ao ataque que já tinha desenhado. Corbyn estava avisado de que lado viriam os golpes, já que o primeiro-ministro britânico tornou público, durante a tarde, que tencionava pressioná-lo, e bastante, quanto às suas posições sobre o Brexit, que o trabalhista várias vezes se escusou a definir. “Corbyn não nos diz por que lado fará campanha em caso de referendo”, instigou Johnson, depois de o adversário ter defendido um novo acordo (negociado pelo futuro Governo trabalhista) e a respetiva sujeição a consulta popular, com a alternativa de ficar na UE.

“Se a política do Partido Trabalhista for aplicada, não sabemos de que lado se posicionará o senhor Corbyn, se pelo leave, se pelo remain”, reforçou Johnson. E, para terminar, para deixar mesmo muito claro o quão opaco o líder trabalhista tem sido este tempo tempo: “Ele acredita no que está a propor? Ou talvez pense, de forma um pouco absurda, em fazer campanha pelo remain e, portanto, contra o acordo que diz que vai renegociar?”.

Corbyn limitou-se a dizer que o próprio Johnson votou contra o acordo da ex-primeira-ministra Theresa May, mas foi incapaz de falar tão alto ou com tanta clareza neste capítulo. Limitou-se a dizer, quando o primeiro-ministro referiu que para restituir a confiança dos britânicos nos políticos é preciso fazer do Brexit uma realidade, que o dever dos representantes eleitos é ouvir as pessoas, de onde a sua proposta de segundo referendo com uma “proposta credível para quem apoia o leave”. O que Corbyn quer conseguir junto da UE passa por um estreitamento das relações comerciais, o que pode não ir ao encontro das expectativas dos leavers que querem mesmo leave - mais controlos fronteiriços, recuperação total das águas territoriais e liberdade para assinar tratados com qualquer país fora da UE podem ser sonhos desfeitos se Corbyn decidir manter-se quase totalmente dentro dos regulamentos da UE.

Ambos os candidatos quiserem fazer transparecer a ideia de guardiões do Serviço Nacional de Saúde (NHS, em inglês), com Johnson a prometer construir mais 40 hospitais. Um número impressionante e de imediato analisado à lupa pelos jornalistas que quase todos os canais e jornais tinham destinado para fazer o fact-checking. Como explica “The Guardian”, a maioria dos 3000 milhões de libras (3500 milhões de euros) que os conservadores destinaram ao NHS vai ser entregue a seis hospitais que precisam de reconstrução urgente. Há mais 21 que vão receber no seu conjunto cerca de 100 milhões (117 milhões de euros) para poderem dar “os primeiros passos” na requalificação ou construção de unidades novas ou já existentes, isto entre 2025 e 2030.

Não sendo mentira, e sendo todo o dinheiro para os hospitais visto como medida positiva, os detalhes que a equipa do jornal “The Guardian” escavou mostram muito do que faltou neste debate: tempo para se entender como Johnson pretende financiar os seus projetos - e o mesmo pode ser dito de Corbyn, que não conseguiu explicar como vai pagar, por exemplo, Internet de fibra ótica para o todo o país ou com que contrapartidas vai convencer os acionistas da BT Outreach, empresa responsável pela Internet super-rápida, a abdicarem do seu negócio para a esfera pública.

Por outro lado, e ainda no que toca ao NHS, Corbyn tentou trazer para o debate os perigos da privatização da saúde, agitando documentos que, garantiu, provam que já houve encontros entre representantes do Governo e investidores norte-americanos. Há fontes que corroboram tais medos - e que o trabalhista espera passar a todos os que dependem do NHS - mas Johnson manteve-se tão firme quanto sempre foi: “O NHS não está à venda nem nunca estará”, repetiu.

Se uma vitória de 51% para 49% fosse o suficiente para cantar vitória, possivelmente estas eleições nem sequer aconteceriam: o Brexit estava resolvido e os britânicos já tinham assinado acordos lucrativos e bilaterais com todos os seus parceiros europeus ou reforçado a produção interna de curgetes e medicamentos, duas das mercadorias que importam em larga escala de países que ficam a sul do Canal da Mancha. Não houve vencedor claro e 49% de apoio à prestação de Corbyn bastam para descansar os trabalhistas.

Johnson pareceu mais eficiente a passar a mensagem mas não escapou a um um ou dois momentos embaraçosos: talvez o mais confrangedor, foi quando a plateia soltou uma gargalhada coletiva ao ouvir o primeiro-ministro afirmar que acredita na importância da verdade. Se isso provoca uma gargalhada espontânea num público escolhido pela diversidade de opiniões políticas, alguma análise será preciso fazer esta noite. Enquanto Johnson dizia que claro que é possível confiar nele, os conservadores modificaram o seu perfil no Twitter para parecer uma conta independente de fact-checking, de onde passaram a publicar críticas a Corbyn e elogios aos planos dos conservadores.

Sobre a união do Reino Unido, uma das primeiras perguntas feitas, Johnson terá descansado alguns e enervado talvez aqueles brexiters mais duros que consideram o desmembramento do país um preço razoável a pagar pelo Brexit. Para o governante, o Reino Unido é mais importante do que o Brexit.

Ainda assim a líder dos nacionalistas escoceses (SNP) e a pessoa mais bem posicionada para se tornar obreira de consensos pós-eleitorais, Nicola Sturgeon, desaconselha o voto em qualquer dos dois: “É óbvio para a Escócia que nenhum destes homens deve poder determinar o nosso futuro. Jeremy Corbyn não consegue decidir se é leave ou remain e Boris Johnson está apostado em retirar a Escócia da UE, coisa que vai contra a nossa vontade expressa”, disse, citada pela imprensa britânica. No referendo de 2016, o remain ganhou na Escócia com 62% dos votos.

Fora do debate ficou a líder dos Liberais Democratas, Jo Swinson. Esta bem tentou e perdeu, em tribunal, impor a sua presença. Tal não a inibiu de dizer que a solução são novas caras. “As pessoas em casa merecem muito mais do que aquilo que lhes foi oferecido esta noite. Ambas as pessoas naquele palco desejam um Brexit e não havia ninguém a defender o remain, que é o melhor para a nossa economia, o nosso ambiente e o NHS. Há um futuro melhor à nossa frente mas não está representando por nenhum destes partidos, ambos cansados e velhos”, escreveu num comunicado divulgado nas redes sociais do partido.

Já na fase mais ligeira do debate, quando ambos os líderes tiveram de responder sobre que líder político mundial mais admiram, quase se podiam ver os olhos de Johnson a brilhar à espera de um “Nicolás Maduro” por parte de Corbyn. Mas o líder dos trabalhistas foi bastante mais diplomático: “António Guterres, porque está a tentar unir o mundo”. Johnson agradeceu coletivamente aos líderes da UE que o ajudaram a conseguir um “fabuloso acordo”.

Guardamos a surpresa da noite para o fim: Nigel Farage considera Corbyn um argumentador “muito superior” mas as nove vezes que o líder dos trabalhistas se recusou a dizer o que pensa do Brexit desanimaram o líder do Brexit Party, que, com mais um empurrãozinho, ainda acaba a dizer aos britânicos para votarem em Corbyn, furioso que está com os conservadores. “Jeremy Corbyn não disse se lutaria pelo leave ou pelo remain no referendo que quer oferecer aos britânicos e isso é uma falha de liderança", sentenciou.