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“Três direitas” espanholas juntam-se para pressionar o Governo em semana decisiva

FERNANDO VILLAR

Direitas juntas para derrubar o Governo, um Orçamento por aprovar e um processo que promete espoletar novas tensões com os independentistas catalães. Esta pode ser a semana de todas as tensões, e decisões, para o Governo espanhol. Este domingo, uma original 'fotografia de família' inaugurou o que a oposição diz ser “o fim de uma legislatura esgotada

Uma manifestação que juntou pelo menos 45 mil pessoas nas ruas de Madrid - e deu origem a uma original foto de família das direitas espanholas - funcionou como um gatilho para uma potencial crise política no país vizinho. O cocktail não se faz apenas dos protestos na rua: por entre a rutura das negociações entre o Governo e os independentistas catalães, a apresentação do Orçamento do Estado e o julgamento dos líderes separatistas da Catalunha, esta será a semana (do início) de todas as decisões em Espanha.

O auge da agitação foi atingido este domingo, com a manifestação que levou 45 mil ou 200 mil manifestantes à Praça de Colón, consoante se leiam os números apresentados pelo Executivo ou pela organização. Com o lema "Por uma Espanha unida, eleições já", agitaram-se bandeiras espanholas, gritaram-se frases de rutura contra os catalães independentistas e pediu-se a demissão do Executivo. Mas a maior originalidade foi a de esta manifestação ter sido convocada em conjunto por aquilo que Pedro Sánchez, primeiro-ministro espanhol, batizou como "as três direitas": por um lado, o tradicional PP, liderado por Pablo Casado; por outro, o mais recente Cidadãos, com o líder carismático Albert Rivera; mas, mais surpreendente, juntou-se-lhes ainda o partido de extrema-direita Vox, de Santiago Abascal, que na Andaluzia fez tremer a convicção de que a extrema-direita não chegaria a Espanha e agora se mostra disponível para integrar uma solução de Governo a nível nacional.

A nova família das direitas nasceu oficialmente com uma fotografia simbólica que juntou os três líderes (e que dividiu o Cidadãos: Manuel Valls, que se candidata pelo partido à Câmara de Barcelona, recusou-se a aparecer ao lado dos extremistas do Vox na imagem). Os discursos têm variantes: Casado falou de um "ponto de inflexão" e celebrou o que disse ser o início da "reconquista"; Rivera anunciou o fim de uma legislatura "esgotada"; Abascal exigiu o final do "golpe", ou processo de autonomia da Catalunha, e a prisão do líder da Generalitat (Governo catalão), Quim Torra. Unidos por um objetivo comum: deitar abaixo Sánchez e convocar novas eleições.

Paralelamente, um outro processo poderia dar-lhes força: na sexta-feira, os independentistas catalães romperam as negociações com o Governo, deixando Sánchez numa posição delicada - por um lado já mostrou flexibilidade ao nomear um mediador para o processo, dando aos separatistas uma espécie de dignidade diplomática; por outro, para estes, que continuam a exigir a independência, não cedeu o suficiente. O que complica as contas é a apresentação do Orçamento do Estado do Executivo, marcada para esta segunda-feira, ao que se seguirá a votação do documento, na quarta - Sánchez está dependente dos independentistas, com quem fez acordo para poder formar um Governo minoritário, para o aprovar. Mas, segundo o jornal "El País", o antigo líder da Generalitat, Puidgemont, acredita que as dimensões da manifestação não terão sido suficientes para obrigar Sánchez a romper definitvamente com os independentistas, dando-lhe espaço para voltar à mesa das negociações.

O terceiro elemento que poderá precipitar uma crise política, ou pelo menos agudizar o ambiente de tensão, é o início do processo no Supremo Tribunal que irá julgar os catalães que tentaram declarar a independência, marcado para esta terça-feira. O julgamento sobre atos como o referendo para concretizar a autonomia, a violência policial que se registou na altura ou a fuga de Puidgemont servirão para confrontar as versões sobre o que uns consideram uma reivindicação legítima e outros uma tentativa de rebelião e uma prova de deslealdade. Escreve o diário "El País" que "o processo é, entre outras coisas, uma disputa retórica para impor uma narrativa". A juntar-se à tensão política e à aliança das direitas, será mais um elemento de pressão a somar a uma semana difícil para o Governo espanhol.