Áustria

Ibiza-gate. O caso que dinamitou a coligação na Áustria e faz tremer a extrema-direita

25 maio 2019 12:45

Heinz-Christian Strache, líder da extrema-direita na Áustria e ex-vice-chanceler

handout

Um vídeo de 2017, gravado três meses antes das eleições legislativas mas só agora divulgado, fez colapsar a coligação governativa entre o Partido Popular, do chanceler austríaco, e o Partido da Liberdade, de extrema-direita. O chanceler apressou-se a anunciar eleições antecipadas, demarcando-se das declarações polémicas do seu parceiro. Esta segunda-feira, o dia seguinte às eleições europeias, deverá enfrentar uma moção de censura e há quem garanta que Sebastian Kurz “já não será chanceler na terça”

25 maio 2019 12:45

“A turbulência política na Áustria prova que as fundações democráticas liberais do país ainda estão robustas.” A analise é do diretor do EPICENTER – Centro de Informações de Política Europeia, Adam Bartha, e a “turbulência” de que fala está relacionada com um vídeo com quase dois anos, divulgado no último fim de semana, que levou à derrocada da coligação governativa do Partido Popular Austríaco (ÖVP, conservador) com o Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ). Nele, o líder desta formação de extrema-direita, Heinz-Christian Strache, surge a prometer contratos governamentais à sobrinha de um oligarca russo próximo do Presidente Vladimir Putin.

O chanceler Sebastian Kurz, que lidera o ÖVP, não gostou do que viu e, depois da saída do vice-chanceler Strache logo no sábado, conseguiu o apoio do Presidente austríaco, Alexander Van der Bellen, para derrubar o ministro do Interior (uma das pastas assumidas pelo FPÖ), Herbert Kickl. Para o chanceler, Kickl está comprometido com o escândalo porque, no ano em que o vídeo foi gravado, este era responsável pelas finanças do partido e no vídeo aparece a discutir formas de contornar as leis de financiamento partidário. Segundo vários analistas, a purga que Kurz tenta fazer é uma manobra de sobrevivência política, numa tentativa de evitar uma reação em cadeia que leve os deputados a apontarem-lhe – também a ele – a porta de saída.

Strache comanda um dos mais bem-sucedidos partidos nacionalistas e anti-imigração da Europa, que, ao conquistar um quarto dos votos nas eleições de 2017, conseguiu assegurar as pastas do Interior, da Defesa, do Trabalho e dos Transportes, além da vice-chancelaria, e nomear “independentes” como os ministros da Educação e dos Negócios Estrangeiros. “O mais importante a assinalar é que o Partido da Liberdade já não controla o Ministério do Interior. Herbert Kickl nunca escondeu o seu desdém pelo Estado de Direito, dizendo que a lei tem de seguir a política e não o contrário”, destaca ao Expresso Philipp Stelzel, que leciona História Europeia do século XX na Universidade Duquesne de Pittsburgh, nos EUA.

Sebastian Kurz, chanceler austríaco

Sebastian Kurz, chanceler austríaco

christian bruna/epa

Os erros do chanceler

Para o professor, “permitir que Kickl ocupasse aquela posição foi provavelmente o pior dos muitos erros que o chanceler cometeu”. “Kurz acreditava – e provavelmente ainda acredita – que poderia beneficiar de uma coligação com um partido de extrema-direita, com laços significativos com o universo neonazi, sem se deixar manchar por ele, o que repetidamente provou ser uma estratégia errada”, aponta Philipp Stelzel. Apesar disso, o académico concede que nas eleições antecipadas de setembro, “o partido de Kurz deverá ganhar o voto de alguns eleitores descontentes com o FPÖ”.

O vídeo da discórdia foi gravado em julho de 2017, três meses antes das legislativas, numa casa de luxo em Ibiza, pelo que o escândalo foi rapidamente batizado de “Ibiza-gate”. A partir de Viena, a ex-funcionária da Comissão Europeia (CE) Andrea Fennesz confirma ao Expresso que “o gatilho para a queda do FPÖ como parceiro júnior no Governo de coligação foi o Ibiza-gate”. No entanto, Andrea Fennesz sublinha que “as razões são muito mais profundas”. “O FPÖ já tinha sido parceiro do ÖVP no Governo de 2000-2005 com resultados desastrosos, uma vez que os políticos do partido de extrema-direita se revelaram altamente incompetentes e corruptos”, recorda, referindo que “agora, o FPÖ voltou a tropeçar por causa da ganância por dinheiro conseguido através de canais corruptos e obscuros”.

"A extrema-direita comandará a sua própria queda"

Radosveta Vassileva, académica búlgara da área da Justiça, relativiza os temores de uma ascensão da extrema-direita na Europa. “Parece que ela comandará a sua própria queda. Por trás da retórica da extrema-direita, encontra-se frequentemente o fantasma da corrupção que naturalmente provoca agitação popular”, diagnostica. “Claro que podemos ir mais fundo e questionar por que motivo o vídeo só aparece agora. Quem teve interesse em manter este vídeo em segredo durante tanto tempo? Haverá mais vídeos? E quem estará interessado em tornar estes vídeos públicos antes das eleições europeias?”, questiona-se ao Expresso.

A académica búlgara não resiste a comparar a situação austríaca com a política do seu país natal. “A primeira coisa que salta à vista é a reação rápida do chanceler ao anunciar eleições antecipadas. Em absoluto contraste, a Bulgária tem sido abalada por múltiplos escândalos de corrupção nos últimos anos, mas o Governo do GERB [Cidadãos pelo Desenvolvimento Europeu da Bulgária] agarra-se ao poder como um homem que se está a afogar se agarra a uma palhinha”, critica.

Salvini, o homem que quer liderar os nacionalistas da UE

Salvini, o homem que quer liderar os nacionalistas da UE

alessandro garofalo/reuters

A cortina de ferro entre Áustria e Hungria

Também a antiga funcionária da CE ensaia extrapolações transnacionais, aproximando o caso austríaco dos casos do Partido do Brexit, de Nigel Farage, no Reino Unido, ou da Liga, de Matteo Salvini, em Itália. “Os partidos de extrema-direita na Europa têm sido todos corrompidos e apoiados por financiamento estrangeiro massivo. Resta saber se a implosão de um partido de extrema-direita terá efeitos nas eleições para o Parlamento Europeu”, remata Andrea Fennesz.

O diretor do EPICENTER lembra que em 2017, quando Kurz formou o Governo de coligação, “muitos temeram que o país fosse pelo mesmo caminho do iliberalismo do seu vizinho de leste, a Hungria”. “Aparentemente, essa era a intenção de Strache, que desejava usar o mesmo manual do primeiro-ministro húngaro. Alguns dirigentes do FPÖ tentaram formar um conglomerado de media fiéis ao partido com dinheiro russo, à maneira húngara, mas isso nunca se materializou”, compara. “Parece que a cortina de ferro entre a Áustria e a Hungria ainda não desapareceu, pelo menos no que diz respeito às consequências políticas de comportamentos corruptos. Isso é uma boa notícia para o povo austríaco, que terá a oportunidade de eleger novos deputados em setembro”, vaticina Adam Bartha.

Para já, esta segunda-feira, um dia depois da eleições europeias, será votada uma moção de censura ao Governo numa sessão parlamentar extraordinária. O deputado Peter Pilz, d’Os Verdes austríacos, não tem dúvidas de que a moção que apresentará “será bem-sucedida” e que Kurz “já não será chanceler na terça-feira”, disse à agência de notícias Reuters. Pamela Rendi-Wagner, líder dos sociais-democratas, defende que se os representantes do FPÖ na coligação governativa forem substituídos por tecnocratas, então todos os ministros, incluindo os do ÖVP, também devem ser substituídos. É, por isso, em pleno tumulto político interno que os austríacos votam este domingo para elegerem os seus deputados ao Parlamento Europeu.