Projetos Expresso

Apoiar idosos é o desígnio de milhares de voluntários

30 dezembro 2022 10:20

André Rito

André Rito

Jornalista

Centenas de voluntários juntaram-se à Associação Amigos da Estrela para distribuírem cabazes alimentares pelos mais carenciados

nuno botelho

Solidariedade: num Portugal desigual, há voluntários espalhados pelo país que levam refeições a casa, fazem obras de bricolage, distribuem afeto e companhia pelos mais isolados e ajudam os mais velhos

30 dezembro 2022 10:20

André Rito

André Rito

Jornalista

Na semana passada, em vésperas do Natal, os dias foram agitados para os voluntários da Associação Amigos da Estrela. A operação envolveu 300 pessoas, que, no fim do seu dia de trabalho, destinaram algumas horas a transportar cabazes de alimentos para famílias carenciadas da Grande Lisboa. Mas o trabalho da instituição (uma das distinguidas com o Prémio BPI Fundação “la Caixa” Seniores) vai muito além do apoio nesta quadra: aqui transformam-se vidas, tal como milhares de voluntários fazem por todo o país.

€1,3 milhões foi o valor distribuído por 36 instituições que prestam apoio aos mais idosos. O objetivo é impulsio­nar projetos que promovam a autonomia pessoal e o bem-estar das pessoas com mais de 65 anos, com enfoque no fortalecimento das relações interpessoais, na prevenção de situações de fragilidade e isolamento. Maria João Sousa, presidente da associação, que recebeu €32 mil, diz que o prémio vai permitir “escalar o projeto” dos Amigos da Estrela. “Vamos conseguir chegar a mais pessoas e trabalhar a sustentabilidade do próprio projeto, para que viva além deste prémio”, afirma. Com sede em Lisboa — à qual se referem como ‘casa’ —, é aqui que se reúnem muitos dos utentes das várias iniciativas que a associação promove, para participarem em diferentes ateliês, aquisição de novas competências e fazer a ponte com mais de 100 parceiros para recuperar, requalificar e capacitar a vida dos mais frágeis.

Nascido em 2017 para combater a exclusão social, o projeto evoluiu para o apoio domiciliário durante a pandemia e no acolhimento dos refugiados da Ucrânia, quando rebentou a guerra. O prémio destina-se à dinamização dos ateliês de costura, artes e culinária, com apoio de voluntários e com vista a distribuir produtos por famílias carenciadas. “Estes ateliês dirigem-se a seniores com 65, pessoas desempregadas e jovens com necessidades especiais, para sairmos um pouco da lógica do centro de dia”, diz Maria João Sousa.

Num país marcado por fortes desigualdades, é no interior que os idosos vivem em maior isolamento. Sem rede familiar ou laços sociais, muitos dependem da intervenção de projetos como o do Jardim Social do Canedo, contemplado com um prémio na ordem dos €50 mil. Através de uma carrinha que se desloca regularmente ao encontro dos utentes, “o principal objetivo é atuar no declínio cognitivo dos idosos da comunidade, através de atividades de estimulação cognitiva e sensorial”, explica a diretora técnica, Cândida Silva.

Com o financiamento, será possível chegar a novas pes­soas com a carrinha provida de equipamentos de snoezelen — um conceito holandês que proporciona experiências multissensoriais — e “alcançar os idosos com mais dificuldade de mobilidade”, aponta Cândida Silva. “Além das melhorias no desempenho cognitivo, também é esperado que as tera­pias tenham um efeito positivo na qualidade de vida e estado emocional dos utentes.”

Se o envelhecimento em Portugal é uma realidade — somos o quarto país mais envelhecido do mundo —, muitas vezes o fim do trabalho chega antes da idade. É para pessoas aparentemente velhas para arranjar trabalho, mas ainda novas para a reforma, que nasceu a 55+, até porque os números não enganam: Portugal tem mais de 2,5 milhões de pessoas inativas com mais de 55 anos.

“O prémio vai permitir disponibilizar mais serviços executados pelos nossos especialistas [que são remunerados]”, explica André Moreira, coordenador do projeto, que pretende valorizar o conhecimento e a experiência dos desempregados seniores. “São pessoas com muitos conhecimentos úteis, como bricolage ou apoio a crianças e animais de estimação.” Um dos serviços que oferecem, por exemplo, é utilizar os conhecimentos culinários desta população para fazer “jantares com um chefe ao domicílio ou simplesmente deixar refeições feitas para uma semana”, conta.

Pirâmide invertida dificulta

É fundamental promover a autonomia e desenvolver medidas para lidar com a transição demográfica

Portugal é um dos países do mundo onde a transição demográfica acontece de forma mais acentuada. Só para termos uma ideia, em 1990, por cada centena de idosos, o país tinha 65 jovens. Hoje, a pirâmide está invertida: existem 187 idosos por cada 100 jovens. Trata-se de uma das faixas etárias mais fragilizadas da nossa sociedade. É por essa razão que Manuel Caldas de Almeida, presidente da União das Misericórdias, insiste no apoio domiciliário e num “diálogo construtivo entre os ministérios do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social e das Finanças e Saúde”.

“O sector a que prestamos cuidados é o mais desprotegido financeiramente. E as verbas são sempre escassas, porque as reformas são baixas, principalmente na atual conjuntura”, caracterizada “pela guerra e aumentos generalizado dos preços”, afirma Manuel Caldas de Almeida, para quem Portugal — e o terceiro sector — enfrenta desafios enormes. Parte da solução, sobretudo para os idosos com plenas capacidades, passa pelo investimento no trabalho sénior, como forma de manter alguma atividade e reforçar as finanças.

Num país onde o fim da atividade profissional significa para muitos o início da degeneração cognitiva, António Tavares, provedor da Santa Casa da Misericórdia, lembra a importância do apoio domiciliário, que considera uma das formas mais eficazes de combate à solidão. “Uma das nossas missões é não fazer caridade, é autonomizar, e tentarmos sempre que os nossos apoios incluam a promoção da autonomia.”

Distinguidos com o prémio Seniores

  • Alzheimer Portugal — Delegação da Madeira
  • Amigos da Estrela — Associação de Solidariedade Social
  • Associação Centro Medicina Digital P5
  • Associação de Desenvolvimento do Concelho de Espinho
  • Associação de Socorros da Freguesia da Carvoeira
  • Associação Fraterna de Prevenção e Ajuda
  • Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Penela
  • Casa do Povo do Alvito
  • Centro de Bem-Estar e Repouso da Paróquia de Sever
  • Centro Social da Paróquia de Ferreiros
  • Centro Social de Vila Cã
  • Centro Social e Cultural de São Pedro do Bairro
  • Centro Social Paroquial Nossa Senhora de Fátima
  • Centro Social, Cultural e Recreativo da Carregosa
  • Cercifeira
  • Compassio — Associação para a Construção de Comunidades Compassivas
  • Complexo de Neurointervenção da Cruz Vermelha Portuguesa
  • Cruz Vermelha Portuguesa — Delegação de Aveiro
  • EM DIÁLOGO — Associação para o Desenvolvimento Social da Póvoa de Lanhoso
  • Fundação AMI
  • Fundação de Nossa Senhora da Guia
  • Fundação Otília Pessoa Murta Lourenço e Marido, Dr. José Lourenço Júnior
  • Fundação Patronato de Santo António
  • Grupo de Ação Social do Porto — GASPORTO
  • Irmandade da Santa Casa da Misericórdia da Redinha
  • Irmandade e Santa Casa da Misericórdia de Santo Tirso
  • Movimento 55+ Associação
  • Movimento Transformers
  • Nascentes de Luz — Associação de Apoio à Família
  • O Jardim — Centro de Solidariedade Social do Canedo
  • Projecto Alkantara — Associação de Luta Contra a Exclusão Social
  • Rio Neiva — Associação de Defesa do Ambiente
  • Santa Casa da Misericórdia de Espinho
  • Santa Casa da Misericórdia de Fátima-Ourém
  • Santa Casa da Misericórdia de Santiago do Cacém
  • Sociedade Filarmónica de Apoio Social e Recreio Artístico da Amadora

PROJETO SOLIDARIEDADE

O Expresso associa-se, pelo quarto ano consecutivo, ao BPI e à Fundação “la Caixa” para debater os desafios da solidariedade, do terceiro sector, das instituições que apoiam a infância, os jovens, os adultos, os seniores e as pessoas com deficiência.

Textos originalmente publicados no Expresso de 30 de dezembro de 2022