O que Portugal precisa para crescer

“Há lentidão nos processos, mas há muito medo de arriscar. Precisamos de mais doses de loucura saudável”

11 janeiro 2023 16:52

Ana Baptista

ana brigida

Decorreu esta terça-feira à noite, na SIC Notícias, o mais recente dos debates que o Expresso e a Fundação Francisco Manuel dos Santos organizaram nos últimos sete meses sobre o que Portugal precisa para crescer

11 janeiro 2023 16:52

Ana Baptista

Depois de seis análises escritas, seis debates televisivos e mais de 40 professores, empresários e economistas entrevistados concluímos que Portugal ainda precisa de mudar muita coisa para a economia crescer. Mas, para os convidados deste debate - Nuno Sebastião, co-fundador e CEO da Feedzai; Carlos Ribas, representante da Bosch em Portugal; João Gomes da Silva, administrador da Sogrape e Joana Astolfi, arquiteta e designer no Studio Astolfi - uma das principais revoluções a fazer é na mentalidade conservadora e de baixo risco que ainda lhe é tão característica. E só o dizem porque eles próprios são exemplo de que, mesmo com entraves e dificuldades ao longo do caminho, é possível arriscar e fazer algo único em Portugal e exportá-lo com valor acrescentado. Estas são as principais conclusões.

1. Uma dose de loucura saudável

  • João Gomes da Silva conta que a Sogrape foi criada “em plena Segunda Guerra Mundial”, numa altura em “que o ambiente económico não era o melhor para fazer um produto de exportação”. Mas arriscaram e hoje, a Sogrape é uma das maiores produtoras de vinho e uma das maiores exportadoras do país.
  • “Há aqui uma dose de loucura saudável”, diz, e é isso que as empresas portuguesas precisam para crescer, acrescenta Joana Astolfi, “de mais doses dessa loucura saudável”. “Há muita lentidão nos processos, mas mais que tudo há uma questão de mentalidade, há muito medo de arriscar”, comenta. É que, para a arquiteta e designer “Portugal tem tudo. É a base perfeita para trabalhar de dentro para fora”, mas é preciso arriscar e criar coisas únicas. “Não são só diferentes, são únicas”, reforça.
  • E têm, desde cedo, de ser pensadas para exportar, porque, diz Nuno Sebastião, “as empresas quando nascem já têm de estar viradas para o mundo como cliente”. Além disso, têm de ter um objetivo muito focado ou como “costumo
    costuma dizer, ser o melhor do mundo a fazer aquele parafuso”.
  • E é preciso inovar e querer sempre acompanhar as tendências, porque “uma empresa que não inova não tem futuro”, diz, assertivamente, Carlos Ribas. Mesmo numa empresa como a Sogrape. “As pessoas não têm noção da tecnologia que é preciso para fazer algo tão simples como transformar uvas em vinho”, repara João Gomes da Silva.
Joana Astolfi, designer e Nuno Sebastião, da Feedzai

Joana Astolfi, designer e Nuno Sebastião, da Feedzai

ana brigida

2. Bons exemplos

  • Quando a Feedzai foi criada, em 2008, desenvolveu algo que não existia no mercado: uma forma de detetar e evitar fraudes nos pagamentos eletrónicos através da inteligência artificial. O impacto foi tanto que a empresa começou a angariar investidores estrangeiros e, em março de 2021, passou a unicórnio, ou seja, passou a ser avaliada em mais de mil milhões de dólares. E apesar de ter “todos os investidores todos a pedir para ir para fora”, a Feedzai mantém a sede em Coimbra, de onde trabalha para o mundo inteiro. “Se fores muito bom, o dinheiro vem ter contigo e as pessoas querem trabalhar contigo”, independentemente de onde esteja a empresa, diz Nuno Sebastião. Contudo, sabe que, no dia em que ele e os seus colegas fundadores saírem da empresa, “a sede muda logo para os EUA”, porque é lá “que está mais de 70% do capital” assim como os investidores com maior capacidade de arriscar.
  • Já a Bosch Portugal, neste caso em Braga, começou a trabalhar com a Universidade do Minho e, em menos de dez anos, passou de uma fabricante de simples auto-rádios para uma incubadora de tecnologias e produtos inovadores que só se fazem em Portugal e têm grande repercussão no estrangeiro. “Mais de 30% da faturação de uma das nossas fábricas vem de uma peça que surgiu deste processo de inovação”, diz Carlos Ribas.
Carlos Ribas, da Bosch e João Gomes da Silva, da Sogrape

Carlos Ribas, da Bosch e João Gomes da Silva, da Sogrape

ana brigida

3. Criar cadeias de valor completas

  • A mudança de mentalidade é, talvez, a revolução que Portugal precisa que mais tempo vai demorar. Há, outras que, com a força dos privados e vontade política, podem ser mais rápidas. Como reduzir a burocracia; tomar decisões mais céleres; ter melhores ligações ferroviárias à Europa e dentro do próprio país; investir mais na educação; reforçar a apostar na qualificação de trabalhadores e gestores; ou ainda melhorar a imagem e a marca de Portugal no mundo.
  • Depois, é ainda preciso ter um regime de impostos para as empresas e trabalhadores mais baixo e estável. Isto porque, de acordo com Pedro Brinca, professor associado da Nova School of Business (SBE), que não esteve no debate, mas foi um dos entrevistados na peça transmitida antes, “nos anos 2010, Portugal teve três regimes diferentes de IRC”. E, diz João Gomes da Silva, “não temos competitividade fiscal sobre o fator trabalho no regime de IRC. Ir buscar quadros internacionais para os reter em Portugal e para trabalhar é uma dor de cabeça”. E o mesmo é válido para os trabalhadores portugueses, muitos dos quais acabam por sair do país. Porque, diz Carlos Ribas, se há coisa que há em Portugal é talento.
  • O que não há ainda e devia haver é mais empresas com negócios que englobem toda a cadeia de valor de um produto. “Temos softwares, moldes, têxteis, sapatos, injeção de plásticos… tudo do melhor do mundo. Mas só fazemos fatias da cadeia de valor. Temos de criar cadeias de valor completas”, conclui Carlos Ribas.